domingo, 20 de dezembro de 2009

Ser Matarruano

Copyright Rui Botelho Rodrigues, 12 de Dezembro 2009, no Minarquista

Não sou cinéfilo, nunca frequentei a Cinemateca e não pretendo fazê-lo. Isso não impede que, tal como todos os outros cidadãos que não são funcionários públicos, a pague através dos meus impostos, quer queira quer não. Compare-se isto a um cinema privado, que também não frequento e que, por consequência, não pago. Não é difícil ver qual das situações é mais justa. No entanto, nesta comparação encontra-se a essência da «direita matarruana» e da sua visão sobre os «assuntos da cultura». Aparentemente é «de direita» exigir que as classes médias educadas e lisboetas paguem elas mesmas o cinema que querem ver; aparentemente é «matarruano» querer que os cinéfilos sustentem a cinefilia. Pelo contrário, é «de esquerda» exigir que os não-cinéfilos, em que se incluem operários e camponeses espalhados pelo país que nem sequer sabem que a cinemateca existe, paguem a cinefilia alheia - geralmente oriunda das classes médias, urbanas e educadas; é «de esquerda» portanto exigir às classes baixas do país que paguem o elitismo das classes médias lisboetas. Bem sei que a Cultura (com C grande, pompa e circunstância) é uma grande religião do Estado; que a Cultura é um bem que se fornece a bem da população em geral, que vivendo na e da ignorância a população sairá dessa condição assim que vir um filme do Manuel de Oliveira ou do Ingmar Bergman, ou assim que puser os olhos na estupenda colecção Berardo; sei que a Cultura do Estado alimenta muitas bocas e que, por isso, quem ataca a imoralidade da coisa é logo acusado de terrorismo, de ser matarruano e de pretender acabar com toda a Cultura. O meu objectivo - que me torna um «matarruano» e ainda por cima «de direita» - não é, porém, acabar com a cultura ou mesmo com a Cultura: é apenas que as classes médias elitistas e aculturadas paguem a cultura do seu bolso, em vez de extorquirem verbas aos cofres do Estado e, por consequência, aos bolsos de gente para quem a Cultura é o mesmo que o Golfe: um luxo; um luxo que se não aprecia ou que se não pode apreciar, e que por isso se dispensa. Com a Cultura do Estado, bem podem dispensar o seu consumo, só não podem dispensar o seu financiamento. É nesta imoralidade continuada e institucionalizada, neste favorecimento das classes médias educadas e urbanas, que consiste o «esquerdismo»? Bela esquerda, belos princípios. Realmente mais vale ser matarruano e de direita.