domingo, 27 de junho de 2010

Bons Canalhas Versus Maus Canalhas

Constituição da República Portuguesa

Artigo 2.º
Estado de direito democrático

"A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, ..."

Artigo 46.º
Liberdade de associação

"4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."

É dificil, olhando para a constituição portuguesa, não lhe ver imediatamente os defeitos.

Em primeiro lugar, é incoerente. Não há nenhum "princípio" afirmado que não seja simultâneamente rejeitado e enfraquecido no próprio documento. Por exemplo, partidos e organizações fascistas/racistas são inconstitucionais. Mas ao mesmo tempo, pretende-se que a república seja democrática. Ou seja, pretende-se que o povo seja soberano, que seja autorizado a escolher quem lhe apetecer para o governar mas, vá-se-lá saber porquê, se uma maioria da população quiser ser governada por um caçador de pretos ou por alguém que queira destruir a democracia, não podem escolhê-lo. Como ficamos, então? Só se aceita os partidos de quem se gosta? É esta a "democracia"?

Segundo, vê-se manifestamente que foi feita à medida dos vencedores do 25 de Abril. A constituição fala de "liberdades", "garantias", "liberdade de expressão" e tutti quanti. Mas vá-se-lá saber porquê, este direito não está garantido para os inimigos de estimação da esquerda e principalmente dos comunistas: os nacional-socialistas.

Independentemente da democracia em si ou dos partidos de "extrema-direita" serem bons ou justos, as restrições à sua actividade (assim como o ar de superioridade moral que a esquerda tem perante eles) mostram bem a palermice e a arrogância deste regime (que se pode sem exagero chamar de regime de esquerda*, de pelas ideias que dominam na sua constituição, na população em geral, e na prática diária do estado e dos partidos de ambas as alas). A razão, supostamente, pela qual se proíbem este tipo de associações, é o perigo que põem para valores considerados por muitos como superiores, por exemplo a democracia ou a liberdade. E o que se faz para defender a tal liberdade/democracia? Viola-se a liberdade e a democracia dum determinado grupo... Faz sentido, não é?

Além disso, só pode dar vontade de vomitar ver a esquerda, e principalmente os comunalhos cuja prática política tende sempre para o totalitarismo político e económico, dar lições de liberdade ou democracia a quem quer que seja. Não porque aquilo que têm a dizer sobre movimentos de "extema-direita", racistas ou nacional-socialistas seja necessariamente falso; mas porque não têm nenhuma credibilidade para dar lições de moral. Eles próprios são liberticidas e/ou anti-democráticos, se bem que dum estilo diferente. Qualquer promoção que possam fazer destes ideiais é meramente instrumental. Por isso, vão dar banho ao cão.

Acreditar-se-á no amor à liberdade e à democracia (dois princípios, já agora, incompatíveis) da esquerda no dia em que autorizar a constituição e a liberdade de expressão de associações e partidos racistas, fascistas e militarizados. Até lá, a esquerda só pode ser vista como querendo o poder em exclusivo, e a sua rivalidade com os nacionais-socialistas como uma birra entre irmãos. Todas estas facções - nazióides, comunalhos, social-democratas, etc - têm um ponto em comum: querem tomar conta do poder e utilizá-lo para chular/transformar a sociedade. A esquerda não pense que é o "Bem". É simplesmente um entre vários males.

Às vezes, só para ter o prazer de indignar estes tótós ridículos, convencidos, ladrões, invejosos, parasitas e assassinos, apetece vestir um uniforme do Ku Klux Klan ou das SS, e desfilar na Avenida da Liberdade (se possível, no 25 de Abril). Tendo em conta o seu delírio de superioridade moral, assim como a sua incapacidade patente em refutar sensatamente as críticas dos seus adversários à direita (e dos seus inimigos liberais), é mesmo o que merecem.

A esquerda que temos, apesar de não ser na prática "pura e dura" como os totalitarismos comunistas, é bem mais perigosa do que qualquer grupo de skinheads que por aí anda, apesar da "moderação" das suas ideias. As injustiças que a república portuguesa comete são inúmeras, sistemáticas e sufocantes (burocracias, impostos, restrições ao comércio, censura pós-facto pelos tribunais, desarmar dos cidadãos, serviço militar (até recentemente), expropriações, caça aos vícios, controlos de preços, cartéis, corporações, monopólios). Muitas destas práticas são o resultado directo do trabalho político da esquerda militante, pura e dura. Outras, são o resultado da sua cumplicidade e da sua indiferença. E a esquerda, ao contrário dos skinheads, está firmemente implantada no poder. Tem a máquina do estado ao seu serviço.

Bons canalhas: aproximadamente 100 milhões de cadáveres



Maus canalhas: aproximadamente 25 milhões de cadáveres


Adivinhem quem está no parlamento?

*Sim, de esquerda, por muito que desagrade a um militante do Partido Comunista ser posto no mesmo saco que um militante do PP ou do PSD. Nenhum partido de direita rejeita balelas como o "estado-social", "igualdade de oportunidades", ou o republicanismo/democracia de massas - ideias eminentemente esquerdistas. O que não quer dizer, obviamente, que qualquer política destes partidos seja um passo à esquerda.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Judeus, Anti-Semitismo E Democracia


Um aviso para as gerações mais jovens: não se ponha uma imagem destas no seu blog, caso se queira ter sucesso na vida, ser visto como respeitável, e arranjar trabalho na alta Finança. Agora, se o objectivo é atraír leitores para algum blogue, não se hesite. Nada de melhor do que temas que envolvam judeus ou Israël, para animar a malta.


Nota: este artigo foi originalmente publicado como comentário, no Insurgente, de forma ligeiramente diferente.

Um sistema ditatorial (e mais ainda uma monarquia), não deve ser necessariamente visto como um mal para os judeus, principalmente quando comparado com a Democracia. Os judeus fazem geralmente parte, em termos sociológicos, da elite política/económica/intelectual (muito mais do que outras minorias como, por exemplo, pretos ou ciganos). São, sem ironia e objectivamente, um povo superior. Ora as massas não gostam disso. São fortemente ladras (querem o que é dos outros, “something for nothing”) e invejosas (não gostam de quem é melhor/mais rico/mais inteligente). Esta roubalheira e esta inveja é travestida de “solidariedade” e de “luta contra as desigualdades”. Basta observar o ocidente democrático e as suas políticas fiscais para perceber isso. O sistema democrático dá asas a todos os piores instintos da natureza humana. Dá-lhes poder, legitimiza-os, e retira o opróbrio que lhes está associado – votar é “normal” e secreto, e a polícia faz o trabalho sujo pelo cidadão-eleitor, que não precisa de se sujar as mãos. Não traz a liberdade às massas. Traz as massas para o poder, com que destroem a sua própria liberdade. As massas usam o voto para sacanear os seus vizinhos. Historicamente, o crescimento do estado e a socialização da sociedade coincidiram com a extensão do direito de voto – a democratização da sociedade. Veja-se “Democracy: The God that Failed”, do Hans-Hermann Hoppe, que descreve bem essa evolução.

