segunda-feira, 7 de junho de 2010

Debater Pela Liberdade

Introdução

Defender as suas ideias políticas passa por participar em fóruns de discussão. Estes raramente apresentam as condições ideais para a difusão de ideias claras. Convem por isso estar atento para os problemas que podem surgir, assim como estar ciente da melhor maneira de gerir estas situações.

A. Factos Principais, Estratégia Global.

1. Em debates públicos nos meios de comunicação, o tempo disponível é muito limitado. Além disso, as interrupções (muitas delas irrelevantes, desonestas, irracionais) são muito frequentes, o que dificulta a disseminação de ideias. Perante esta constatação, o que conta é ir directamente ao essencial da questão em discussão. Começa-se por dar a conclusão a que se quer chegar, e só depois se dá o raciocínio que leva a tal conclusão. Infelizmente, não há propriamente tempo para desenvolver longamente questões, e refutar objecções possíveis. Por isso, começa-se pelo “slógan”, pela frase feita, e só depois se dá argumentos. Questões anexas, paralelas, são deixadas para uma fase posterior, caso haja possibilidade de desenvolvê-las.

Há que ter o cuidado de não se perder em “dissertações”, perdendo o fio à meada, e acabando por não concluir o discurso. Há que fazer frases curtas, simples, concisas. O discurso falado não se adequa a tantas qualificações como o escrito. É importante não desenvolver temas paralelos sem antes ter chegado à sua conclusão principal.

Convém para ter um discurso claro ir minimamente preparado para o tema a debater, sabendo as linhas gerais daquilo que se vai defender. De outra forma, o comentador arrisca-se a “deliberar” ou “pensar” em voz alta, perdendo a acutilância do seu discurso.

2. É preciso começar por fazer uma crítica abstracta – ética, pragmática, económica, política – das ideias e princípios falsos do adversário (ou simplesmente das ideias em discussão, mesmo que não estejam associadas directamente a uma pessoa particular). O mais importante de tudo é levar as pessoas a perceber a nefastidade duma política qualquer. A crítica teórica é essencial, pois sem uma mudança ideológica não pode haver mudança social. Se esta mudança não ocorrer, as pessoas toleram as maiores injustiças. No caso de discussões políticas, é mais importante discutir uma política em si, do que questões segundárias (perguntas como: quem vai ganhar as eleições? qual é o candidato que tem mais probabilidades de ganhar? qual é o candidato que teve o melhor desempenho no debate televisivo? o que é que tal ou tal candidato disse ou fez no passado? será que é fiel à sua mulher? quem tinha a gravata mais bonita? etc...).

Mas isto não basta. A crítica de determinada política é necessária, mas é só o primeiro passo para a fase seguinte. Posteriormente, é preciso ser conflituoso, desagradável, e “concreto”. Isto passa por fazer ataques pessoais – pelo menos em questões de princípios (e também em questões factuais, quando o adversário diz falsidades para servir uma agenda qualquer imoral). É preciso desmascarar a imoralidade daqueles que defendem ideias injustas. É preciso apontar o dedo. É preciso fazer sofrer os ideólogos imorais, desmistificando-o, tratando-os sem qualquer veneração, criticando-os, gozando-os, ostracisando-os, tirando-os do seu conforto e da sua posição social proeminente. O objectivo é levá-los a pensar duas vezes, da próxima vez que quiserem promover nojices. A discussão não serve só para convencer – também para vencer.

