segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Veneno Catódico

De norte a sul do país, as pessoas estão fortemente sob a influência da televisão. Isto é de lamentar. A televisão, na realidade, é dos piores venenos da nossa sociedade. Uma das melhores coisas que os portugueses podiam fazer é, sem dúvida, largar esta droga.

Oportunidades Perdidas

Qualquer pessoa que tenha algum objectivo importante na vida deveria evitar a televisão como a peste. O sucesso, em qualquer área da acção humana, requer dedicação e esforço continuados. Quer seja nas artes, nos negócios, na ciência, no desporto, na política ou nas questões do intelecto, um dos factores mais importantes é o tempo. É um “factor de produção” que não pode ser renovado. Uma vez gasto, não pode ser recuperado. Quem tem alguma objectivo ou missão faz mal em perder preguiçosamente o seu tempo frente à televisão.

A verdade é que as pessoas não têm geralmente uma firme vontade de ver a televisão. Tipicamente, quem vê a televisão passa dum canal ao outro, ininterruptamente, sem realmente apreciar o que quer que seja. Após terem visto a televisão, as pessoas sentem-se mal por não terem feito algo melhor do seu tempo. Nem se lembram, a posteriori, do que viram na televisão, tão irrelevante foi. Ver a televisão não é encarado como algo de realmente positivo, mas mais como um paliativo contra a solidão e o silêncio. Esta incapacidade de aguentar a solidão e o silêncio é certamente a manifestação dalguma falta de maturidade e de força interior. Não obstante estes problemas, dos quais as pessoas estão por vezes conscientes, as pessoas continuam a regressar a este zumzum infernal.

Ver televisão, apesar de ser uma actividade passiva, cansa muito a vista, os sentidos e a cabeça. A pessoa tem os olhos e a cabeça constantemente fixados num objecto luminoso e barulhento, dos quais emanam gritos, flashes, risos, explosões, e repetições incessantes dos mesmos temas. Tudo isto acontece sem que se saia da mesma posição sentada, com cerveja e bolos ao lado, o que evidentemente não cria atletas.

Para terem o dúbio privilégio de intoxicarem as suas cabeças, as pessoas abdicam dos poucos momentos disponíveis para o relacionamento familiar, ou para ver os amigos. A televisão contribui para fazer zombies de pessoas anteriormente integradas e activas. Faz com que as pessoas passem os poucos momentos em que estão juntas com a família – as refeições – a olhar para a bagunça do telejornal.

A TV Incute Valores

As pessoas, ao verem a televisão, são como autênticas esponjas. Estão como que hipnotizadas (basta observar uma pessoa a ver televisão, de olhos esbugalhados e de boca aberta, para perceber isso). Neste estado de grande receptividade, as pessoas são facilmente influenciáveis. É relativamente fácil transmitir-lhes ideias, valores, emoções; é facil levá-las a agir duma forma ou de outra. Como geralmente as pessoas não se sentam em frente à televisão com a ambição de verem um programa particular, mas simplesmente para saber “o que está a dar na TV”, acabam por ver o que outras pessoas que nem sequer conhecem, os directores de estação, lhes querem mostrar e dizer. Ainda por cima, com a descida do preço da televisão, esta tornou-se tão acessível que está por todo o lado: bares, restaurantes, cafés, discotecas, emprego, lojas, e até nas ruas! Mesmo que não se esteja a olhar para ela, o seu zumzum está sempre a soar em pano de fundo. É difícil fugir deste veneno!

A televisão não incute valores de forma aberta, frontal. Isto provocaria rapidamente fortes resistências. Pelo contrário, esta “ética” catódica é feita de forma subtil. Nas novelas, nos filmes, nos jornais, são exibidos ad nauseam, ano após ano, certos comportamentos que muitas pessoas reprovavam há umas meras décadas atrás. Esta repetição incessante acaba por normalizar os ditos comportamentos aos olhos das pessoas, sem que elas se apercebam da mudança que se está a passar nos seus padrões. Por exemplo, as mulheres exibem-se hoje muito mais do que há umas décadas atrás, duma forma que teria sido considerada badalhoca na altura, inclusivamente pela maioria das mulheres (...bem, talvez não esteja tudo mau com a TV!). Isto é devido em parte à televisão. Outro exemplo é o da violência gratuita exibida nos filmes.