Por esta razão, defender o princípio da supremacia da maioria sobre a minoria é do mais perigoso que há para os judeus (principalmente para os seus legítimos interesses: vida, liberdade e propriedade) e para qualquer minoria bem sucedida em geral.

Eles fazem parte daqueles que “têm” (e logo devem ser espoliados) e não dos coitadinhos que “não têm” (e logo podem sacar aos que têm). E eles fazem parte da minoria, em todo o lado (menos Israël, e mesmo aí, só por mais três ou quatro décadas…). Além disso, têm frequentemente uma cultura própria, segregada e/ou segregante (religião própria diferente da religião maioritária; matrimónio dentro do seu grupo religioso). Isto faz com que sejam mal vistos pela população maioritária (são vistos como gente estranha, que faz “grupinhos”, que não se integra, etc…). Também, muitos nacionalistas os vêem de lado porque consideram que eles, judeus, têm mais lealdade para com os seus correligionários do que para com o seu país (o que implica que em caso de conflito entre os “interesses da nação” e algum judeu eles sejam levados a tomar partido “contra a nação”). Ora as massas são geralmente bastante nacionalistas (mais do que as elites, pelo menos). Todas estas percepções, legítimas ou não, podem criar hostilidade da maioria contra os judeus, o que é perigoso para estes pois traduzir-se-á necessariamente em políticas coercivas do Estado, mais tarde ou mais cedo.

Não nos esqueçámos que o Hítler subiu ao poder democráticamente. Os alemães não eram na sua maioria, grandes fãs dos judeus…

Quanto à esquerda especificamente, de pelos seus valores igualitaristas, está condenada a entrar em choque com os judeus mais tarde ou mais cedo… Marx não gostava de judeus (um comuna a gostar dum grupo religioso fortemente representado na Banca, na Finança, na riqueza? nã…). A esquerda (nomeadamente os comunistas) apoiou sempre o derrube das monarquias, pois sabe bem que o republicanismo, e a democratização da sociedade, é favorável a que movimentos socialistas/comunistas “ponham um pé” no poder (no parlamento), enquanto que pelo contrário um rei se opõe a movimentos desses, por irem contra os fundamentos duma ordem social monárquica: desigualdade, aristocracia, autoridade hereditária, propriedade privada. A esquerda sabe que as massas têm geralmente os chamados “valores de esquerda”: inveja e ganância. O facto da esquerda, que tem valores – principalmente o seu igualitarismo – que vão contra os interesses de muitos judeus, ser tão favorável à participação das massas no poder, devia fazer pensar duas vezes os pro-semitas no que toca ao seu apoio à ideia democrática.

Defender o princípio democrático em nome dos judeus é insensato, particularmente nesta altura em que a desconfiança pelos judeus está a aumentar no Ocidente (em França, particularmente, e também na América). Por várias razões:

1. Israël é cada vez mais visto como um estado-pária colonizador/ladrão/limpador-étnico/assassino-de-civis – e as pessoas sabem bem que muitos judeus da Diáspora apoiam mais ou menos fortemente Israël, sendo por isso vistos como cúmplices dos seus crimes. Muita gente não vê com muita clareza a diferença entre israëlitas, sionistas, e judeus (até porque esta distinção nem sempre existe).

2. A Internet facilitou brutalmente a difusão de ideias que de outro modo não saíriam para fora (por questões legais, ou porque judeus/israëlófilos influentes nos media não o permitiriam). Por exemplo, propósitos negacionistas da matança dos judeus na 2º Guerra Mundial, teses sobre a influência dos judeus sobre as instituições, propósitos anti-sionistas ou anti-semitas, etc… É particularmente notável este fenómeno em França, onde tudo o que toca a judeus foi durante décadas tabus, o que começa a mudar. O estado e os media tradicionais não conseguem facilmente controlar a Internet.

3. A Internet tornou evidente a quem se interesse por isso (principalmente no caso de França), que os movimentos judeófilos/sionistas usam frequentemente da sua influência sobre o estado para violar as liberdades ou os interesses de não-judeus, inclusivamente da maioria branca cristã (o que é espantoso, em países democráticos – teóricamente, seria de esperar o contrário). Isto passa por leis que proibem propósitos negacionistas (loi Gayssot) ou propósitos anti-semitas (e estas leis foram aplicadas tão extensivamente que qualquer crítica a judeus passou a poder implicar multas/prisão – até a simples expressão “Lóbi judeu”, ou simples piadas), e por campanhas de boicote e ostracismo a quem se afirma como anti-semita ou anti-sionista (vide o caso do humorista Dieudonné). Alternativamente, os mesmos movimentos/associações utilizavam a sua influência sobre os media para evitar que comentários mais críticos de Israël, e relatos sobre os crimes deste estado contra os palestinianos, saíssem para a opinião pública. Um número crescente de pessoas acredita que estas associações/movimentos/lóbis se apoiam sobre o sentimento de culpa dos ocidentais pelo que se passou na Segunda Guerra Mundial com os judeus, para promover agendas particulares nem sempre legítimas (para retomar uma expressão dum francês envolvido nestas questões: “une pornographie de la Mémoire”).

4. Há cada vez mais muçulmanos na Europa (em França e na Alemanha, principalmente). Os muçulmanos não têm obviamente veneração nenhuma de especial pelos judeus, nem têm qualquer “complexo de Segunda Guerra Mundial” que os leve a tratar com paninhos quentes os judeus ou Israël, pois os crimes contra judeus, durante a guerra, foram cometidos por povos cristãos. Recorrer a um certo sentido de culpa e de vergonha (como se vê constantemente da parte de movimentos sionistas/pro-semitas) é por isso uma estratégia que não funciona com eles. Além disso, da mesma forma que por razões confessionais muitos judeus apoiam Israël, muitos muçulmanos apoiam os palestinianos também por uma questão de solidariedade confessional (e opõem-se a todos aqueles que vêem como inimigos dos palestinianos, nomeadamente a Diáspora). Os muçulmanos têm mais filhos que os judeus, e têm mais votos. Os políticos, em boas prostitutas que são, têm que tomar conta disso. Se sentirem que há vantagem eleitoral em largar os judeus/sionistas e apoiar claramente os muçulmanos/palestinianos, fá-lo-ão sem escrúpulos.

5. A repugnância à Banca por parte da população tem aumentado nos últimos tempos, pelos planos de salvamento gigantescos de que esta tem beneficiado à custa das massas. Os judeus são vistos como influentes nesta área, e logo como cúmplices e fomentadores destas políticas.