O debate também é uma luta, um conflito, cujo objectivo é levar o adversário a retrair-se e a abandonar certos comportamentos (no caso dos liberais, o seu objectivo é calar, sem recurso à violência, os intervencionistas, e levá-los a abandonarem o poder, ou pelo menos a conterem-se no seu uso). Não há vergonha nenhuma em ser duro com os canalhas, os mentirosos, os cínicos, os hipócritas, os poderosos, os ladrões, os opressores, e a sua corte. Só os homens de bem merecem consideração. Só as ideias justas merecem ser defendidas. Há que perder esta ideia falsa de que ser simpático e agradável com o interlocutor é uma obrigação da boa educação. Muita gente merece ouvir regularmente um bom insulto (mas que crítica não é um “insulto”, para as puras donzelas da praça pública actual?). “Canalha”, “bandido”, “ladrão”, “mentiroso”, “parasita”, e outros qualificativos desagradáveis aplicam-se perfeitamente a muito “boa” gente. Perante certa gente, não há obrigação nenhuma de se abster de tais termos, pois estes qualificativos, por “insultuosos” e desagradáveis que sejam, são frequentemente merecidos e descrevem apropriadamente muitos dos indivíduos da praça pública. Pode-se e deve-se ser cordial em discussões anódinas sobre arquitectura ou moda, por exemplo; mas quando se trata de política, de ética, quando se está perante pessoas manifestamente desonestas e imorais, é preciso partir para a luta.

Principalmente, é preciso mostrar ao público em geral que os seus “líderes”, “representantes” e“defensores” têm interesses bem pouco nobres, completamente térreos e materiais, que os levam a defender certas políticas nefastas e frequentemente traidoras. Não são motivados por uma pura e simples convicção ideológica, regra geral, nem por motivações desinteressadas. Em suma, é necessário desmascarar a classe parasita e os interesses baixos que estão por trás das declarações balofas.

Resumindo: crítica teórica seguida de desmistificação da estrutura de Poder. Argumentação seguida de ataque pessoal.

3. A vulgaridade, a ordinarice, a gritaria e outros espalhafates (que não devem ser confundidos com a dureza anteriormente referida, nem com o insulto) são de evitar, por uma simples questão de dignidade. Mas não só. Quem adopta esta regra consegue transmitir a sua mensagem a toda a gente, enquanto que o ordinário só consegue atraír, regra geral, a atenção da gente ordinária. Principalmente, no que compete aos liberais, é importante falar para as massas produtoras da sociedade, para acender nelas o espírito de revolta contra todos os parasitas que vivem à sua custa (políticos, funcionários públicos, estudantes, ideólogos do regime, reformados, chupistas da “segurança social” e dos bairros sociais, etc...). É preciso falar, em suma, para a classe média (quer seja popularucha, quer tenda para a elite). Ora a classe média tem, mais ou menos, valores burgueses – nomeadamente uma certa moderação na linguagem. Convém falar-lhe uma linguagem que consiga ouvir – sem no entanto cair no erro de diluir a mensagem. Pode-se ser radical sem ser vulgar.

Tudo o que pode ser dito por palavrões pode ser dito por palavras normais. E qualquer mudança social que não se consiga alcançar por um discurso normal não há de ser alcançada por se recorrer aos gritos ou à ordinarice. Convém lembrar-se disto quando a manifesta sujice dos seus compatriotas acordar no orador uma forte vontade de desatar aos berros e aos palavrões (e de lhes partir o focinho).

Além disso, comportamentos mais agressivos e ameaçadores não são apropriados quando se trata de criticar a opressão do estado. O facto fundamental da ordem social vigente, em tempos normais, é a capacidade do estado esmagar o indivíduo – imediatamente ou a curto prazo. Não o contrário. Por isso, em debates com agentes do estado, ou com seus apoiantes, não convém ameaçar fisicamente. É perigoso, e além disso é uma fanfarronada de que um homem decente se deve abster (a não ser que tenha uma milícia de dez mil homens às suas ordens, o que é improvável). Sem contar que vai contra os princípios liberais que se está a defender. A violência contra o estado, a existir, não se faz às claras, mas pelo contrário pelos métodos mafiosos da guerra clandestina. Não se faz contra palradores, mas contra os soldados do sistema (polícias, militares, guardas prisionais...). Convém manter uma certa distinção entre o insurgente e o intelectual/activista. Quem não tem meios para retaliar não faz ameaças vãs: cala-se e sofre em silêncio, ou contenta-se em criticar, quando é possível fazê-lo.

