domingo, 31 de janeiro de 2010

A Proíbição Da Burka

Copyright Miguel Madeira, no Vento Sueste, 28 de Janeiro 2010

A França prepara-se para proibir o vêu integral, não sendo ainda claro se tal medida se vai aplicar apenas a edificios públicos ou também a quem ande na rua. Noutros países europeus discute-se o mesmo.

A minha opinião sobre a burka é a mesma que sobre o consumo de heroína - acho que não tem jeito nenhum, mas se alguém a quer usar/consumir, o que é que eu tenho a ver com isso?

A respeito de alguns argumentos usados para justificar a proibição:

1 - "A burka é um simbolo da discriminação e submissão da mulher"

Como é dito aqui, exactamente, é "um simbolo". Não se devem proibir "simbolos" (apenas actos reais).

2 - "Algumas mulheres usam a burka porque são obrigadas pela família"

E outras não. E assim, vamos passar de uma situação em que há uma hipotética imposição para outra em que há uma imposição clara e explicita. Além disso, não é muito claro o que "obrigadas" quer dizer neste caso. Se estamos a falar de mulheres que sejam agredidas ou mesmo mortas pelos maridos ou familiares por não usarem a burka, isso já são crimes previstos por lei, e o que deve ser feito é fazer cumprir essas leis. Mas e os casos de mulheres que usam a burka porque senão "são marginalizadas pelos familias e pela comunidade, abandonadas pelos maridos, etc."? Será que isso deve contar como "obrigadas"? Sinceramente, acho que não, ainda mais tratando-se de mulheres vivendo num país ocidental, que não teriam dificuldade em arranjarem um circulo social alternativo caso fossem excluidas pela comunidade de origem. A única situação em que o argumento do "obrigadas" faz algum sentido será no caso de menores.

3 - "A comunicação não-verbal é um aspecto importante da comunicação, e a burka impede isso"

Nesse aspecto, eu sou um bocado suspeito - como bom "INTP", eu prefiro falar sobre ideias e teorias do que sobre emoções e sentimentos; como a comunicação não-verbal é mais relevante para as segundas do que para as primeiras, é possível que eu lhe dê pouca importância.

Mas acho que isso é irrelevante - mesmo que a comunicação não-verbal seja um aspecto importante da comunicação, se alguém não quer "comunicar não-verbalmente" comnosco, está no seu direito.

4 - "Andarem pessoas não identificadas na rua representa um problema de segurança"

Este parece-me ser o ponto mais sólido dos anti-burkistas

Agora, vamos pensar na implementação da lei - se a polícia francesa encontrar uma mulher usando burka, o que vai fazer (sobretudo se se entender que o uso vai também ser proibido na rua)? Obrigá-la a tirar a burka? Multá-la? Levá-la para a esquadra? Fazer de conta que não é nada? Algumas dessas opções parecem-me muito susceptíveis de criar choques de sensibilidades (já a última iria fazer o Estado francês cair no rídiculo) - imagine-se que a policia encontra uma mulher velada na rua e ordena-lhe que retire o véu; para perceber o impacte disso, temos que nos lembrar que, para um(a) muçulmano(a) tradicionalista, isso era o equivalente, a, para um português, a policia barrar uma mulher na rua e ordenar-lhe que levantasse um pouco mais a saia. Se já há muita hostilidade à polícia nos subúrbios de Paris, imagine-se agora...

E com uma agravante: até agora, os confrontos entre jovens magrebinos e a polícia em França têm sido essencialmente arreligiosos: os adolescentes que queimam carros e atiram pedras à polícia não são muito diferentes dos blouson noirs dos anos 50 ou dos jovens brancos da "underclass" britânica actual, apenas são mais escuros e com nomes esquisitos. Mas se a essa semi-deliquência juvenil "clássica" se juntar uma hostilidade religiosa ao Estado francês, poderemos estar a transformar os "rebeldes sem causa" em "rebeldes com uma causa" - a jihad, e em vez de simples desordeiros de bairro, passarmos a ter um viveiro de recrutamento de terroristas.