6. Há a crescente percepção que o império americano não consegue tomar uma política independente dos israëlitas, e que no fundo “o rabo está a abanar o cão”. Há a percepção que a administração e o congresso americano, independentemente do partido no poder, têm medo e são incapazes de se opôr frontalmente aos defensores de Israël que há dentro da sociedade americana – o lóbi israëlita. Há a percepção que isto promoveu injustiças no Médio-Oriente – por exemplo, destruir o Iraque para enfraquecer um vizinho de Israël potencialmente perigoso. Há a percepção que a população americana é obrigada a financiar os custos em dinheiro e em vidas necessários para defender interesses alheios – Israël. E inclusivamente existe cada vez mais a percepção que a população está a suportar os custos duma política que não só não a serve, como lhe é literalmente nefasta (por criar inimigos no mundo islâmico e fomentar o risco de retaliações de toda a espécie, principalmente terroristas).

Por estas razões todas, a desconfiança por judeus e israëlófilos está a aumentar. E a situação pode dar uma volta negativa, de novo, para os judeus. Por exemplo, e como hipótese, se os ocidentais se meterem com o Irão – fortemente incentivados pelos israëlitas, como se vê todas as semanas nas notícias -, vão levar forte e feio. Vai ser uma guerra dura, que não lhes vai correr tão bem como podem pensar. Quando e se isto acontecer, e no rescaldo duma provável derrota ocidental e do sofrimento que só uma guerra pode provocar, os ocidentais podem querer “voltar-se contra os culpados”. Estas viragens abruptas de política acontecem, historicamente (pense-se por exemplo no início da Guerra Fria, logo no seguimento da aliança Staline-Roosevelt contra o Eixo). É possível que aí se virem contra os judeus, por considerá-los como uma das más influências que tenham levado à guerra. Aí, pagaria o justo pelo pecador. Pagaria o judeu pacífico pelo israëlita sionista e colonizador ou até pelo não-judeu militarista. E a democracia, num tal contexto, só daria força à má vontade da população perante “os responsáveis por este desastre”.

Isto não implica que um país democrático seja sempre mais duro com judeus do que uma ditadura/monarquia. O modo de selecção dos chefes políticos dum país é só um dps aspectos que determinam o tratamento reservado às minorias. Mas implica sim que a democratização dum país fomente a aplicação de políticas nefastas a judeus (intencionalmente ou não), mais do que seria o caso de outro modo.

O que é justo não é a Democracia, mas sim a Liberdade. Esta permite a cada um ter uma esfera inatacável por quem quer que seja, quer faça ou não parte da maioria.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Divagações Sobre O 25 De Abril

Nota do Editor: sobre a questão dos latifúndios, veja-se a análise do Murray Rothbard (1.The Problem of Land Theft; 2.Land Monopoly, Past and Present.)

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 25 de Maio 2010, no Sem Governo.

A história oficial do 25 de Abril, venha ela da esquerda ou da direita, analisa os factos sempre pela lente maniqueísta de duas forças naturalmente opostas, do bem e do mal em conflito milenar. A hipótese de ter duas forças perversas e malignas em conflito, e nenhuma força justa e benéfica envolvida, está naturalmente de fora das considerações oficiais.

As duas análises prevalecentes, e sucedâneas no tempo, complementam-se e são fruto do mesmo erro teórico. A história oficial conta, então, que na primeira fase o «mal» era o regime que se queria destruir e o «bem» a revolução que o iria perpetrar. Uma vez deposto o regime começa a segunda fase, e a questão passa a ser que alternativa política impor ao país, e novamente surge outra oposição maniqueísta: entre os sociais-democratas, o «bem», e os socialistas-soviéticos, o «mal».

Duas análises estão, portanto, necessariamente fora de questão: a de que a revolução e destruição do regime pudesse, em si, ser maligna; e a de que a oposição entre socialistas moderados (direita) e socialistas extremos (esquerda) fosse constituída por dois males, dois tipos de socialismo, duas faces da mesma maligna moeda.

O regime de Marcelo Caetano caiu por causa da guerra, não pela pobreza ou pela opressão interna – tanto mais que a «revolução» foi apenas uma demonstração militar, que algum povo apoiou quando achou seguro sair à rua (ou seja: saiu à rua quando a «revolução» já estava feita). Caso Caetano tivesse terminado logo a guerra em 69 e abandonado África unilateralmente, não teria havido «revolução» nem cravos. A questão insinua-se: estaríamos melhores (mais livres e prósperos) ou piores (menos livres e mais pobres) ou iguais (nem livres nem prósperos) sem a «revolução»?

A resposta depende de outras perguntas: teria Caetano cedido à pressão europeia e americana de «democratizar» e «socializar»? Teria liberalizado o mercado e mantido o freio político (tipo Chile)? Teria regressado à ditadura caquéctica e beata de Salazar? Por triste que seja, mesmo que Caetano tivesse terminado imediatamente a guerra e se evitasse a luta pelo poder de dois socialismos (25 de Abril), o governo Caetano mostrava já a tendência e a intenção de «democratizar» e «socializar» - mantendo o corporativismo intacto mas abrindo aos poucos e ligeiramente a economia ao mercado global – e provavelmente teria evoluído para uma social-democracia banal como a que temos hoje, com todas as consequências nefastas que se conhecem. A única vantagem teria sido evitar as nacionalizações e ocupações (feitas pelo PCP, não pelo povo), que efectivamente injustiçaram muita gente, destruíram a capacidade produtiva do país e não fizeram justiça a ninguém (por exemplo, não fizeram justiça aos agricultores do Sul, que eram os justos proprietários das parcelas de terra que trabalhavam).

Outro assunto é a oportunidade perdida de secessão: entre Maio de 74 e Novembro de 75, os comunistas tiveram a possibilidade (e conseguiram-no em certa medida) de instaurar um regime comunista-soviético no Ribatejo e Alentejo. Separar o país do Norte (de pequenos proprietários descendentes de apropriadores originais) do país do Sul (de latifundiários que oprimiam os descendentes de apropriadores originais), teria sido benéfico por duas razões. A primeira é que destruiria, para sempre, o mito do comunismo em Portugal. Mesmo que o Norte se tornasse numa social-democracia, o facto de permitir alguma, mesmo muito controlada, propriedade privada e comércio com o estrangeiro tornaria (como no caso da RDA e RFA) o Norte infinitamente mais rico, mais livre e mais belo do que o Sul – e as pessoas no Sul começariam a migrar massivamente para o Norte, matando a «superioridade moral» comunista para sempre e de vez na mente do cidadão comum (coisa que ainda hoje está por fazer em Portugal). A segunda é que, livre das tendências comunistas do Sul, o Norte poderia facilmente gerar uma forma de social-democracia menos socializante e naturalmente superior à que temos hoje com o país inteiro. Eventualmente ter-se-ia dado a reunificação do país, mas certamente que não haveria um PCP nem um Bloco de Esquerda.

Embora tenha havido a natural oposição à «democracia burguesa» por parte dos comunistas e da extrema-esquerda nos primeiros tempos, hoje a transição para a democracia é vista como um grande feito, uma grande conquista – não só pelas pessoas do Norte e de Direitacomo pelas pessoas do Sul e de Esquerda.