4.Vá-se para um debate pronto para aturar com paciência a má-vontade e a burrice dos restantes interlocutores, quanto mais quanto as opiniões que se vai defender forem de encontro ao status quo. A grande maioria das pessoas, em qualquer sociedade e em qualquer época, está emocionalmente, ideológicamente e materialmente atada ao status quo. Não se pense por isso que vão discutir calmamente as propostas dum radical, ou que vão refutá-las racionalmente. Os inimigos políticos do liberal vão para um debate para vencê-lo, não para convencê-lo nem refutá-lo.

5.Os entrevistadores e os moderadores são desagradáveis. Não são imparciais. Como toda a gente, têm os seus princípios políticos e as suas afiliações, o que condiciona fortemente a boa vontade que mostram relativamente a algum interlocutor, assim como as perguntas mais ou menos relevantes, mais ou menos mázinhas, que fazem. A maioria da classe jornalística é composta por adeptos do estado, variante progressista: em suma, inimigos dos liberais.

Principalmente, esteja-se à espera dum sem-fim de interrupções, pois é esta a forma que os fracos entrevistadores têm de pôr em dificuldade os seus interlocutores (e não fazer-lhes perguntas que os exponham como fraudes, parasitas, ou hipócritas, como seria de esperar).

6. Não se preocupar em demasia por não se conseguir expôr claramente os seus argumentos. No contexto habitual duma entrevista na TV ou na rádio não há, muito simplesmente, tempo para desenvolver calmamente um argumento, com todas as clarificações e qualificações necessárias, mesmo que o entrevistador ou os adversários sejam cavalheiros. O objectivo dum debate (pelo menos um debate curto) não é própriamente convencer. O objectivo principal é fazer-se publicidade. O objectivo é dizer: “Eu existo, e estou completamente oposto às balelas que se ouvem constantemente por aí”. O objectivo é levar o ouvinte a “investigar” mais uma questão, a interessar-se por um assunto ou por um partido, a envolver-se politicamente, a ler algum livro, a estudar algum assunto mais a fundo. O objectivo é, para o activista, chamar a si todos aqueles que silenciosamente, meio inconscientemente até, partilham a sua opinião, mas que estão dispersos e desmotivados: fazer-lhes ver que não estão sozinhos. O objectivo é soar o sino e chamar a aldeia para a batalha.

7. O debate não é com o entrevistador, nem com quem está do outro lado da mesa a debater, apesar das aparências em contrário. Estes só muito dificilmente se deixarão convencer, pela simples razão que querem manter a face, ou que têm interesses que seriam postos em perigo caso concedessem a veracidade das afirmações do adversário. Não se imagina facilmente o ministro do Interior a admitir em público que a polícia é uma máfia, por exemplo. Nem um reformado a admitir que o sistema de reformas é uma forma dos velhos parasitarem os jovens.

Principalmente, entenda-se que para haver mudança social radical a favor da liberdade, tem que se acordar as massas sugadas e humilhadas. Não se trata de agradar aos parasitas, nem de lhes pedir gentilmente, de chapéu na mão, que deixem de lado as suas práticas. A mudança social só ocorre com conflito e sofrimento, e para isso, as vítimas de algum sistema têm que se rebelar contra aqueles que o formam. Por isso, não haja grande desmotivação pelo facto dos interlocutores nunca admitirem que estão errados: não são eles que devem ser convencidos.

(Um pequeno parêntese: também é positivo que na classe parasita alguns fiquem abalados nas suas crenças. Quando os parasitas perdem a fé na legitimidade do seu poder, combatem menos convictamente a resistência das suas vítimas. Ocorre uma cisão no seio da elite predadora, cisão esta benéfica para a liberdade. Por isso, a “pregação” também se pode fazer para este grupo de pessoas. Mas há que não ter grandes ilusões sobre a possibilidade de convencê-las.)

8. Apesar de ser bom manter-se as boas maneiras, convém manter-se emocionalmente distante de toda a gente com quem se debate. Evite-se as amizades com gente imoral (socialistas, comunistas, corporatistas, monarquistas, democratas, militaristas, fascistas e outros estatistas/ladrões/parasitas/assassinos). É praticamente impossível criticar eficazmente – isto é, implacávelmente – pessoas por quem se tem um ponto fraco.

