sábado, 24 de outubro de 2009

O PSD Que Se Lixe

Agora que o PS ganhou, e tendo em conta o resultado eleitoral pouco brilhante do seu adversário mais importante, o PSD, volta-se a ouvir um certo discurso habitual por parte de muitas pessoas com tendências liberais. É o discurso que se houve após cada derrota do PSD, e sempre que este partido ou o seu chefe estão em apuros. É um discurso pateta. A pergunta que tantos intelectuais mais ou menos liberais se fazem neste momento é a do melhor rumo e a do melhor chefe a escolher para o partido.

Uma das razões principais pelas quais muitos liberais, e mesmo uma certa parte da população, têm um fraco pelo PSD, é porque pensam que é menos parasita e mais liberal em termos económicos. Apesar do seu nome, Partido Social Democrata, indicar claramente que é anti-liberal. Parece que pelo menos no discurso o PSD se distancia dum ataque frontal ao capitalismo, que não tem grande simpatia pelos impostos, que quer controlar a despesa do estado, e que em geral é menos intervencionista do que o PS. Na verdade isto é retórica partidária, e uma ideia popular mas falsa.

Um dos indicadores mais importantes de liberdade económica é sem dúvida o da carga fiscal e o da despesa estadual. Não há liberdade quando se tem que abdicar duma grande parte do fruto do seu trabalho para parasitas. Ora deste ponto de vista o PSD é um desastre. Não só estes indicadores de parasitismo aumentaram sempre com o PSD, como aumentaram mais com este do que com o PS, nos anos pós-25A. Globalmente, os governos em que o PSD esteve presente foram responsáveis por 75% do aumento da despesa governamental. Os restantes 25% estão a “creditar” ao PS. O grande Partido da Mama, em Portugal, é o PSD. O que não quer dizer, obviamente, que o PS seja o partido da contenção. As estatísticas falam por si e contestam o mito prevalecente.

Um dos factores prováveis que levam a este estado de coisas é a maior resistência que o PS enfrenta quando está no poder. Como têm o discurso da mama e do imposto, as classes produtoras andam muito mais alertas para os seus actos de predação. Quando o PSD chega ao poder, baixam a guarda e são papados de forma imperial pelos seus “defensores”.

Além do mais, para qualificar de liberal o PSD seria preciso observar todos os domínios da sua governação, e compará-los com a actuação do PS nestes mesmo domínios. Afinal de contas, não há só liberdades económicas. As liberdades sociais também contam. Se este trabalho fosse feito, é possível que o PS se saísse ligeiramente melhor do que o PSD, apesar de não ser também aí grande espingarda. A única grande reforma social do PSD neste domínio, as liberdades sociais, foi a abolição do serviço militar obrigatório. Mas daí a chamá-lo de partido liberal há um grande passo.

Como aparte, diga-se que o facto da esquerda ter sido incapaz de abolir o serviço militar não deveria espantar quem tenha alguma perspectiva histórica. Sabe-se que os regimes comunistas sempre gostaram muito de desfiles militares e de forças armadas; afinal de contas, a instituição militar é o exemplo perfeito duma sociedade comunista: uma sociedade de comando, ditatorial, dirigida do topo, sem possibilidade de contestação. E além disso, o serviço militar generalizado surgiu da Revolução Francesa, evento este fomentado por movimentos revolucionários, republicanos, esquerdistas, igualitaristas e populares. Não foi fruto da elite monárquica (não havia em França serviço militar universal sob o tempo dos reis). Não foi fruto da direita conservadora, aristocrática, nem dos liberais.

O PSD não é liberal. É simplesmente um partido conservador, o que em Portugal implica ser social-democrata (como era de esperar pelo nome e pelo estado da opinião pública). O PSD pode criticar os “avanços” progressistas do PS se estiver na oposição, mas nunca destrói as medidas anteriores do seu rival quando está no puleiro. No melhor dos casos retoca-as, torna-as “razoáveis”. Frequentemente, reforça-as, para mostrar que também ele, PSD, sabe ser “social” (há pessoas que têm um medo pânico de serem chamadas de anti-sociais...). O PSD nunca ou raramente pede uma verdadeira liberalização. Nunca pede uma medida completa, justa, intransigente. Nunca rasga claramente o que está mal. Não pede que sejam suprimidas as restrições ao livre-porte de armas; simplesmente que os caçadores não tenham que passar por grandes burocracias para adquiri-lo. Não pede a saída imediata da “União” burocrática europeia; eventualmente, que os sucessivos tratados que enterram a soberania e a independência do país sejam “pensados mais calmamente”. Nunca pede a supressão dum imposto qualquer, supostamente o seu forte; simplesmente uma redução ridícula de 2 ou 3 % na taxa do imposto. O PSD só faz “oposição responsável”, o que traduzido para português significa que aceita e beneficia do status quo podre e imoral vigente. O PSD só faz reformazitas sem substância.