Uma forma de espalhar certos princípios de forma subtil consiste, nas discussões públicas, e de forma natural e sistemática, em basear as questões em premissas subjacentes contestáveis. Por exemplo, se nalgum fórum se discutir da melhor forma de combater o abuso de drogas, de defender as mulheres afegãs do fundamentalismo islâmico, e de travar a proliferação de sem-abrigos, a maioria das pessoas considerará como implícito que se deve e é possível combater o abuso de drogas, que o estado deve intervir no Afeganistão para combater o fundamentalismo islâmico, e que há efectivamente uma crise de alojamento.

É preciso perceber que não há jornalismo e televisão sem ideologia, “neutros”, e “independentes”. Estas alegações, vindas dos jornalistas e das televisões, são uma fachada. Os pivôs, entrevistadores, directores de redacção, proprietários de meios de comunicação e os jornalistas têm, também eles, opiniões e princípios. E são eles que determinam o que é dito ou não, o que é mostrado ou não, o que é discutido como problema, e o que é irrelevante, por não ser sequer mencionado. A acrescentar a isto, tem que se ver que o meio da comunicação, um meio relativamente pequeno (e entrecruzado por relações familiares...), não é propriamente representativo da opinião pública. É um meio que tem ideias mais progressistas, menos conservadoras, mais modernas e mais “cool” do que as da maioria das pessoas. Até o seu estilo de vida é mais alternativo, mais boémio, do que aquele que é vivido pela maioria das pessoa. Não se espere destas pessoas que sejam totalmente imparciais nas diversas controvérsias que vão surgindo.

Surge a questão de saber se os trabalhadores da TV são mais de esquerda, ou de direita. Tendem provavelmente para a esquerda, em geral (excepto os proprietários de meios de comunicação). Mas o que é absolutamente certo é que não são de todo liberais. De esquerda ou de direita, não põem em cheque o próprio estado. Quando criticam o governo, é por este não cumprir as suas inúmeras “missões”; raramente para se queixarem dum excesso de intervenção. Isto tem infelizmente consequências sobre a opinão pública.

Cartelização do Sector da Comunicação

Os meios de comunicação estão fortemente cartelizados, sendo que o meio de comunicação que mais se aproxima do monopólio é a televisão (basta ver que em Portugal só há quatro canais em onda hertziana, sendo que dois são do estado). Os jornais têm obrigatoriamente que ser registados; os jornalistas têm que estar encartados, têm que ser “oficiais”. Os canais do estado são apenas caixas de propaganda do governo e do estado. A sua “independência” é uma treta. Quem paga – o estado – é quem manda. A “independência” simplesmente obriga o governo a manipular as direcções dos ditos canais de forma subtil, às escondidas, através de pressões e ameaças (nomeadamente a ameaça de cortes nos fundos públicos destinados à estação). Os canais privados podem ver a sua licença retirada, caso algum organismo “regulador” (ler “controlador”) considere que a sua programação vai contre o “interesse público”. Visto que o interesse público é bem difícil de definir, isto dá poder arbitrário às burocracias do estado. Além disso, os grandes canais privados, as maiores estações de rádio, os maiores jornais, fazem sempre parte de conglomerados económicos importantes. Os seus proprietários têm frequentemente ligações ao estado, ou a empresas que dependem deste. Pense-se por exemplo no Pinto Balsemão, ex-primeiro ministro, e empresário de sucesso. Os jornalistas, sempre a andar nos corredores do poder político e económico, e casando frequentemente no seu seio, fazem parte do sistema que supostamente têm que vigiar. Sendo assim, há pouca gente com interesse em dar um pontapé na colmeia. Criticar o estado implica mais tarde ou mais cedo sofrer represálias (por exemplo, equipas de inspectores a “focarem-se”, subitamente, nalguma empresa pertencendo a um proprietário de jornal mais rebelde). Pelo contrário, se os grandes conglomerados mantiverem a sua crítica do estado e do governo, feita por intermédio dos seus canais e jornais, em tons moderados, beneficiarão de contratos com empresas públicas, subsídios, restrições regulamentares aos seus concorrentes, e secretarias de estado para os seus colaboradores...

Os jornalistas têm que ter em conta a nojeira das leis contra a difamação, cujo resultado principal, além de violar a liberdade de expressão, é de calar toda a crítica mais forte dos poderosos e influentes. Pode não haver censura prévia dos jornais, como antigamente. Mas há com certeza auto-censura dos jornalistas e das redacções, que sabem muito bem que hoje em dia podem ser punidos e severamente multados mesmo quando dizem a verdade! A jurisprudência é tal, nos nossos dias, que até críticas verídicas são consideradas difamatórias, por atentarem contra a reputação de alguém. As leis contra a difamação são um instrumento para calar as pessoas, e nada mais do que isso.