Tendo em conta que a maioria das pessoas, nos dias que correm, dá pouco ou nenhuma importância à liberdade, este imperativo implica que o activista/intelectual liberal tem que ter uma grande capacidade de sofrer a solidão sem fraquejar, e de criticar os seus compatriotas (mais do que qualquer outros grupos estrangeiros à sociedade em que se vive). A defesa de princípios firmes assim o exige. A boa vontade do activista perante a sociedade a que pertence não se deve manifestar por um amolecimento das suas críticas aos membros desta, mas pelo contrário por uma defesa clara de princípios justos e de ideias correctas, pois só estes podem levar ao bem moral e ao bem-estar material. Querer o bem para os seus passa por dizer mal deles – há que denunciar as suas fraquezas, a sua ignorância, e sobretudo a sua imoralidade. E apesar da imoralidade se concentrar mais particularmente nas elites parasitas, também não deixa de ser verdade que qualquer sistema político tem o apoio tácito duma larga parte das massas que domina.

9. É preciso exprimir sem vergonha as suas opiniões. É fundamental não ter medo de defender sem concessões os seus princípios. O trabalho do liberal e de qualquer radical em geral passa por inserir no debate ideias anteriormente desconhecidas, blasfemas, e completamente alheias ou inaceitáveis para a opinião pública. O objectivo do radical é “esticar” os extremos do debate, fazendo saír os ideólogos do regime do seu conforto habitual.

Há que estar preparado para ser ridiculizado, insultado, ignorado, e atacado com má-fé.

E há que estar disposto a repetir incansávelmente, ano após ano, quase mecânicamente, os mesmos argumentos, as mesmas ideias. Só assim se consegue vencer a repulsa irracional (no sentido de não estar baseada num raciocínio consciente, mas antes emocional) que qualquer ideia nova cria à opinião pública. Só pela repetição é que certas ideias anteriormente consideradas como absurdas se podem fixar na opinião pública, e passarem pelo menos a serem amplamente discutidas (o primeiro passo para virem a ser aceites). Para vencer o ardor emotivo das ideias fixas, é preciso repetir de forma perseverante ideias contraditórias. Há que pôr o “disco” a tocar incessantemente. Militantismo de longo prazo.

B. Manhas do Adversário

Os adversários, ao longo do debate, usam e abusam de manhas. É preciso conhecê-las, e saber como defender-se delas. Por vezes, esta má-fé é consciente e intencional. Muitas vezes, pelo contrário, é simplesmente uma forma espontânea que o adversário tem de se defender, quando posto entre a espada e a parede, por argumentos ou perguntas que o põem frente às suas incoerências ou imoralidades.

1. Antes de mais, há que discutir princípios políticos (o que as pessoas, e em particular os membros do estado, podem ou devem imperativamente fazer), economia, ciência e história. Há que manter-se completamente focalizado nestes assuntos. Sobretudo, há que não se deixar embalar em questões pessoais. Os adversários vão criticar, insultar e mentir. Vão difamar quem tem opiniões que os contradigam. Isto é simplesmente uma forma de fugir às questões.

O que disse ou fez de falso/mal quem está a defender uma ideia, no passado, é irrelevante quanto à validade desta ideia. A mensagem não depende do mensageiro.

A única medida a tomar, nestes casos, consiste simplesmente em denunciar o procedimento, em salientar o facto de que o adversário está a fugir às questões, e em recusar-se inflexivelmente a responder às críticas feitas. Feito isto, reafirme-se a ideia defendida, e melhor ainda, desenvolva-se a questão. Não é necessário sentir-se obrigado a responder a ataques pessoais. Use-se o tempo poupado desta forma para prosseguir na defesa das suas ideias. Não se assuma por sistema uma atitude defensiva, condicionado pelos outros. Pelo contrário, passe-se ao ataque, seguindo a sua própria linha de pensamento e de trabalho político.

