domingo, 9 de maio de 2010

Isso Não Dizem Na TV?

Pela Elisabete Joaquim, 9 de Maio 2010, no Insurgente.

Medina Carreira esteve este fim de semana na feira do livro de Lisboa para aquilo que seria uma conferência de apresentação do seu livro Portugal, que Futuro? mas que acabou por ser, a pedido da plateia, uma conversa com perguntas-respostas. Visivelmente satisfeito pela enchente do pequeno espaço dedicado ao evento, Medina Carreira repetiu o que já há muito nos habituámos a ouví-lo dizer: Que desde 70 a dívida pública tem vindo a aumentar consideravelmente e em correlação indirecta com o crescimento do Estado, que está hoje perto de zero; Que Portugal é um país em que só um louco investe, onde a Justiça não funciona, o código de trabalho é demasiado rígido e onde só os monopólios se safam; Que a Educação é uma burla alargada na qual a “aprendizagem” é um pretexto para a escola-depósito; Que o próprio Estado Social é uma burla; Que somos um povo «manso» e «sem escola».

A plateia queria soluções, remendos ou estimativas temporais para o agora certo apocalipse. Medica Carreira repetiu que não há soluções, que seis milhões de portugueses, mais de metade da população, depende do Estado, mas isso não dizem na TV, já convidei pessoas para debater este assunto comigo na TV e toda a gente recusa. Cortar nas despesas do Estado que não envolvem esses dependentes teria efeitos irrisórios nas contas públicas, e mesmo matar todos os ricos de Portugal não traria mais que 10€ ao bolso de cada um deles.

O diagnóstico parece hoje banal. Parece até estranho que uma pessoa como Medina Carreira tenha sido encarada pelos media como material de circo. Ser material de circo mediático exige um fino malabarismo entre a crítica polémica ao sistema mas sem nunca pisar o chão de fundo do próprio sistema; entre apontar o que está mal mas sem falar das causas do mal. Medina Carreira sempre foi um excelente censor da crise, um hábil detector sem a função teórica da explicação. Durante este evento na feira do livro, e apesar das várias perguntas directas nesse sentido, Medina Carreira esquivou-se sempre de uma explicação teórica de fundo para o fenómeno actual, e recusou ler o problema numa perspectiva normativa. Agora que o circo se tornou realidade e por isso perdeu a piada, e que o palhaço perdeu o circo, poder-se-ia perguntar: Medina Carreira, que Futuro?

Mesmo que Medina Carreira decidisse quebrar a fronteira e falar claramente dos problemas do Estado Social (independentes da sua relação à economia), duvido que os nossos jornalistas, como o intrépido defensor da liberdade Mário Crespo que esta semana engraxou entrevistou de forma tão inspirada Mário Soares, fossem achar piada a este novo senhor que para além de ter razão no diagnóstico ainda vem pôr em causa os fundamentos daquilo que só com nariz vermelho se pode ousar chamar a Grande Burla.