Tomou-se então a noção errónea de que a implementação da democracia de massas, mantendo-se intacto o corporativismo pátrio, foi uma grande mudança – e mais: um grande avanço. É certo que a «revolução» e a democracia acabaram de vez com os tiques obsoletos de opressão que vinham de Salazar e continuaram a murchar com Caetano. Mas do corporativismo anti-democrático (fascismo) para o corporativismo democrático (social-democracia) o caminho é muito curto, e nada de fundamental mudou na estrutura ou organização do país (de facto, podemos dizer com certeza que o cidadão pacífico e honesto tem muito mais a temer do Estado democrático do que do Estado Novo).

O advento da democracia (e com ela, naturalmente, do Estado Social) apenas intensificou, consolidou e entrincheirou o corporativismo, a corrupção, a pobreza e a dependência; previsivelmente, acrescentou aos problemas mencionados a delinquência, a criminalidade, a irresponsabilidade, a má educação, o mau gosto e a alta preferência temporal que caracterizam as massas e que as massas, chamadas às urnas para decidir quem as deve pastorear, promoveram ao poder.

Em 1974 existiam três tarefas fundamentais: acabar com a guerra, parcelar os latifúndios do Sul entre os seus justos proprietários e abrir o país ao investimento estrangeiro e ao mercado global (ao capitalismo). Só a primeira tarefa foi levada a cabo e mal. Os agricultores do Sul passaram de servos dos latifundiários para servos das cooperativas criadas pelo PCP. E o capitalismo só entrou, muito controlada e corporativamente, em 1989 – quando entretanto já existiam quinze anos de democracia e de Estado Social.

Todo este lodo político do presente se deve à oportunidade perdida do passado, da «revolução» que não o foi e da subsequente luta entre dois socialismos, dois males, pelo poder. Luta onde o «bem» nunca chegou a aparecer e onde a liberdade nunca passou de um slogan.

Patriotismo Futebolístico


Um belo exemplar de lusitanus pimbalhus.


Os portuguêses têm as suas prioridades completamente baralhadas.

Quando chega alguma competição internacional de futebol, agitam-se freneticamente para apoiar a selecção (na prática, uma colecção de macacos habilidosos).

Mas quando políticos globalistas e desenvergonhados os entregam a países e instituições estrangeiras, destruindo ou diminuindo assim a sua independência política e permitindo a estrangeiros impôr-lhes medidas liberticidas, mal piam.

Mais sensato do que ir para Àfrica do Sul correr o risco de ser assaltado e morto por algum preto ressentido seria pegar na caçadeira meio-ferrugenta do avô e dar cabo de dois ou três canalhas merecedores cá da terra. Patriotismo por patriotismo, e se fôr para correr riscos, vá-se ao essencial...

...

Temos um povo idiota e sem espinha, capaz de se vender por uns subsídios/rebuçados. Temos umas elites traidoras, cínicas e sem qualquer patriotismo. Mas felizmente, também temos muitos patriotas da bola.

Este país é uma (tragi-)comédia.

PS: Ronaldo, deixa-te de vaidades e de mulas por uns tempos, e vê-lá se metes alguns golos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Valores Ocidentais


T-Shirts israëlitas.


Segundo a brigada dos israëlófilos incondicionais*, os ocidentais (americanos e europeus, essencialmente) têm que apoiar Israël por partilharem com esse país um conjunto de princípios essenciais.

A premissa dos neoconeiros é perfeitamente aceitável. O Ocidente partilha de facto alguns valores importantes com Israël. O gosto pela matança de muçulmanos, principalmente civis, mulheres e crianças, é o principal. O Iraque, o Líbano, a Palestina, o Afeganistão, o Paquistão e o Irão assim o indicam.

Se daí se pode concluir que apoiar os israëlitas é uma obrigação dos ocidentais já é outra questão...

*Será que existem israëlófilos condicionais, já agora? Avisem se avistarem algum, por favor.

Leituras Complementares (Com fotos): Israëli Culture Is An Inhumane Culture.

Bloqueios E Proteccionismo

Segundo os seus defensores, o proteccionismo comercial (restrições às importações de bens e serviços) cria bem-estar e prosperidade, protegendo as indústrias dum país. Seguindo esta ideia, tem que se considerar a faixa de Gaza, actualmente sob um severo bloqueio imposto pelos militares israëlitas, como um país super-protegido, em desenvolvimento rápido. E incidentemente, os habitantes de Gaza têm a obrigação moral de se sentir gratos para com Israël, que lhes impõe um cerco. Afinal de contas, os militares de Israël estão simplesmente a levar os princípios proteccionistas até às suas ùltimas consequências: o fecho das fronteiras a qualquer tipo de comércio (os mísseis, quanto a eles, estão isentos). Desta forma, os habitantes de Gaza até poupam nos impostos que seriam necessários para financiar os agentes das alfândegas, caso decidissem eles próprios criar um sistema de restrição ao comércio.

O facto dos proteccionistas nunca assumirem que a sua política não é fundamentalmente diferente dum cerco, apesar das óbvias semelhanças, mostra bem que não estão a defender a população em geral do "exterior", mas antes certos grupos económicos dentro do país, à custa dos consumidores desse mesmo país. Estão simplesmente, em suma, a conceder restrições monopolísticas a certos indivíduos.

Dito isto, e tendo em conta que toda a gente entende mais ou menos claramente que o proteccionismo tem consequências nefastas para determinados grupos duma população qualquer "protegida", resta tentar perceber dois factos salientes da última semana.

Primeiro, é curioso que a Esquerda, que se opõe assumidamente ao mercado livre e ao comércio internacional, tenha condenado vehementemente o ataque das tropas israëlitas a uma frota de barcos que esta semana tentou furar o bloqueio de Gaza. Afinal de contas, os israëlitas estavam simplesmente a "proteger" Gaza da concorrência internacional.

Segundo, é curioso que a Direita, e principalmente a Direita liberal, tenha em grande parte tratado com desprezo os activistas massacrados pelas tropas de Israël. Afinal de contas, ao tentar entregar contrabando a Gaza estavam simplesmente a furar um bloqueio (quer fossem esquerdistas radicais, islâmicos fanáticos, mercenários do Irão, ou progressistas versão tótó-light, nada importa quanto à natureza do seu acto). Ou seja, estavam a praticar o tal comércio internacional que os adeptos do comércio livre defendem.

Vá-se lá saber perceber estas cabeças ocas!

Israël

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 1 de Junho 2010, no Sem Governo. Um post acerca do ataque à frota que tentou furar o bloqueio a Gaza.

Aquilo que dá para perceber pela discussão sobre a última vilania idiota do governo israelita, é que a grande maioria da direita (incluindo liberais) deixa de pensar e de ter princípios quando o assunto é Israel.