Não se vai para um debate para falar de casos pessoais. Isto implica não só, como se viu, não responder a ataques pessoais. Implica também não responder a perguntas cordiais sobre assuntos privados. É muito fácil cair na tentação de falar de si mesmo. No melhor caso, dá-se a impressão de ser uma pessoa vã ou superficial, e perde-se uma ocasião de defender os seus princípios e as suas ideias. No pior dos casos, dá-se inadvertidamente informações pessoais que podem posteriormente vir a ser utilizadas contra si próprio. Deixe-se aos nossos inimigos o cuidado de nos atacarem.

Evite-se pronunciar a palavra “eu”. Mantenha-se um discurso duro, racional, abstracto e virado para fora.

Finalmente, também não se fale de casos “internos” às organizações a que se pertence (choques de personalidades, dissenções estratégicas, conflitos hierárquicos). Geralmente, observadores externos que se interessem por estes assuntos não têm propriamente boa vontade para com a organização em questão. Frequentemente, utilizam estes conhecimentos para enfraquecerem a dita organização. E mesmo que tenham boa vontade, casos internos não interessam para o que conta mesmo: discussões substanciais sobre temas políticos/económicos/históricos/científicos. Não se acredite nas tretas da “transparência”. Ninguém tem obrigação de desvendar os seus segredos; quem estiver interessado que os descubra pelos seus próprios meios. O segredo fortalece quem o mantém. Não há por isso mal nenhum em não responder a perguntas sobre problemas internos, nem há vergonha em não desvendar a estratégia que a organização vai seguir.

A melhor opção consiste em limpar a roupa suja em família, e em fazer frente unida contra os inimigos externos da organização (por outro lado, também não se deve defender incondicionalmente uma organização qualquer, em detrimento da justiça, só por se pertencer a esta).

2. É muito importante estar concentrado naquilo que se diz e saber onde se quer chegar. Não se vá para um debate público como quem vai para uma conversa de café. De facto, se este estado de espírito não estiver presente, as inúmeras interrupções do adversário levam a que se perca o fio à meada, ou a que se cometa erros (por exemplo, dizer imoralidades ou falsidades nas quais não se acredita, por despeito ou irritação mais do que por convicção).

Quando o adversário interrompe, voltar ao discurso, no ponto onde se tinha parado. Nunca se responda a perguntas-sarcasmos-interrupções do adversário – sem excepções – pois é assim que se perde a sequência dos argumentos. Quem dá seguimento às interrupções do adversário, em vez de continuar o seu discurso onde o tinha deixado, acaba rapidamente por perder a coerência e a estrutura do seu discurso, e por ser levado para onde não queria ir.

3. Não se interrompa o adversário quando é a vez dele falar. Esteja-se contudo pronto a ser interrompido constantemente, e a ter que batalhar para simplesmente poder expôr as suas ideias. Mantenha-se a todo o custo a calma e a boa educação. Pode-se e deve-se falar hostilmente/criticamente contra um adversário mal-educado e imoral, mas convém não entrar na competição dos gritos e de quem fala mais alto. Uma atitude educada, mesmo que firme, granjeia a simpatia dos ouvintes (não-debatentes) e torna-os mais receptivos à mensagem promovida. Põe em evidência a arrogância, as interrupções, a prepotência e a má educação do adversário. Como, no caso dos liberais, se pretende desmistificar a classe parasita assim como a sua corte, este fenómeno é perfeitamente positivo. O público fica a ver claramente que o adversário do liberal, não obstante as teorias que “embalam” as suas práticas políticas numa falsa legitimidade, é um indivíduo dominador e agressivo. É isto mesmo que se pretende: mostrar às pessoas que o estado é uma instituição agressiva, composta de indivíduos predadores. Desta forma, vira-se o feitiço contra o feiticeiro.

4. Pode-se utilisar o sarcasmo e a ironia, principalmente para rebaixar o ego dum adversário muito desagradável, ridicularizando-o perante a plateia. Mas há que ter cuidado com este método. Só é eficaz quando os ouvintes partilham certos valores com quem o utiliza.

