terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Vermes


Um dos bichos mais repugnantes que por aí anda é o político. Não obstante as ventilações do Mário Soares, sempre pronto a afirmar que não se deve pôr todos os políticos no mesmo saco, os políticos são todos, sem excepção, um nojo. Só há uma diferença de grau, e não de natureza, entre os diversos parasitas que nos mandam. Para que a nossa sociedade venha a ter um pouco de decência é essencial que as pessoas percebam isso.

Veja-se uma lista das diversas “qualidades” do político médio.

Antes de mais, os políticos são mentirosos compulsivos. São capazes de dizer uma coisa a um, e outra coisa completamente contraditória a outro, sem qualquer problema. Não só mudam de ideias em função da plateia, como além disso alteram o seu discurso no tempo (dum dia para o outro, se for preciso!). Quanto àquilo que pensam realmente, raramente o afirmam de forma clara e aberta. Como é claro a quem quer que tenha ouvido um político a falar ou a ser entrevistado, nunca ou raramente dizem claramente, sem salamaleques, sem eufemismos, aquilo que lhes vai na alma. E para manter a ilusão da legitimidade, raramente admitem, claramente, que o seu poder está baseado na força bruta, e que aqueles que não se submetem a eles vão ser esmagados. O objectivo do seu falatório não é defender a verdade ou a justiça, mas simplesmente seduzir ou convencer aqueles dos quais precisam (personagens influentes, donadores, votantes, etc...). A sua tchatcha não tem como função primeira mudar o mundo, melhorando-o (geralmente é o seu bem-estar que muda para melhor...). Este seria um ideal tendente para o utópico, mas pelo menos seria nobre. A palavra é antes, para eles, um simples meio de aceder ao poder, de mantê-lo, e de aumentá-lo. E para isso, tentam agradar a gregos e tróianos, não ferindo "susceptibilidades". O que se constata no final, no entanto, é que nem os gregos nem os tróianos ficam realmente satisfeitos com as meias-medidas e com os meios-princípios dos chefes políticos. Como seria de esperar.

O político é por isso um simples oportunista sem princípios. Em campanha, ou no poder, pela palavra, ou pelas medidas que toma, o político tem sempre o cuidado de não hostilizar ninguém de quem precise para se manter no poder. Nunca ou raramente defende firmemente um princípio, para isto não lhe custar o puleiro (como se fosse algo de assim tão trágico perder um job na função pública...). Excepto quanto à necessidade de lutar pelos seus interesses, o homem político é um homem sem qualquer fé. Uma autêntica prostituta ideológica, em suma. É aquilo a que se chama, a justo título, de invertebrado.

Obviamente, gente desta só pode ser moralmente deturpada. Por isso, a abundância de corrupção não admira. Se for preciso viola-se as regras “oficiais” do jogo, porque se sabe muito bem que este não vale nada, em termos morais. Há que aproveitá-lo. O cinismo dos políticos, o seu desprezo pelas convenções da sociedade, mesmo que boas, faz com que não sejam capazes de lutar contra a palhaçada ambiente. É por isso que o jogo do político é sempre hipócrita. Há de facto uma diferença entre os seus princípios íntimos (ou a falta deles) e aquilo que ele afirma e faz publicamente.

Nos raros casos em que um político acredita verdadeiramente nalguma das suas crusadas, defende geralmente alguma forma de parasitismo. Ou seja, defende guerras, controles, restrições, obrigações, expropriações, e outras medidas ainda, que têm por efeito dar mais poder ao estado (do qual faz parte, ou que aspira a comandar). E defende-as geralmente sem o mínimo conhecimento das consequências nefastas que possam ter. O seu idealismo é perigoso. Em casos destes, mais vale ter um oportunista sem qualquer princípios a mandar. Com este pelo menos, sempre dá para negociar.