Qualquer pessoa com um mínimo de neurónios percebe que o PS e o PSD são fundamentalmente iguais. São socialistas, democratas, redistribuicionistas, igualitaristas, corporatistas, ligeiramente militaristas (ligeiramente, entende-se, relativamente ao regime do Salazar; para os Iraquianos ou os Afegãos a ligeireza é outra), pró-bancos centrais, pró-Nova-Ordem-Mundial (UE, NATO, ONU, etc...), sindicalistas, e de ideais marxistas mais ou menos diluidos por trinta anos de chafurdagem no Centrão democrático. Não são só eles. O Bloco de Esquerda, o CDS-PP, e o Partido Comunista também são simples sociais-democratas. Os “fachistas” maus do CDS andam a distribuir beijinhos pelas feiras, subsídios pelos agricultores, e a defender reformas maiores para os mais velhos – não andam de uniformes castanhos a partir a cabeça aos pretos. E os comunas já esqueceram aquela treta da colectivização da terra e dos meios de produção (até já falam de “defender os pequenos empresários”!), e a ditadura do proletariado é coisa do passado. Quanto ao Bloco, são comunas chiques e urbanos, mas não são “choque”; nada de radical a temer daí. As diferenças entre a direita e a esquerda são hoje em dia cosméticas. Não há verdadeira dissensão na nossa sociedade. Não há actualmente possibilidade de verdadeiro confronto político, duma guerra civil. Toda a gente, ou quase, é social-democrata. Assim sendo, é bastante cómico ver liberais a arrancarem os cabelos pelas derrotas do PSD, ou uma certa esquerda tótózinha a assustar-se com as vitórias da direita, e o regresso do “fachismo” (booh!). Como se isto mudasse fundamentalmente alguma coisa.

Voltando ao PSD, mais especificamente, tem que se ver claramente que está infectado de indivíduos sem espinha, sem princípios, cujo interesse principal é ganhar votos e poder, mais do que defender alguma visão política. É um templo de invertebrados, da mesma forma que o são os outros partidos. Basta ver como exemplo que todos os deputados dum partido votam como lhes mandam os chefes parlamentares, e não em consciência. Se eles fossem honestos, tal uniformidade só seria possível no caso improvável de todos os membros dum partido terem a mesma opinião sobre todos os assuntos... Como o PSD se interessa principalmente, ou até unicamente, com o poder, qualquer chefe que não ganhe eleições é rapidamente enxotado. E pela mesma vontade de vitórias, qualquer chefe que conquiste a liderança só o faz porque as bases e as elites intermédias do partido sabem que é uma pessoa minimamente popular, ou seja, adepta do status quo social-democrata vigente em Portugal. As pessoas não querem “mudança”. Quem diz isso ou é tonto, ou é comentador político dum partido ganhador, em noite de eleições. Balelas! As massas são sociais-democratas até às entranhas, e querem mais do mesmo. É praticamente impossível que o chefe dum “partido de governo” não seja um vendido. Tem que ser um homem que diz o que tem que dizer em vez daquilo que acredita; uma pessoa que afirma ideias e princípios contraditórios, em função dos que o ouvem; e um homem que não diz aquilo que pensa. O PSD é um mal, quer seja ou não um mal menor. Nenhum liberal pode ter a mínima onça de respeito por este bordel político.

É extremamente fútil e palerma, da parte dum liberal, gastar energia mental, tempo e dinheiro com o PSD. É estúpido preocupar-se com ele, a não ser que se seja um militante ferrenho, “clubista”, tribal, sem qualquer princípios, e com a boca na mama partidária. Os liberais não devem tentar pôr no poder os “seus” candidatos, os “seus” políticos. O liberal não é aquele que quer conquistar o poder, mas antes destruí-lo. O liberal não tem a ilusão que algum político possa mudar o país enquanto uma parte substancial da população não mudar de ideias. É aliás impossível um liberal aceder ao poder em Portugal. A tarefa do liberal é descredibilizar todos os partidos, tirar do seu trono o estado, e botar abaixo não só a facção A ou B, mas todo o sistema instalado de parasitagem.

É nisto que os liberais devem gastar a sua energia. É mais produtivo do que entusiasmarem-se dias inteiros no twitter, como baratas tontas, com os resultados freguesia a freguesia do PSD. Se o PSD for abaixo ainda bem. Se for o PS para a sanita, boa! Há que ver o copo meio cheio, e não meio vazio, para aguentar esta palhaçada sem deprimir. Dá sempre gosto observar uns quantos parasitas de cara desfeita e de rabinho entre as pernas.