Quando se utiliza o sarcasmo, encadeie-se imediatamente no seguimento da desestabilização sofrida pelo adversário. Não se lhe dê o tempo de se recompôr.

Contudo, é de evitar fazer perguntas retóricas quando é a sua vez de falar, porque o adversário vai aproveitá-las para interromper e responder-lhes, cortando a palavra a quem as fez. E é de abster-se completamente de entrar numa “luta de perguntas” ou de ataques pessoais em que os adversários se interpelam por perguntas e críticas sucessivas (pense-se nos políticos em altura de campanha a trocarem acusações sobre políticas passadas), perdendo tempo que podia ser utilizado para falar de questões substanciais. Os ouvintes fogem de combates de galos.

5. É bom estar a par da lista de manhas compilada pelo filósofo Arthur Schopenhauer: "38 Ways To Win An Argument". Não para usá-las (são desonestas e não procuram defender a verdade), mas antes para discerni-las quando o adversário as usa em seu proveito próprio.

Quando isto acontece, é bom referi-lo, no próprio debate, para mostrar aos ouvintes a má-fé ou a irrelevância daquilo que diz o adversário.

6. Desconfie-se dos jornalistas e dos entrevistadores. São frequentemente uns sacanas desonestos. E mesmo quando não o são, têm sempre a sua própria ideologia, o que vai transparecer nas perguntas que fazem, e no retrato que fazem da pessoa que entrevistam.

Isto tem particular importância quando as entrevistas não são feitas em directo, ou quando são feitas no contexto de alguma reportagem difundida posteriormente. Aí, o que acontece geralmente, é que o entrevistador faz cortes nefastos para a mensagem ou para o entrevistado. Estes cortes tanto podem advir duma certa antipatia do realizador, como de constrangimentos temporais. Mas ocorrem.

Estas manipulações editoriais cortam alguma mensagem a meio, pondo em evidência as conclusões mais polémicas, não permitindo ao entrevistado mostrar claramente o seu pensamento. Tendem a eliminar qualificações e precauções que o entrevistado possa ter dado. Tendem a tirar o seu discurso do seu contexto. Geralmente, são utilizadas por entrevistadores hostis para dar uma má imagem do indivíduo que se exprime. E até podem ser acompanhadas de outras manipulações, como por exemplo uma música de fundo tenebrosa, ou um ângulo de filmagem/iluminação negativo para o entrevistado.

Um antídoto parcial para esses problemas passa por fazer sempre uma registo paralelo, próprio, da entrevista realizada. O registo desta entrevista é guardado pelo próprio entrevistado. Pode assim, posteriormente, ser publicado (o que é facílimo, nestes tempos de Internet). Pode inclusivamente ser publicado em paralelo com a versão editada do entrevistador. Se este tiver feito cortes negativos ou até desonestos, perderá desta forma a credibilidade que tinha, pois estes cortes tornar-se-ão manifestos ao público.

7. O adversário ou o entrevistador podem tentar usar o método socrático. O método socrático consiste num diálogo entre um discípulo e o seu mentor. Este último faz uma série de perguntas à sua “cobaia”, estando as sucessivas perguntas apoiadas naquilo que responde o discípulo. O objectivo do mentor é ajudar o seu discípulo a “parir” - segundo consta, o filósofo Sócrates qualificava-se a ele próprio de “parteiro” - uma conclusão que ele já tem em si próprio, implícita nalgumas opiniões que mantém. O mentor não faz afirmações peremptórias. Pelo contrário, parte dos pressupostos do discípulo, e leva este a tirar ele próprio as conclusões onde o seu mentor quer que ele chegue.

Este método é positivo quando há honestidade e boa vontade de parte a parte. Mesmo aí, existe o risco do mentor estar ele próprio enganado, desviando assim o seu discípulo para falsas conclusões. E também há a possibilidade do discípulo ser incapaz de tirar as conclusões que se impõem, por uma questão emotiva (ou por incapacidade em raciocinar logicamente).