Gostava só de lembrar mais uma vez que defender o Estado de Israel não é defender o povo judeu. É, aliás, o exacto oposto.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Debater Pela Liberdade

Introdução

Defender as suas ideias políticas passa por participar em fóruns de discussão. Estes raramente apresentam as condições ideais para a difusão de ideias claras. Convem por isso estar atento para os problemas que podem surgir, assim como estar ciente da melhor maneira de gerir estas situações.

A. Factos Principais, Estratégia Global.

1. Em debates públicos nos meios de comunicação, o tempo disponível é muito limitado. Além disso, as interrupções (muitas delas irrelevantes, desonestas, irracionais) são muito frequentes, o que dificulta a disseminação de ideias. Perante esta constatação, o que conta é ir directamente ao essencial da questão em discussão. Começa-se por dar a conclusão a que se quer chegar, e só depois se dá o raciocínio que leva a tal conclusão. Infelizmente, não há propriamente tempo para desenvolver longamente questões, e refutar objecções possíveis. Por isso, começa-se pelo “slógan”, pela frase feita, e só depois se dá argumentos. Questões anexas, paralelas, são deixadas para uma fase posterior, caso haja possibilidade de desenvolvê-las.

Há que ter o cuidado de não se perder em “dissertações”, perdendo o fio à meada, e acabando por não concluir o discurso. Há que fazer frases curtas, simples, concisas. O discurso falado não se adequa a tantas qualificações como o escrito. É importante não desenvolver temas paralelos sem antes ter chegado à sua conclusão principal.

Convém para ter um discurso claro ir minimamente preparado para o tema a debater, sabendo as linhas gerais daquilo que se vai defender. De outra forma, o comentador arrisca-se a “deliberar” ou “pensar” em voz alta, perdendo a acutilância do seu discurso.

2. É preciso começar por fazer uma crítica abstracta – ética, pragmática, económica, política – das ideias e princípios falsos do adversário (ou simplesmente das ideias em discussão, mesmo que não estejam associadas directamente a uma pessoa particular). O mais importante de tudo é levar as pessoas a perceber a nefastidade duma política qualquer. A crítica teórica é essencial, pois sem uma mudança ideológica não pode haver mudança social. Se esta mudança não ocorrer, as pessoas toleram as maiores injustiças. No caso de discussões políticas, é mais importante discutir uma política em si, do que questões segundárias (perguntas como: quem vai ganhar as eleições? qual é o candidato que tem mais probabilidades de ganhar? qual é o candidato que teve o melhor desempenho no debate televisivo? o que é que tal ou tal candidato disse ou fez no passado? será que é fiel à sua mulher? quem tinha a gravata mais bonita? etc...).

Mas isto não basta. A crítica de determinada política é necessária, mas é só o primeiro passo para a fase seguinte. Posteriormente, é preciso ser conflituoso, desagradável, e “concreto”. Isto passa por fazer ataques pessoais – pelo menos em questões de princípios (e também em questões factuais, quando o adversário diz falsidades para servir uma agenda qualquer imoral). É preciso desmascarar a imoralidade daqueles que defendem ideias injustas. É preciso apontar o dedo. É preciso fazer sofrer os ideólogos imorais, desmistificando-o, tratando-os sem qualquer veneração, criticando-os, gozando-os, ostracisando-os, tirando-os do seu conforto e da sua posição social proeminente. O objectivo é levá-los a pensar duas vezes, da próxima vez que quiserem promover nojices. A discussão não serve só para convencer – também para vencer.

O debate também é uma luta, um conflito, cujo objectivo é levar o adversário a retrair-se e a abandonar certos comportamentos (no caso dos liberais, o seu objectivo é calar, sem recurso à violência, os intervencionistas, e levá-los a abandonarem o poder, ou pelo menos a conterem-se no seu uso). Não há vergonha nenhuma em ser duro com os canalhas, os mentirosos, os cínicos, os hipócritas, os poderosos, os ladrões, os opressores, e a sua corte. Só os homens de bem merecem consideração. Só as ideias justas merecem ser defendidas. Há que perder esta ideia falsa de que ser simpático e agradável com o interlocutor é uma obrigação da boa educação. Muita gente merece ouvir regularmente um bom insulto (mas que crítica não é um “insulto”, para as puras donzelas da praça pública actual?). “Canalha”, “bandido”, “ladrão”, “mentiroso”, “parasita”, e outros qualificativos desagradáveis aplicam-se perfeitamente a muito “boa” gente. Perante certa gente, não há obrigação nenhuma de se abster de tais termos, pois estes qualificativos, por “insultuosos” e desagradáveis que sejam, são frequentemente merecidos e descrevem apropriadamente muitos dos indivíduos da praça pública. Pode-se e deve-se ser cordial em discussões anódinas sobre arquitectura ou moda, por exemplo; mas quando se trata de política, de ética, quando se está perante pessoas manifestamente desonestas e imorais, é preciso partir para a luta.

Principalmente, é preciso mostrar ao público em geral que os seus “líderes”, “representantes” e“defensores” têm interesses bem pouco nobres, completamente térreos e materiais, que os levam a defender certas políticas nefastas e frequentemente traidoras. Não são motivados por uma pura e simples convicção ideológica, regra geral, nem por motivações desinteressadas. Em suma, é necessário desmascarar a classe parasita e os interesses baixos que estão por trás das declarações balofas.

Resumindo: crítica teórica seguida de desmistificação da estrutura de Poder. Argumentação seguida de ataque pessoal.

3. A vulgaridade, a ordinarice, a gritaria e outros espalhafates (que não devem ser confundidos com a dureza anteriormente referida, nem com o insulto) são de evitar, por uma simples questão de dignidade. Mas não só. Quem adopta esta regra consegue transmitir a sua mensagem a toda a gente, enquanto que o ordinário só consegue atraír, regra geral, a atenção da gente ordinária. Principalmente, no que compete aos liberais, é importante falar para as massas produtoras da sociedade, para acender nelas o espírito de revolta contra todos os parasitas que vivem à sua custa (políticos, funcionários públicos, estudantes, ideólogos do regime, reformados, chupistas da “segurança social” e dos bairros sociais, etc...). É preciso falar, em suma, para a classe média (quer seja popularucha, quer tenda para a elite). Ora a classe média tem, mais ou menos, valores burgueses – nomeadamente uma certa moderação na linguagem. Convém falar-lhe uma linguagem que consiga ouvir – sem no entanto cair no erro de diluir a mensagem. Pode-se ser radical sem ser vulgar.

Tudo o que pode ser dito por palavrões pode ser dito por palavras normais. E qualquer mudança social que não se consiga alcançar por um discurso normal não há de ser alcançada por se recorrer aos gritos ou à ordinarice. Convém lembrar-se disto quando a manifesta sujice dos seus compatriotas acordar no orador uma forte vontade de desatar aos berros e aos palavrões (e de lhes partir o focinho).