Há que ter bem presente que os políticos são perigosos. Não se contentam em falar. Têm poder. Têm seguidores. Têm executantes e burocratas. Têm colaboradores e espiões. Têm polícias, militares, torturadores, carrascos, assassinos e guardas prisionais para fazer o seu trabalho sujo. Não são meros palhaços divertidos. São palhaços temíveis. Têm o controlo do estado, que é por natureza parasítico. E não têm pruridos morais em usar este poder. Se for preciso quebrar um homem, ou dez mil homens, fazem-no. Têm aliás gosto pelo exercício desta dominação sobre os seus semelhantes. A atracção que têm pelo poder não deriva simplesmente da busca de vantagens materiais. Também querem o poder pelo poder. Dominar dá-lhes pica, pura e simplesmente. São além disso frequentemente mesquinhos, miseráveis, e vingativos. Estes traços também se encontram, por exemplo, nas velhas chatas e curiosas que se encontra em qualquer rua. Mas ao contrário destas, o político pode utilizar o poder do estado para dar azo à sua mesquinhez, o que é bem mais perigoso. E esta maldade, em vez de ser vista como uma vendeta pessoal, é embalada sob o manto da “Lei”, sendo particularmente difícil resistir-lhe.

É por terem poder que se pode desprezar os políticos todos sem excepção. O poder é algo de particular: é o domínio involuntário de alguns homens sobre outros. Não há nada de justo, razoável ou legítimo nisso. Por esta razão (Mário, estás a ouvir?), é normal pôr todos os políticos no mesmo saco: o saco dos parasitas. E é porque manejam o poder que se pode claramente desprezar os "compromissos" e as "negociações" que fazem regularmente. Ao fazerem isso, os políticos não estão a regatear o preço dum sofá, duma peça de arte, ou de um automóvel. Estão a vender e a comprar, em troca duma qualquer benesse, a liberdade e a propriedade dos outros. Se fossem dignos demitiam-se em vez de praticar tais jogos. Convencidos da sua importância e apaixonados pelo poder, envolvem-se constantemente, como bem o sabe qualquer pessoa que tenha observado políticos de perto, mesmo nos mais baixos níveis da política local, em conspiraçõezecas mesquinhas e ridículas de pela sua insignificância fundamental.

Há outro aspecto da palhaçada política, um tanto ou quanto tragi-cómico, a realçar. Os políticos, na sua infinita bondade talvez, fazem questão de resolver todos os males da sociedade que, coitadinha, não se sabe desenrascar sozinha. Pretendem ser ao mesmo tempo nosso paizinho, e nossa mamãe. São como o Pai Natal, que tem sempre uma mão cheia de prendas para oferecer. São mágicos, que tiram coelhinhos da cartola. Constantemente, em todos os meios de comunicaçãos, vê-se os políticos a exibirem a sua preocupação por aqueles que têm sob a sua autoridade e a mostrarem o bem que lhes fizeram, que lhes vão fazer, e até aquele que gostavam de lhes fazer. Em suma, adoptam uma atitude paternalista. Mas este paternalismo, como para tudo o que faz o estado, é um paternalismo de tabefe pronto a saltar. Quem não quiser dele tem que se submeter na mesma. Não é dada a ninguém a possibilidade de se livrar destes patronos cheios de generosidade. Não é dada a ninguém a possibilidade de não financiar, pelo imposto, toda esta generosidade, todos estes serviços, todas estas “soluções”.

Na verdade, é particularmente cómico ver os políticos, que nem bombeiros de serviço, apressarem-se a tentar extinguir qualquer problema mal este se faça notar. Em primeiro lugar, isto ilustra claramente a tendência doentia – que um homem de princípios firmes não pode ter – que têm de querer agradar a toda a gente, e mostra bem que estão longe de estar acima das paixões da sociedade que pretendem gerir através do seu “conhecimento”, da sua “experiência” e da sua “imparcialidade”. Além disso, é divertido, por assim dizer, observar as tentativas de solução que os políticos inventam, pela simples razão de que eles são a causa prima da maioria dos problemas que pretendem resolver. Eis alguns exemplos. Sem políticos não há guerras. São eles que as organizam e iniciam. Sem políticos não há opressão organizada. É o seu regime que viola a liberdade das pessoas. Sem políticos a intervir no mercado de trabalho através de salários mínimos, subsídios de desemprego, e obrigações sindicais, não há desemprego crónico. Sem políticas monetárias expansionistas, praticadas por bancos centrais que eles próprios criam, não há inflação. Sem políticos a imporem leis anti-discriminação, e anti-propriedade privada, não há problemas de imigração. Cada um aceita ou rejeita, na sua propriedade, quem lhe aprouver. Sem controles das rendas, não há prédios a degradarem-se ou a ruir. Etc, etc, etc, como bem o sabe quem estudou algum bom livro de economia (da Escola Austríaca, nomeadamente). O resultado de todo este jogo é muito simples, e lamentável. Os políticos ganham poder para criar-nos problemas. E depois disso, ganham poder a tentar solucionar os problemas que criaram. Bastaria não criá-los em primeiro lugar. E assim, empilhando mais e mais burocracias, se vai matando aos poucos a liberdade.

