terça-feira, 8 de junho de 2010

Bloqueios E Proteccionismo

Segundo os seus defensores, o proteccionismo comercial (restrições às importações de bens e serviços) cria bem-estar e prosperidade, protegendo as indústrias dum país. Seguindo esta ideia, tem que se considerar a faixa de Gaza, actualmente sob um severo bloqueio imposto pelos militares israëlitas, como um país super-protegido, em desenvolvimento rápido. E incidentemente, os habitantes de Gaza têm a obrigação moral de se sentir gratos para com Israël, que lhes impõe um cerco. Afinal de contas, os militares de Israël estão simplesmente a levar os princípios proteccionistas até às suas ùltimas consequências: o fecho das fronteiras a qualquer tipo de comércio (os mísseis, quanto a eles, estão isentos). Desta forma, os habitantes de Gaza até poupam nos impostos que seriam necessários para financiar os agentes das alfândegas, caso decidissem eles próprios criar um sistema de restrição ao comércio.

O facto dos proteccionistas nunca assumirem que a sua política não é fundamentalmente diferente dum cerco, apesar das óbvias semelhanças, mostra bem que não estão a defender a população em geral do "exterior", mas antes certos grupos económicos dentro do país, à custa dos consumidores desse mesmo país. Estão simplesmente, em suma, a conceder restrições monopolísticas a certos indivíduos.

Dito isto, e tendo em conta que toda a gente entende mais ou menos claramente que o proteccionismo tem consequências nefastas para determinados grupos duma população qualquer "protegida", resta tentar perceber dois factos salientes da última semana.

Primeiro, é curioso que a Esquerda, que se opõe assumidamente ao mercado livre e ao comércio internacional, tenha condenado vehementemente o ataque das tropas israëlitas a uma frota de barcos que esta semana tentou furar o bloqueio de Gaza. Afinal de contas, os israëlitas estavam simplesmente a "proteger" Gaza da concorrência internacional.

Segundo, é curioso que a Direita, e principalmente a Direita liberal, tenha em grande parte tratado com desprezo os activistas massacrados pelas tropas de Israël. Afinal de contas, ao tentar entregar contrabando a Gaza estavam simplesmente a furar um bloqueio (quer fossem esquerdistas radicais, islâmicos fanáticos, mercenários do Irão, ou progressistas versão tótó-light, nada importa quanto à natureza do seu acto). Ou seja, estavam a praticar o tal comércio internacional que os adeptos do comércio livre defendem.

Vá-se lá saber perceber estas cabeças ocas!