Além disso, comportamentos mais agressivos e ameaçadores não são apropriados quando se trata de criticar a opressão do estado. O facto fundamental da ordem social vigente, em tempos normais, é a capacidade do estado esmagar o indivíduo – imediatamente ou a curto prazo. Não o contrário. Por isso, em debates com agentes do estado, ou com seus apoiantes, não convém ameaçar fisicamente. É perigoso, e além disso é uma fanfarronada de que um homem decente se deve abster (a não ser que tenha uma milícia de dez mil homens às suas ordens, o que é improvável). Sem contar que vai contra os princípios liberais que se está a defender. A violência contra o estado, a existir, não se faz às claras, mas pelo contrário pelos métodos mafiosos da guerra clandestina. Não se faz contra palradores, mas contra os soldados do sistema (polícias, militares, guardas prisionais...). Convém manter uma certa distinção entre o insurgente e o intelectual/activista. Quem não tem meios para retaliar não faz ameaças vãs: cala-se e sofre em silêncio, ou contenta-se em criticar, quando é possível fazê-lo.

4.Vá-se para um debate pronto para aturar com paciência a má-vontade e a burrice dos restantes interlocutores, quanto mais quanto as opiniões que se vai defender forem de encontro ao status quo. A grande maioria das pessoas, em qualquer sociedade e em qualquer época, está emocionalmente, ideológicamente e materialmente atada ao status quo. Não se pense por isso que vão discutir calmamente as propostas dum radical, ou que vão refutá-las racionalmente. Os inimigos políticos do liberal vão para um debate para vencê-lo, não para convencê-lo nem refutá-lo.

5.Os entrevistadores e os moderadores são desagradáveis. Não são imparciais. Como toda a gente, têm os seus princípios políticos e as suas afiliações, o que condiciona fortemente a boa vontade que mostram relativamente a algum interlocutor, assim como as perguntas mais ou menos relevantes, mais ou menos mázinhas, que fazem. A maioria da classe jornalística é composta por adeptos do estado, variante progressista: em suma, inimigos dos liberais.

Principalmente, esteja-se à espera dum sem-fim de interrupções, pois é esta a forma que os fracos entrevistadores têm de pôr em dificuldade os seus interlocutores (e não fazer-lhes perguntas que os exponham como fraudes, parasitas, ou hipócritas, como seria de esperar).

6. Não se preocupar em demasia por não se conseguir expôr claramente os seus argumentos. No contexto habitual duma entrevista na TV ou na rádio não há, muito simplesmente, tempo para desenvolver calmamente um argumento, com todas as clarificações e qualificações necessárias, mesmo que o entrevistador ou os adversários sejam cavalheiros. O objectivo dum debate (pelo menos um debate curto) não é própriamente convencer. O objectivo principal é fazer-se publicidade. O objectivo é dizer: “Eu existo, e estou completamente oposto às balelas que se ouvem constantemente por aí”. O objectivo é levar o ouvinte a “investigar” mais uma questão, a interessar-se por um assunto ou por um partido, a envolver-se politicamente, a ler algum livro, a estudar algum assunto mais a fundo. O objectivo é, para o activista, chamar a si todos aqueles que silenciosamente, meio inconscientemente até, partilham a sua opinião, mas que estão dispersos e desmotivados: fazer-lhes ver que não estão sozinhos. O objectivo é soar o sino e chamar a aldeia para a batalha.

7. O debate não é com o entrevistador, nem com quem está do outro lado da mesa a debater, apesar das aparências em contrário. Estes só muito dificilmente se deixarão convencer, pela simples razão que querem manter a face, ou que têm interesses que seriam postos em perigo caso concedessem a veracidade das afirmações do adversário. Não se imagina facilmente o ministro do Interior a admitir em público que a polícia é uma máfia, por exemplo. Nem um reformado a admitir que o sistema de reformas é uma forma dos velhos parasitarem os jovens.

Principalmente, entenda-se que para haver mudança social radical a favor da liberdade, tem que se acordar as massas sugadas e humilhadas. Não se trata de agradar aos parasitas, nem de lhes pedir gentilmente, de chapéu na mão, que deixem de lado as suas práticas. A mudança social só ocorre com conflito e sofrimento, e para isso, as vítimas de algum sistema têm que se rebelar contra aqueles que o formam. Por isso, não haja grande desmotivação pelo facto dos interlocutores nunca admitirem que estão errados: não são eles que devem ser convencidos.

(Um pequeno parêntese: também é positivo que na classe parasita alguns fiquem abalados nas suas crenças. Quando os parasitas perdem a fé na legitimidade do seu poder, combatem menos convictamente a resistência das suas vítimas. Ocorre uma cisão no seio da elite predadora, cisão esta benéfica para a liberdade. Por isso, a “pregação” também se pode fazer para este grupo de pessoas. Mas há que não ter grandes ilusões sobre a possibilidade de convencê-las.)

8. Apesar de ser bom manter-se as boas maneiras, convém manter-se emocionalmente distante de toda a gente com quem se debate. Evite-se as amizades com gente imoral (socialistas, comunistas, corporatistas, monarquistas, democratas, militaristas, fascistas e outros estatistas/ladrões/parasitas/assassinos). É praticamente impossível criticar eficazmente – isto é, implacávelmente – pessoas por quem se tem um ponto fraco.

Tendo em conta que a maioria das pessoas, nos dias que correm, dá pouco ou nenhuma importância à liberdade, este imperativo implica que o activista/intelectual liberal tem que ter uma grande capacidade de sofrer a solidão sem fraquejar, e de criticar os seus compatriotas (mais do que qualquer outros grupos estrangeiros à sociedade em que se vive). A defesa de princípios firmes assim o exige. A boa vontade do activista perante a sociedade a que pertence não se deve manifestar por um amolecimento das suas críticas aos membros desta, mas pelo contrário por uma defesa clara de princípios justos e de ideias correctas, pois só estes podem levar ao bem moral e ao bem-estar material. Querer o bem para os seus passa por dizer mal deles – há que denunciar as suas fraquezas, a sua ignorância, e sobretudo a sua imoralidade. E apesar da imoralidade se concentrar mais particularmente nas elites parasitas, também não deixa de ser verdade que qualquer sistema político tem o apoio tácito duma larga parte das massas que domina.

9. É preciso exprimir sem vergonha as suas opiniões. É fundamental não ter medo de defender sem concessões os seus princípios. O trabalho do liberal e de qualquer radical em geral passa por inserir no debate ideias anteriormente desconhecidas, blasfemas, e completamente alheias ou inaceitáveis para a opinião pública. O objectivo do radical é “esticar” os extremos do debate, fazendo saír os ideólogos do regime do seu conforto habitual.

Há que estar preparado para ser ridiculizado, insultado, ignorado, e atacado com má-fé.

E há que estar disposto a repetir incansávelmente, ano após ano, quase mecânicamente, os mesmos argumentos, as mesmas ideias. Só assim se consegue vencer a repulsa irracional (no sentido de não estar baseada num raciocínio consciente, mas antes emocional) que qualquer ideia nova cria à opinião pública. Só pela repetição é que certas ideias anteriormente consideradas como absurdas se podem fixar na opinião pública, e passarem pelo menos a serem amplamente discutidas (o primeiro passo para virem a ser aceites). Para vencer o ardor emotivo das ideias fixas, é preciso repetir de forma perseverante ideias contraditórias. Há que pôr o “disco” a tocar incessantemente. Militantismo de longo prazo.

