sábado, 31 de outubro de 2009

São Como Ninhos De Pardais À Solta

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 6 de Outubro 2009, no Minarquista

A imagem de um bando de garotos revoltados, causando distúrbios e pilhando lojas, para protestar contra o capitalismo é recorrente; a imagem da polícia a reprimir os mais bárbaros e violentos do grupo também. O último episódio do género foi a reunião entre o FMI e o Banco Mundial, que despertou a canalha para mais uma onda de protestos. A primeira coisa a notar é que estamos perante um grupo sem ideologia, pós-marxistas no sentido em que se assumem como anti-capitalistas, mas sem o «dispositivo para pensar» (como lhe chamavam) que o materialismo dialéctico oferecia, sem se sentirem na vanguarda de um movimento histórico e sem quaisquer convicções positivas minimamente definidas. Eles são anti-capitalistas mais do que são pró-qualquer coisa, e é o protesto contra o capitalismo que os define, não o protesto a favor de uma alternativa melhor. Para ser sincero, já conheci uns quantos destes meninos (naturalmente do Bloco), e eles na sua militante ignorância assumem - como os marxistas, mas sem qualquer elaboração - que tudo o que vier depois do capitalismo é, por definição, o paraíso: uma vez removido o «mal», ficará tudo «bem». Como Mises notou em "The Anti-Capitalist Mentality": «An “anti-something” movement displays a purely negative attitude. It has no chance whatever to succeed. Its passionate diatribes virtually advertise the program that they attack. People must fight for something that they want to achieve, not simply reject an evil, however bad it may be.» (p.88).

Mas é curioso notar que, mesmo quando rejeitam um mal, estes rapazes e raparigas não se dão ao trabalho de o estudar, como em tempos os marxistas faziam (embora, quase sempre, de um ponto de partida comprometido). Não só isso: estes meninos de classe média, desiludidos com a monotonia da vida real, decidem apenas partir para uma aventura moralista, sem compreender nada de nada; defendem os pobres sem tentar perceber porque é que existem pobres ou que mecanismos distribuem a riqueza, ou porque alguns pobres são mais ou menos pobres que outros. Estas considerações nunca chegam à cabeça dos manifestantes porque eles, como qualquer puritano, têm uma ideia - ou melhor: um nome e uma imagem - para o mal: e como diz Michael Moore (o mais bem-sucedido destes meninos) no trailer do seu novo filme «o mal não se regula, extermina-se» (ou algo do género).

Mas a forma mais eficaz de perceber a ignorância dos manifestantes é reparar que, seja qual for a organização contra a qual se manifestam, nenhuma delas é capitalista, todas elas são estatais: o G20, o FMI ou o Banco Mundial. Não foi o mercado que as pariu para atender a uma necessidade legítima, foram alguns governos em conjunto que criaram, promoveram e mantêm estas instituições; se os governos não as promovessem e mantivessem, elas não sobreviveriam muito tempo no mercado livre; os seus fundos são concedidos pelos governos e não obtidos pela satisfação de qualquer preferência dos consumidores; as funções que exercem, de resto, não fazem parte do mercado, planeiam e distorcem o mercado - que é o oposto. Rothbard escreveu que se queremos manter a palavra «capitalismo» temos, automaticamente, de fazer a distinção entre capitalismo de mercado livre e capitalismo de Estado. É este último que temos hoje e a verdade é que, em maior ou menor grau, os Estados estiveram sempre envolvidos na actividade económica. Que hoje estejam envolvidos até ao tutano e ameacem trazer-nos de volta as maravilhas do mercantilismo não é culpa do livre mercado que não temos: é a consequência natural do intervencionismo e de qualquer mecanismo de planeamento central.

É legítimo revoltarmo-nos contra a injustiça, contra a opressão, contra as forças que nos controlam, que ditam a nossa vida e que violam a nossa liberdade e independência. Eu partilho dessa revolta. Mas não é saudável ouvir um slogan e começar automaticamente aos saltos. Convém estudar um bocadinho antes de protestar contra alguma coisa. Que estes esquerdistas façam tanto barulho contra instituições estatais internacionalistas e depois voltem para casa para pedir mais intervenção do Estado em questões internas é apenas trágico. É todo um mundo de desinformação e ignorância. Os senhores do FMI, do Banco Central e do G20 agradecem a gentileza: estas manifestações que pregam a iniquidade do capitalismo justificam certamente as intervenções estatais destinadas a torná-lo menos iníquo.

Copyright Rui Botelho Rodrigues