Os organismos como a ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações), ou a ERC (Entidade Reguladora para a Communicação Social), cuja missão é supostamente defender e regular o sector, são na verdade grandes inimigos da liberdade de expressão e da concorrência informativa. São eles que restringem, por lei e regulamentarmente, a entrada no sector de novas empresas que possam pôr em questão o status quo. Protegem, é verdade, o partido A contra as pressões do partido B no poder, ou vice-versa. Mas pouco se importam com os poucos marginais que criticam tanto o A como o B, que criticam o sistema na sua totalidade. Estes arriscam-se a sofrer hostilidade vinda de toda a parte.

A cartelização da televisão e dos outros meios de comunicação implica que é mais fácil o governo e as chefias dos meios de comunicação controlarem o que é dito ou não. Ajuda a abafar casos. Facilita a colusão entre meios de comunicação, cujos membros se conhecem todos. Trava ideias novas. Impede uma crítica dos fundamentos do sistema, e deixa-nos entretidos com episódios pouco relevantes. Felizmente, a Internet, este grande destruidor de cartéis informativos, está rapidamente a mudar as regras do jogo. A Internet permite a cada um difundir as suas ideias a muito baixo custo. No entanto, esta destruição do castelo ainda vai demorar tempo.

Quem é inteligente sabe que os meios de comunicação, principalmente as televisões, não são de confiança. São facilmente controlados pelo estado. Mais uma razão de fugir ao veneno luminoso.

Agradar ao Público

Os grupos de comunicação, quer gostem disso ou não, estão sujeitos aos desejos do consumidor. Como qualquer empresa, têm que servir aos clientes aquilo que eles querem, se querem continuar a funcionar. Esta necessidade de adaptação ao mercado, apesar de estar enfraquecida pela cartelização do sector, e pela existência de monopólios estatais, não pode ser evitada.

Ora acontece que o consumidor – as massas de drogados televisuais – não prima nem pela sua inteligência, nem pela sua cultura, nem pelos seus conhecimentos políticos e filosóficos, nem pela fineza dos seus gostos. As massas são burras, preguiçosas, e frequentemente injustas. Por isso, os canais “generalistas” (“básicos” seria mais apropriado) servem-lhe uma papa que no conjunto está ao seu gosto e ao seu estilo. Quanto à brincadeira, futebol, telenovelas e música embrutecedora (batida ou música pimba, por exemplo). Quanto a questões sociais, notícias e debates que não ponham excessivamente em causa o status quo social-democrata ao qual as massas estão habituadas. Um canal que não faça isto não conseguirá agradar às massas, e verá as suas audiências declinarem rapidamente. Questões alternativas estão destinadas a um mercado mais pequeno, a publicações mais especializadas, ou a canais do cabo (e mesmo aí, tendo em conta que só há duas firmas de televisão por cabo em Portugal, controladas por conglomerados, também há poucas hipóteses de ver uma programação algo revolucionária).

É esta uma das razões pelas quais é muito difícil ouvir notícias e pontos de vista alternativos nos meios de comunicação tradicionais. Entre estes pontos de vista alternativos encontram-se aqueles que defendem o liberalismo, a liberdade, a limitação do estado, o mercado-livre, a livre-concorrência, as liberdades pessoais – pontos de vista liberais.

Desenvolver a Inteligência

Em geral, a televisão não desenvolve a inteligência das pessoas. Bem pelo contrário, tende a burrificá-las. Quer porque conta mentiras, quer porque esconde a verdade, quer porque insiste em pontos pouco relevantes, quer por desprezar ideias alternativas, a televisão não é um bom meio de aprendizagem.

O homem que realmente queira desenvolver a sua inteligência só tem um meio de fazê-lo: agarrar-se aos livros, e estudá-los (não basta lê-los como romances). A maioria das pessoas foge disto, porque exige auto-disciplina e esforço. Mas não há volta a dar à questão. Para perceber como funciona o mundo é preciso primeiro interiorizar os conhecimentos que vieram do passado. Quem não lê deixa de aproveitar todo o conhecimento, toda a reflexão que foi feita por aqueles que nos precederam historicamente na caminhada do pensamento. Conhecimentos mais profundos só podem ser entendidos após uma penosa interiorização de longas cadeias de argumentação.