B. Manhas do Adversário

Os adversários, ao longo do debate, usam e abusam de manhas. É preciso conhecê-las, e saber como defender-se delas. Por vezes, esta má-fé é consciente e intencional. Muitas vezes, pelo contrário, é simplesmente uma forma espontânea que o adversário tem de se defender, quando posto entre a espada e a parede, por argumentos ou perguntas que o põem frente às suas incoerências ou imoralidades.

1. Antes de mais, há que discutir princípios políticos (o que as pessoas, e em particular os membros do estado, podem ou devem imperativamente fazer), economia, ciência e história. Há que manter-se completamente focalizado nestes assuntos. Sobretudo, há que não se deixar embalar em questões pessoais. Os adversários vão criticar, insultar e mentir. Vão difamar quem tem opiniões que os contradigam. Isto é simplesmente uma forma de fugir às questões.

O que disse ou fez de falso/mal quem está a defender uma ideia, no passado, é irrelevante quanto à validade desta ideia. A mensagem não depende do mensageiro.

A única medida a tomar, nestes casos, consiste simplesmente em denunciar o procedimento, em salientar o facto de que o adversário está a fugir às questões, e em recusar-se inflexivelmente a responder às críticas feitas. Feito isto, reafirme-se a ideia defendida, e melhor ainda, desenvolva-se a questão. Não é necessário sentir-se obrigado a responder a ataques pessoais. Use-se o tempo poupado desta forma para prosseguir na defesa das suas ideias. Não se assuma por sistema uma atitude defensiva, condicionado pelos outros. Pelo contrário, passe-se ao ataque, seguindo a sua própria linha de pensamento e de trabalho político.

Não se vai para um debate para falar de casos pessoais. Isto implica não só, como se viu, não responder a ataques pessoais. Implica também não responder a perguntas cordiais sobre assuntos privados. É muito fácil cair na tentação de falar de si mesmo. No melhor caso, dá-se a impressão de ser uma pessoa vã ou superficial, e perde-se uma ocasião de defender os seus princípios e as suas ideias. No pior dos casos, dá-se inadvertidamente informações pessoais que podem posteriormente vir a ser utilizadas contra si próprio. Deixe-se aos nossos inimigos o cuidado de nos atacarem.

Evite-se pronunciar a palavra “eu”. Mantenha-se um discurso duro, racional, abstracto e virado para fora.

Finalmente, também não se fale de casos “internos” às organizações a que se pertence (choques de personalidades, dissenções estratégicas, conflitos hierárquicos). Geralmente, observadores externos que se interessem por estes assuntos não têm propriamente boa vontade para com a organização em questão. Frequentemente, utilizam estes conhecimentos para enfraquecerem a dita organização. E mesmo que tenham boa vontade, casos internos não interessam para o que conta mesmo: discussões substanciais sobre temas políticos/económicos/históricos/científicos. Não se acredite nas tretas da “transparência”. Ninguém tem obrigação de desvendar os seus segredos; quem estiver interessado que os descubra pelos seus próprios meios. O segredo fortalece quem o mantém. Não há por isso mal nenhum em não responder a perguntas sobre problemas internos, nem há vergonha em não desvendar a estratégia que a organização vai seguir.

A melhor opção consiste em limpar a roupa suja em família, e em fazer frente unida contra os inimigos externos da organização (por outro lado, também não se deve defender incondicionalmente uma organização qualquer, em detrimento da justiça, só por se pertencer a esta).

2. É muito importante estar concentrado naquilo que se diz e saber onde se quer chegar. Não se vá para um debate público como quem vai para uma conversa de café. De facto, se este estado de espírito não estiver presente, as inúmeras interrupções do adversário levam a que se perca o fio à meada, ou a que se cometa erros (por exemplo, dizer imoralidades ou falsidades nas quais não se acredita, por despeito ou irritação mais do que por convicção).

Quando o adversário interrompe, voltar ao discurso, no ponto onde se tinha parado. Nunca se responda a perguntas-sarcasmos-interrupções do adversário – sem excepções – pois é assim que se perde a sequência dos argumentos. Quem dá seguimento às interrupções do adversário, em vez de continuar o seu discurso onde o tinha deixado, acaba rapidamente por perder a coerência e a estrutura do seu discurso, e por ser levado para onde não queria ir.

3. Não se interrompa o adversário quando é a vez dele falar. Esteja-se contudo pronto a ser interrompido constantemente, e a ter que batalhar para simplesmente poder expôr as suas ideias. Mantenha-se a todo o custo a calma e a boa educação. Pode-se e deve-se falar hostilmente/criticamente contra um adversário mal-educado e imoral, mas convém não entrar na competição dos gritos e de quem fala mais alto. Uma atitude educada, mesmo que firme, granjeia a simpatia dos ouvintes (não-debatentes) e torna-os mais receptivos à mensagem promovida. Põe em evidência a arrogância, as interrupções, a prepotência e a má educação do adversário. Como, no caso dos liberais, se pretende desmistificar a classe parasita assim como a sua corte, este fenómeno é perfeitamente positivo. O público fica a ver claramente que o adversário do liberal, não obstante as teorias que “embalam” as suas práticas políticas numa falsa legitimidade, é um indivíduo dominador e agressivo. É isto mesmo que se pretende: mostrar às pessoas que o estado é uma instituição agressiva, composta de indivíduos predadores. Desta forma, vira-se o feitiço contra o feiticeiro.

4. Pode-se utilisar o sarcasmo e a ironia, principalmente para rebaixar o ego dum adversário muito desagradável, ridicularizando-o perante a plateia. Mas há que ter cuidado com este método. Só é eficaz quando os ouvintes partilham certos valores com quem o utiliza.

Quando se utiliza o sarcasmo, encadeie-se imediatamente no seguimento da desestabilização sofrida pelo adversário. Não se lhe dê o tempo de se recompôr.

Contudo, é de evitar fazer perguntas retóricas quando é a sua vez de falar, porque o adversário vai aproveitá-las para interromper e responder-lhes, cortando a palavra a quem as fez. E é de abster-se completamente de entrar numa “luta de perguntas” ou de ataques pessoais em que os adversários se interpelam por perguntas e críticas sucessivas (pense-se nos políticos em altura de campanha a trocarem acusações sobre políticas passadas), perdendo tempo que podia ser utilizado para falar de questões substanciais. Os ouvintes fogem de combates de galos.

5. É bom estar a par da lista de manhas compilada pelo filósofo Arthur Schopenhauer: "38 Ways To Win An Argument". Não para usá-las (são desonestas e não procuram defender a verdade), mas antes para discerni-las quando o adversário as usa em seu proveito próprio.