Não só não conseguem resolver os problemas da sociedade, como também não conseguem mudá-la substancialmente. Os políticos têm sempre tendência em considerarem-se mais importantes do que na realidade são. Os políticos estão presos, na realidade, pelo estado da opinião pública e do jogo de interesses vigente. Não podem nem abusar do seu poder, nem destruí-lo ou diminuí-lo, se não tiverem apoio popular, que depende das ideias que as pessoas têm. Quem tem controlo sobre estas ideias não são os políticos: são os intelectuais de todo o tipo. O político deve agradar a toda uma série de interesses instalados, dum ponto de vista prático. Se não o fizer será morto, levado a tribunal por ninharias, ou destituído do seu poder pelos seus próprios subordinados. Por causa da necessidade de compromissos, nunca se instauram reformas fundamentais, que necessariamente seriam duras. Temos antes jogo político: intrigas, caso sexuais, casos de corrupção, ataques de carácter e parcialidade facciosa dos partidos. E além disso, o estado e os políticos também eles estão sujeitos às leis económicas, que limitam as suas acções e as suas capacidades. Os políticos são os peões da História, mais do que seus actores principais.

Finalmente, há que reconhecer a cobardia inerente do político. É raro o político que tenha coragem física. Pode estar sempre pronto a mandar os seus capangas para o combate contra forças inimigas, ou a mandar os seus carrascos contra as suas ovelhas. Mas nunca se dá ao trabalho de tomar riscos pessoais pelos seus supostos ideias. “Morrer por uma causa” não é com ele, apesar de ter sempre as palavras “sacrifício” e “generosidade” na ponta da língua.

A cobardia do político não se limita a isso, aliás. Como se viu, o político não tem coragem moral: a determinação de defender intransigantemente os seus princípios. A maioria dos políticos é, no fundo, tão reles como as ovelhas mansas que domina. O grande medo do político é não estar na crista da onda. Não estar actualizado. Não estar “in”. Não acompanhar as tendências. O político enche-se de orgulho por fazer parte de organizações supostamente presitigiosas, como parlamentos, comités, comissões. Baba-se todo por ser convidado aos cocktails do Senhor Embaixador/Senhor Presidente/Sua Majestade. Títulos pomposos fazem-no sonhar. Vibra quando é convidado a participar nalguma cabala, nalguma conspiração, ou nalguma organização semi-secreta de chefes mundiais (tais como o Council of Foreign Relations, ou o grupo Bilderberg). E preocupa-se muito se o seu país não tiver uma “voz forte” nos eventos continentais ou mundiais, estando disposto a destruir a independência do seu próprio país para evitá-lo, como o ilustra a inexorável tendência para a centralização do poder em torno de organismos como a União Europeia ou as Nações Unidas. Que coisa mais vã e palerma esta de querer ter uma "presença internacional"! No fundo, o político é parecido com adolescentes imaturos cujo grande objectivo de vida é não serem barrados pelo gorila, na sua primeira saída à discoteca. Para satisfazer estas vontades pueris, os políticos estão dispostos a violar as liberdades que for preciso – as nossas.

Os políticos são mentirosos, manhosos, gananciosos, dominadores, parasíticos, pueris, oportunistas, cobardes e injustos. Esta gente sem espinha só merece o nosso desprezo.