A televisão, os artigos de jornal ou a rádio não são os meios adequados para tal trabalho. Os meios de comunicação em directo vão depressa de mais. Ao contrário do que sucede com um livro, não dá para voltar atrás, para reler, para fazer apontamentos. Sobretudo, não dá para parar e pensar calmamente no que se ouviu. O fluxo de informação nunca pára, é incessantemente actualizado, aumentado, modificado. Surgem constantemente novas caras, com mensagens diferentes e contraditórias. As imagens associadas à mensagem são geralmente de pouca importância. Frequentemente, não estão directamente associadas à notícia emitida (ou seja, são imagens de arquivo, apesar de as pessoas as entenderem como uma reprodução do evento em causa...). As imagens fomentam emoções nas pessoas, e dificultam-lhes a tarefa de pensar nos assuntos calmamente. Na maioria dos casos, a informação não perde nada em não ser acompanhada por imagens – o sentido mantem-se, a imagem é irrelevante. Os artigos de jornal não sofrem, teoricamente, destes problemas temporais e visuais. Mas são excessivamente curtos para transmitir conhecimentos mais profundos. E ao contrário dos livros, são jogados para o lixo mal tenham sido lidos. Deixam uma marca ligeira. A sua função é introduzir os temas mais do que aprofundá-los. Além disso, se é verdade que a televisão impõe ritmos forçados às pessoas, também é verdade que pode também travá-las na sua busca de conhecimento. Um orador televisivo consegue dizer menos palavras por minuto do que aquelas que um leitor concentrado consegue ler.

Há indícios de que as crianças que não passem muito tempo em frente à televisão sejam mais inteligentes do que as outras, e tenham mais facilidade com o trabalho intelectual. Em frente à televisão elas são passivas. Mas sem este hipnotizante, têm maior tendência em pensarem por si, resolver problemas, criar algo, e tornarem-se autónomas. Se se aceitar o objectivo de criar mais do que adultos-legumes-ovelhas, não utilizar a televisão como ama pode ser uma boa ideia...

Telejornais e Debates

Os telejornais e os debates são dos momentos mais importantes da televisão. Ao pensar-se neles, não se pode deixar de lhes encontrar uma longa lista de defeitos.

Os telejornais, extremamente longos, mas fracos em conteúdo, são geralmente uma série rápida de notícias pouco importantes sobre bola, casos políticos, acidentes e histórias de vida enternecedoras ou trágicas. O telejornal é, mais do que informativo, lúdico. Pode-se falar dalgum caso de corrupção, mas não se discute qual é a causa da sua existência, ou se realmente a corrupção é um mal. Vai-se falar do novo método de reabilitação de crianças deficientes com recurso à equiterapia, apesar de isto ser irrelevante para a maioria das pessoas (mas a dona de casa vai ficar enternecida de ver os putos a cavalo). Vai-se falar dalgum crime macabro, com imagens chocantes a apoiar a notícia, sem discutir diversas soluções para reduzir o crime em geral. Vai-se mostrar uma fábrica que explodiu, com alguma repórter loira e burrinha em frente às câmaras e com as chamas em pano de fundo, de ar muito preocupado, a repetir dez vezes de seguida que ainda não se sabe quantas vítimas se encontram dentro do escombros (ninguém vai dizer que num país de milhões de habitantes dez ou vinte mortos são irrelevantes, que morrem muito mais pessoas a cada hora de enfartes). Ao lado da burrinha loira, vai aparecer um presidente de câmara, de ar sisudo, que nos vai garantir que tudo está a ser feito para apagar o incêndio (como se fosse de esperar que se deixasse lavrar o fogo!). São casos atrás de casos. É um espéctaculo autêntico.

O telejornal é o grande criador de crises fictícias, e o grande inventor de problemas inexistentes. E como é uma fonte de informação global, quase monopolística, pode criar e destruir reputações em dois minutos: o tempo duma notícia. Através do uso selectivo de estatísticas de qualidade duvidosa, através de imagens berrantes e chocantes, através do ênfase dado a certas questões mais do que a outras, o telejornal inventa constantemente crises, surgidas do nada, e que se tornam manias nacionais num instante. Situações que estavam “fora do radar” das pessoas tornam-se subitamente problemas nacionais (mesmo que não sejam na realidade problema nenhum), pela sua repetição incessante. É fomentado um espírito de urgência. Apela-se à intervenção imediata do estado, sem pensar nas consequências das suas acções – a perca de liberdades. O estado é visto como o bombeiro de serviço; sua missão é acorrer a todos os incêndios que surgem, e apagá-los. Um mês depois, toda a gente já esqueceu a crise. Há de estar outra na moda, nessa altura. Um homem são de espírito não pode olhar para o telejornal de forma ingénua. Ver o telejornal é como passear pelos corredores dum manicómio.