Quando isto acontece, é bom referi-lo, no próprio debate, para mostrar aos ouvintes a má-fé ou a irrelevância daquilo que diz o adversário.

6. Desconfie-se dos jornalistas e dos entrevistadores. São frequentemente uns sacanas desonestos. E mesmo quando não o são, têm sempre a sua própria ideologia, o que vai transparecer nas perguntas que fazem, e no retrato que fazem da pessoa que entrevistam.

Isto tem particular importância quando as entrevistas não são feitas em directo, ou quando são feitas no contexto de alguma reportagem difundida posteriormente. Aí, o que acontece geralmente, é que o entrevistador faz cortes nefastos para a mensagem ou para o entrevistado. Estes cortes tanto podem advir duma certa antipatia do realizador, como de constrangimentos temporais. Mas ocorrem.

Estas manipulações editoriais cortam alguma mensagem a meio, pondo em evidência as conclusões mais polémicas, não permitindo ao entrevistado mostrar claramente o seu pensamento. Tendem a eliminar qualificações e precauções que o entrevistado possa ter dado. Tendem a tirar o seu discurso do seu contexto. Geralmente, são utilizadas por entrevistadores hostis para dar uma má imagem do indivíduo que se exprime. E até podem ser acompanhadas de outras manipulações, como por exemplo uma música de fundo tenebrosa, ou um ângulo de filmagem/iluminação negativo para o entrevistado.

Um antídoto parcial para esses problemas passa por fazer sempre uma registo paralelo, próprio, da entrevista realizada. O registo desta entrevista é guardado pelo próprio entrevistado. Pode assim, posteriormente, ser publicado (o que é facílimo, nestes tempos de Internet). Pode inclusivamente ser publicado em paralelo com a versão editada do entrevistador. Se este tiver feito cortes negativos ou até desonestos, perderá desta forma a credibilidade que tinha, pois estes cortes tornar-se-ão manifestos ao público.

7. O adversário ou o entrevistador podem tentar usar o método socrático. O método socrático consiste num diálogo entre um discípulo e o seu mentor. Este último faz uma série de perguntas à sua “cobaia”, estando as sucessivas perguntas apoiadas naquilo que responde o discípulo. O objectivo do mentor é ajudar o seu discípulo a “parir” - segundo consta, o filósofo Sócrates qualificava-se a ele próprio de “parteiro” - uma conclusão que ele já tem em si próprio, implícita nalgumas opiniões que mantém. O mentor não faz afirmações peremptórias. Pelo contrário, parte dos pressupostos do discípulo, e leva este a tirar ele próprio as conclusões onde o seu mentor quer que ele chegue.

Este método é positivo quando há honestidade e boa vontade de parte a parte. Mesmo aí, existe o risco do mentor estar ele próprio enganado, desviando assim o seu discípulo para falsas conclusões. E também há a possibilidade do discípulo ser incapaz de tirar as conclusões que se impõem, por uma questão emotiva (ou por incapacidade em raciocinar logicamente).

No entanto, não se espere de todo boa vontade dum adversário num qualquer debate polémico. Aí, o “mentor” - ninguém lhe dá esta autoridade, incidentemente... - vai tentar levar o seu “discípulo” a tirar conclusões que não seguem logicamente das suas premissas. Vai pressioná-lo, fazendo-lhe perder a calma e possivelmente levando-o a dizer coisas que não quer dizer. Vai basear-se em premissas implícitas falsas.

Por isso, a única atitude a tomar é não entrar no jogo do método socrático. Se o adversário acha que há alguma incoerência nas ideias que lhe apresentam, ou se acha que estas levam a conclusões inaceitáveis e imorais, que o diga ele próprio. Não há obrigação de sabotar os seus próprios argumentos.

Se o adversário começa a fazer muitas perguntas seguidas, tentando iniciar uma “sessão” socrática, faça-se uma contra-pergunta, em que se lhe pede onde ele quer chegar com as suas perguntas. Isto força-o a argumentar, e por vezes a desvendar as suas premissas implícitas. Assim sendo, ele abre a guarda, o que o torna mais vulnerável a um contra-ataque.

Alternativamente, outra forma de se defender de “perguntas com objectivo” passa por não responder com respostas curtas do género “Sim/Não”. Pelo contrário, é preciso desenvolver, fazer qualificações, e até antecipar possíveis objecções. Isto evita que o adversário encadeie imediatamente por outra pergunte, ou que tire desta resposta uma conclusão que a lógica não impõe.

C. Debate e Atitude Física


1. Não adoptar uma atitude física ameaçadora com pessoas fracas com quem se debate (mulheres, pessoas pequenas ou de pouca força), mesmo que sejam pessoas pouco recomendáveis. Além da simples imoralidade da coisa, não se deve recorrer a este procedimento porque fomenta a hostilidade dos ouvintes por quem o pratica. Assim sendo, mesmo que se tenha uma boa mensagem, não é interiorizada pelos ouvintes, por sentirem repulsa pelos modos de quem a difunde.

Os fracos também têm a sua força, subtil.

2. Só há uma ocasião em que pode ser adequado levantar o tom, e tomar uma atitude agressiva: quando o adversário se torna ele próprio ameaçador e violento. Nestas circunstâncias, gritar, levantar a voz, bater com o punho na mesa, pode ser a única coisa a fazer para dissuadir o adversário de atacar; levá-lo a ganhar medo e a acalmar-se. Também pode levá-lo a atacar quando anteriormente simplesmente exibia uma atitude bombástica – pelo que há que ser prudente com as escaladas verbais.

3. Ir sempe para um debate pronto para a luta (inclusivamente, contra vários adversários). Não se tenha ilusões nenhumas sobre a tolerância dos adversários. Estes reagem muito mal a ideias que contradizem as suas crenças profundas, e estão dispostos a agredir quem assumir tal tarefa.

Por isso, convém ter algum objecto à mão, para partir a cabeça do adversário em caso de necessidade (por exemplo, um copo de água, ou uma cadeira bem rija). E é importante ter amigos na plateia dispostos a tomar partido num momento de aperto, no caso dos debates públicos.



Conclusão

Não perder a cabeça. Guardar a calma e a lucidez a todo o custo. Se tiver que se rachar alguma cabeça, que o seja com controlo, de forma decidida e assumida – não de forma improvisada e impulsiva.

Não ter pressas. A mudança social é um trabalho de longo prazo, e exige sacrifícios (aturar parasitas mal-educados e arrogantes, nomeadamente).

Finalmente, saiba-se que só se pode aproximar a perfeição pelo exercício repetido. A arte do debate não difere nesse ponto de qualquer outra actividade. Só depois de muitos debates se atingirá um bom nível. Que os erros e o mau-jeito dos principiantes não sejam motivo para desencorajamento.

Dito isto, vá-se com uma certa alegria para a peixeirada do debate. Afinal de contas, este permite trazer amigos à causa, e ofender os parasitas imorais.

Viva a Liberdade!