segunda-feira, 16 de novembro de 2009

United Socialist States Of America

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 8 de Novembro 2009, no Minarquista

Um dos momentos mais engraçados da história recente aconteceu na sequência da nacionalização da General Motors levada a cabo por Obama. Hugo Chávez, o arqui-inimigo dos americanos, declarou - com razão e graça, admita-se - que o camarada gringo acabava de se colocar à esquerda dos venezuelanos e cubanos, fazendo-os quase parecer conservadores. Foi um momento de humor, mas com um fundo de verdade. Quando o Estado salva indústrias da falência, o mecanismo do mercado que separa as empresas eficientes das que desperdiçam recursos está comprometido.

Agora, são os chineses a acusar os EUA de proteccionismo pela imposição de tarifas nas importações de aço chinês. Neste caso o humor está ausente, mas o sinal dos tempos é o mesmo: dois dos países da vanguarda socialista vêem o grande símbolo do capitalismo virar à esquerda, abandonar as regras do mercado e avançar para os amanhãs que cantam; o proteccionismo e a nacionalização da indústria são técnicas fundamentais, e frequentemente utilizadas, na construção do socialismo (ou de qualquer outro autoritarismo): e os americanos aparentemente enveredaram por esse infame caminho. No entanto, tirando o camarada Chávez e o Partido Comunista Chinês, ninguém parece ter dado por isso.

Esta mudança - cujo primeiro sinal foi o salvamento da Chrysler, em 1980 - significará que a direita e a esquerda terão de rever os alvos das suas críticas e elogios. Os EUA são agora socialistas; o seu poderio militar é usado, de resto, sob uma justificação socialista (a exportação da democracia, com um travo trotskista) e com propósitos corporativistas (promover a Halliburton, por exemplo), e até aprovaram um sistema nacional de saúde socializante. O socialismo democrático venceu a batalha no ocidente: hoje a discussão é apenas de grau, não de natureza. O liberalismo, ou o que restava dele, morreu nas mentes, nos corações e, se não ainda nas constituições, pelo menos nos parlamentos.

Isto quer dizer que a esquerda arranjou, indiscutivelmente, um novo aliado. A direita, que costuma ser tão ignorante como a esquerda, provavelmente ainda não percebeu - e se perceber é só pelo seu irremediável racismo pensar mal de Obama. No essencial, apesar de tudo, a direita e a esquerda concordam que a intervenção do Estado, mais do que justificada, é imperativa. Se discordam, é em relação a pormenores. Portanto, só falta mudar o nome da coisa, para que não restem dúvidas: USSA - United Socialist States of America; e fazer devidamente o luto daquele que já foi o país mais livre e mais próspero da história da humanidade.

Copyright Rui Botelho Rodrigues