No entanto, não se espere de todo boa vontade dum adversário num qualquer debate polémico. Aí, o “mentor” - ninguém lhe dá esta autoridade, incidentemente... - vai tentar levar o seu “discípulo” a tirar conclusões que não seguem logicamente das suas premissas. Vai pressioná-lo, fazendo-lhe perder a calma e possivelmente levando-o a dizer coisas que não quer dizer. Vai basear-se em premissas implícitas falsas.

Por isso, a única atitude a tomar é não entrar no jogo do método socrático. Se o adversário acha que há alguma incoerência nas ideias que lhe apresentam, ou se acha que estas levam a conclusões inaceitáveis e imorais, que o diga ele próprio. Não há obrigação de sabotar os seus próprios argumentos.

Se o adversário começa a fazer muitas perguntas seguidas, tentando iniciar uma “sessão” socrática, faça-se uma contra-pergunta, em que se lhe pede onde ele quer chegar com as suas perguntas. Isto força-o a argumentar, e por vezes a desvendar as suas premissas implícitas. Assim sendo, ele abre a guarda, o que o torna mais vulnerável a um contra-ataque.

Alternativamente, outra forma de se defender de “perguntas com objectivo” passa por não responder com respostas curtas do género “Sim/Não”. Pelo contrário, é preciso desenvolver, fazer qualificações, e até antecipar possíveis objecções. Isto evita que o adversário encadeie imediatamente por outra pergunte, ou que tire desta resposta uma conclusão que a lógica não impõe.

C. Debate e Atitude Física


1. Não adoptar uma atitude física ameaçadora com pessoas fracas com quem se debate (mulheres, pessoas pequenas ou de pouca força), mesmo que sejam pessoas pouco recomendáveis. Além da simples imoralidade da coisa, não se deve recorrer a este procedimento porque fomenta a hostilidade dos ouvintes por quem o pratica. Assim sendo, mesmo que se tenha uma boa mensagem, não é interiorizada pelos ouvintes, por sentirem repulsa pelos modos de quem a difunde.

Os fracos também têm a sua força, subtil.

2. Só há uma ocasião em que pode ser adequado levantar o tom, e tomar uma atitude agressiva: quando o adversário se torna ele próprio ameaçador e violento. Nestas circunstâncias, gritar, levantar a voz, bater com o punho na mesa, pode ser a única coisa a fazer para dissuadir o adversário de atacar; levá-lo a ganhar medo e a acalmar-se. Também pode levá-lo a atacar quando anteriormente simplesmente exibia uma atitude bombástica – pelo que há que ser prudente com as escaladas verbais.

3. Ir sempe para um debate pronto para a luta (inclusivamente, contra vários adversários). Não se tenha ilusões nenhumas sobre a tolerância dos adversários. Estes reagem muito mal a ideias que contradizem as suas crenças profundas, e estão dispostos a agredir quem assumir tal tarefa.

Por isso, convém ter algum objecto à mão, para partir a cabeça do adversário em caso de necessidade (por exemplo, um copo de água, ou uma cadeira bem rija). E é importante ter amigos na plateia dispostos a tomar partido num momento de aperto, no caso dos debates públicos.



Conclusão

Não perder a cabeça. Guardar a calma e a lucidez a todo o custo. Se tiver que se rachar alguma cabeça, que o seja com controlo, de forma decidida e assumida – não de forma improvisada e impulsiva.

Não ter pressas. A mudança social é um trabalho de longo prazo, e exige sacrifícios (aturar parasitas mal-educados e arrogantes, nomeadamente).

Finalmente, saiba-se que só se pode aproximar a perfeição pelo exercício repetido. A arte do debate não difere nesse ponto de qualquer outra actividade. Só depois de muitos debates se atingirá um bom nível. Que os erros e o mau-jeito dos principiantes não sejam motivo para desencorajamento.

Dito isto, vá-se com uma certa alegria para a peixeirada do debate. Afinal de contas, este permite trazer amigos à causa, e ofender os parasitas imorais.

Viva a Liberdade!