terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A Superstição Democrática*

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 30 de Novembro 2009, no Minarquista.

57% dos Suíços não querem uma avalanche de minaretes nas mesquitas helvéticas. É compreensível, dada a fama corrente do Islão e a tendência moderna para histeria. Parece que a propósito do assunto se anda a discutir a tolerância religiosa e a pregar a secular religião multiculturalista. É pena. Discutir a conduta pessoal em relação a uma religião em particular é vão; discriminar individualmente seja o que for é legítimo. Mais do que isso: é vulgar e diário. Discriminar não significa agredir, e não há nada que ligue directamente uma coisa a outra.

O que decididamente se devia discutir é a validade democrática e a imoralidade intrínseca do princípio que lhe tem sido imputado: que a maioria pode suprimir direitos inalienáveis à minoria, simplesmente porque é maioritária. Esta discussão sobre a democracia é tanto mais útil porque, com a imigração massiva para a Europa (sobretudo islâmica) e a taxa superior de natalidade entre imigrantes, em breve as «minorias» serão a maioria. Se até agora os europeus se regeram pela suprema moralidade democrática e pela convicção de que a escolha da maioria justifica a crucificação da minoria (e, maioritariamente, não se chateiam muito com isso) o caso será diferente quando os ocidentais não forem a maioria. Sobretudo quando a maioria tiver opções de vida e concepções civilizacionais distintas ou mesmo opostas às concepções ocidentais.

A democracia, que significa apenas sufrágio universal, tem sido mistificada para lá do entendimento humano no Ocidente, ao ponto de justificar cruzadas internacionalistas e insanas para impor esta particular forma de vida, mesmo em lugares onde esta particular forma de vida não é desejada. Mais do que isso, existe um consenso lorpa sobre a superioridade democrática e um orgulho balofo em ter essa quase divina forma de governo.

Esta exaltação absurda foi ajudada, como manda a lei, por fortíssima e ridícula propaganda; e foi avançada, em parte, por «necessidade». A necessidade era varrer das cabeças menos capazes de raciocínio a outra forma de «democracia»: a soviética. Nunca passou pela cabeça dos confiantes ocidentais que a «democracia» soviética se derrotasse a si mesma. E nunca lhes passou pela cabeça que a diferença não estava, evidentemente, na possibilidade dos ocidentais votarem nas pessoas que os representavam nas instituições. Estava, isso sim, nas próprias instituições: na separação de poderes, na relativa liberdade do indivíduo em relação ao Estado, na descentralização do poder e na limitação efectiva desse poder.

A «democracia» soviética morreu pela sua própria mão, incapaz de alimentar os seus cidadãos e competentemente capaz de os oprimir em nome de um ideal. O curioso é que a superstição democrática do ocidente promete em breve fazer o mesmo. Já se tornou óbvio que a democracia não garante nada a não ser a vontade da maioria: desde que a maioria vote, está votado. E se a maioria, na sua inquestionável sabedoria, votar num caudilho, o caudilho está, por definição, legitimado. E a desgraça começa.

A desgraça, aliás, já começou. Os caudilhos e burocratazinhos já se alçaram ao poder há muito; e há muito que começaram a delapidar as instituições e a reprimir, para nosso bem, as nossas liberdades. O poder dos Estados democráticos não pára de aumentar e a independência e autonomia do indivíduo em relação a ele não param, por consequência, de encolher. A democracia, até agora, não tem evitado nada disto. Pelo contrário, tem legitimado tudo isto. A maioria escolhe, a maioria é soberana.

E hoje nada impede que a maioria soberana legitime o fim efectivo das ideias e instituições que permitiram aos ocidentais ser mais livres e mais prósperos. Seria bom começar a desfazer a superstição democrática se queremos preservar e reabilitar as outras óptimas ideias políticas do Ocidente cristão.

* título roubado a uma crónica antiga do Vasco Pulido Valente.

Copyright Rui Botelho Rodrigues