domingo, 25 de outubro de 2009

Os Novos Cómicos Do Regime

Os humoristas do Gato Fedorento parecem ter-se tornado os novos Cómicos Oficiais do Regime. Todos os regimes os têm (excepto talvez a Coreia do Norte). Com o seu novo programa a "esmiuçar" os políticos do país, este estatuto tornou-se evidente.

Se realmente pusessem em causa o regime, nunca tinham o sucesso e a tranquilidade que têm actualmente. Os verdadeiros humoristas de combate, em função do regime e das pessoas com quem se metem, são atacados em tribunal por difamação, ostracisados, multados, presos, exilados, ameaçados, mortos pelos capangas do poder, ou por populares ofendidos com aqueles que põem em causa as crenças fundamentais de determinada sociedade. Quem tenha dúvidas tente fazer humor sobre o Maomé num país muçulmano; ou tente fazer piadas sobre judeus em França. Em vez disso, os nossos humoristas vêem toda a classe política correr aos seus estúdios, desejosos de serem (gentilmente) achincalhados pelo Ricardo Araújo Pereira.

Mas pôr fundamentalmente em questão o sistema é algo de que o Gato Fedorento não é capaz. Não por falta de humor. Eles têm-no, e de sobra. Mas por falta de uma visão ideológica alternativa. Só alguém que não seja social-democrata (um fascista, um anarquista de esquerda, um anarco-capitalista, um monarquista, um comunista hardcore adepto da ditadura do proletariado) é que consegue ver as fraquezas deste regime e contestá-lo na sua essência. Todos os outros, quer sejam comentadores ou humoristas, limitam-se a criticar figuras políticas, casos ou estilos de governação, mas nunca mais do que isso. Criticam o governante, mas não o governo. Se criticam o governo, não criticam o estado. Se falam mal do estado, nunca lhe deixam de reconhecer legitimidade. E se lhe reconhecem legitimidade, é sempre nos moldes actuais, democráticos, e nunca de outra forma.

Se os Gatos começassem a fazer piadas anti-democráticas, pro-fascistas, racistas, anti-semitas, anti-estado-social, anti-velhos, de forma dura, manteriam dificilmente aqueles contratos publicitários confortáveis com grandes grupos económicos fortemente influenciados pelo estado. E para muita gente, perderiam a piada: só os "anti-sistema" é que podem gostar de certo tipo de humor e percebê-lo (o que não é dizer que todos os "anti" passariam a gostar do Gato; afinal também há diferenças entre os anti-sistema). Os Gatos seriam rapidamente afastados para o sítio de onde vieram, um canal da TV por cabo, ou para o YouTube na Internet.

Finalmente, para deixarem de ser humoristas do regime, precisariam de ter grande carácter. Só se poderiam sujeitar à desclassificação, ao empobrecimento e aos perigos da impopularidade caso tivessem uma missão, uma mensagem a transmitir, e coragem para o fazer. Não parece ser o caso.

A sua ascenção meteorítica só foi possível, não obstante o seu talento, porque personagens influentes da sociedades portuguesa, nos media e na política, os apoiaram, ou pelo menos não os travaram. Se não fosse isto ainda eram uns artistas marginais sem dinheiro para comer.