domingo, 3 de janeiro de 2010

Direita, Esquerda, Ou Extremo Centro?

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 17 de Dezembro de 2009, no Minarquista.

Houve momentos em que me considerei de direita ou, para ser mais exacto, conservador. Penso ter confundido durante algum tempo, e como muito boa gente, conservadorismo nos assuntos do espírito com o conservadorismo político. Porque se continuo a sofrer do primeiro, certamente que já não sofro do segundo.

O conservadorismo político, mesmo aquele que é civilizado, é a longo prazo apenas a defesa do status quo contra qualquer evolução espontânea que o ponha em causa. Além de que os conservadores vêem o Estado como um instrumento social e como um pilar da nação. Estas não são as minhas crenças políticas. São, aliás, radicalmente opostas a elas. Eu não reconheço qualquer legitimidade ao Estado para me governar nem me identifico com a nação; não favoreço a acção do Estado para defender ou sustentar quaisquer instituições tradicionais em perigo de extinção pela simples evolução ou passagem do tempo, mesmo que elas tenham surgido voluntariamente das entranhas da sociedade civil. Posso defender a sua manutenção e trabalhar pela sua sobrevivência, mas não sou a favor da intervenção do Estado para a manter artificialmente ligada à máquina. Para mim, o Estado é um inimigo do indivíduo e da sociedade civil e a pátria uma abstracção que não me diz nada. E logo não posso ser conservador.

Tendo-me passado para o campo do liberalismo clássico, não tenho bem a certeza se sou de direita (apesar de, hoje em dia, toda a gente achar que sim). Os liberais clássicos do século XVIII e XIX não eram, decididamente, de direita: eram radicais, mal vistos pelas elites (laicas e beatas), subversivos e considerados perigosos pela gente respeitável. Eram, por outras palavras, de esquerda. O liberalismo clássico e o capitalismo eram filosofias radicalmente anti-conservadoras e anti-status quo.

Também nas questões ditas fracturantes (as únicas onde a esquerda e a direita moderna diferem em natureza, e não só em grau), só muito dificilmente me apanham do lado da direita: não acho que se deva limitar a liberdade de expressão em nome da «moral» ou da «honra»; acho que uma mulher deve poder abortar; acho que a prostituição e as drogas devem ser legais; acho que os casais homossexuais devem poder casar-se e adoptar crianças; acho que o exército devia ser desmantelado e posto a trabalhar; acho que se deve poder vender e comprar órgãos humanos, entre outras coisas igualmente, ou ainda mais, heterodoxas.

Se estas posições não são conciliáveis, segundo os parâmetros modernos, com a opinião de que o Estado é um aparelho predatório e parasítico, que o mundo seria melhor sem essa instituição, que a propriedade privada é a base da civilização e que um indivíduo deve ser livre de produzir, vender e comprar o que bem lhe apetecer sem que o Estado interfira no processo (seja para o regular, subsidiar, proibir ou ajudar no caso de alguma coisa correr mal), não posso fazer grande coisa a não ser lamentar.

Não tenho qualquer responsabilidade na perversão das palavras e dos conceitos, e por isso se tiver de escolher um lado para me definir politicamente, escolho a esquerda (pré-marxista, se quiserem). Mas acredito que a única distinção verdadeira é entre autoritários e libertários, colectivistas e individualistas, partidários do Estado e partidários da sociedade civil. Infelizmente nos tempos que correm tanto a direita como a esquerda me parecem irreversivelmente viradas para o autoritarismo, o colectivismo e o estatismo.