Além dos telejornais, outros grandes momentos de vacuidade são-nos oferecidos pelos debates televisivos. Também aí temos apresentadoras burrinhas, cujas pernas à mostra perturbam os velhotes que habitualmente vão aos programas de discussão, a “moderar” aquilo que é essencialmente um pugilato. Estas apresentadoras, têm tendência a ofuscar-se e chocar-se muito facilmente com os propósitos dos seus convidados, caso saiam um pouco do habitual, o que as leva a perder o sangue frio necessário à condução duma boa entrevista.

Os debates são sempre marcados por interrupções. O apresentador interrompe os seus convidados a meio dum argumento, e com perguntas pouco pertinentes faz-lhes perder o seu raciocínio. Os convidados interrompem-se uns aos outros. A gritaria, os falatórios simultâneos, as “dignidades” ofendidas contribuem para a cacofonia geral. O debate está manchado de constantes ataques pessoais, que não fazem nada para refutar algo que seja dito por algum dos intervenientes. “Mas o senhor disse/fez..., e agora...”. Os temas em debate são evitados, e as picardias realçadas. Os políticos raramente respondem às questões de forma directa. Cria-se uma atmosfera hostil que não é favorável ao raciocínio, ao debate calmo e ponderado. O objectivo não é convencer os outros intervenientes, ou os ouvintes, mas vencer o adversário. Está-se perante uma questão de pessoas e de partidos, mais do que de ideias e princípios. Ou se não for este o caso, o debate tende para a moleza dum consenso podre que não deveria ser aceite, mas que não é combatido por uma falsa “delicadeza”.

Devido a imperativos de tempo, e também por escolha das estações, não é possível levar algum raciocínio mais desenvolvido até ao fim. Só são permitidas discussões de perguntas e respostas rápidas. Além do mais, mesmo com tempo, o orador tende a perder-se e a perder o fio à meada. É difícil falar de cor durante muito tempo, de forma lógica, coerente, sistemática, mesmo que se saiba do que se está a falar. A memória pode falhar. As pessoas não estão habituadas a falar em público. O entrevistador, à primeira hesitação, tende a interromper o orador. O problema é que um bom debate ou uma boa entrevista devem ser lentos. Exigem atenção da parte do tele-espectador. Os canais não podem fazer isso: os ouvintes desinteressar-se-iam rapidamente, e os canais perderiam share.

Finalmente, só costumam participar nos debates notáveis do regime e do sistema vigente, incapazes de pôr fundamentalmente em cheque o estado, quer por interesse, que por ausência duma visão alternativa. Ou então “especialistas” (título pomposamente concedido pela estação de televisão...) que sob um manto de objectividade científica não se coibem de fazer juízos de valor, ou seja, que fogem do domínio da ciência em que são especialistas, e entram no domínio da ética. É além disso de realçar o triste facto de serem sempre os mesmos especialistas a aparecerem na televisão (por exemplo, pouco ou nada se fala do facto de muitos cientistas porem em causa toda a questão do aquecimento global, apesar de nos meios de comunicação parecer que há uma certa unanimidade na “comunidade científica” sobre o problema).

Perante isto, percebe-se que os debates em geral têm pouco utilidade. Não servem para mudar de opinião; são fracos em termos de argumento. Mostram os princípios de cada um, que geralmente estão como se esperava que estivessem: em acordo com as imoralidades do sistema parasita em que vivemos. São um jogo, uma palhaçada, uma confusão. Não há muito a ganhar, intelectualmente, destes espectáculos.

Conclusão

A televisão manipula as pessoas. Transmite-lhes valores frequentemente falsos. É o instrumento de propaganda dos governos e dos grandes cartéis.

A melhor coisa que se pode fazer é deitar a televisão pela janela. Quem pare de ver televisão sente a sua falta, de início. Mas após um tempo, ganha uma certa calma interior que não tinha. Deixa de ser o escravo de crises imaginárias. Ganha tempo para fazer coisa mais produtivas. Passa a pensar por si, ou guiando-se com conhecimentos alternativos frequentemente mais apropriados do que a papa que a televisão serve. Quem deixou de ver televisão aprecia plenamente o que ganhou com isso quando mais tarde volta a vê-la. Imediatamente, sente a raiva e a agitação a apoderar-se-lhe do corpo. Por outro lado, fica com a nítida impressão que está ali um universo paralelo, afastado da realidade, povoado de imbecis que não servem de modelo para ninguém: uma bolha artificial.

Passar anos da sua vida a ver televisão não é crime. Mas é uma estupidez.

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