segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Propaganda Anti-Iraniana


"Se não comes a tua sopa, o Ahmadinejad vem buscar-te."


Observa-se frequentemente, nos meios de comunicação ocidentais, propaganda anti-iraniana. Esta não diz o nome, mas existe, e veste-se de "imparcialidade" jornalística.

Um exemplo. O estado iraniano, ou o seu governo, são constantemente referidos como "regime". Do mesmo modo que se falaria de algo tenebroso, como o "regime do Salazar", ou o "regime soviético". Obviamente, o Irão tem um regime. Mas também o têm Portugal, ou o Estados Unidos. Mas poucos se lembram de falar do "regime de José Sócrates", ou do "regime Obama".

Outro exemplo. Quando os mídia ocidentais referem informações vindas do Irão, dão geralmente como proveniência a "televisão do estado". O objectivo é pôr na mente do leitor a ideia de que esta informação não é credível, e que só serve a agenda dos governantes daquele país (que financiam a tal televisão). É possível, e até provável. Mas não se pode deixar de apreciar pelo seu mérito a informação dada: ela não é necessariamente falsa. E não deixa de ser cómico ver jornalistas e pivôs ocidentais, trabalhando geralmente para meios de comunicação sob o controlo do estado (RTP, por exemplo), depreciarem a "televisão do estado" como dependente. Isto diz muito sobre a sua própria independência relativamente ao poder.

Finalmente, as notícias sobre o Irão são na sua maioria negativas. Além disso são recorrentes. Está-se perante uma campanha sistemática (os mídia não se concentram, vá-se-lá saber porquê, sobre a Papuásia-Nova-Guiné). A ouvi-las, parece que só há mal, negrume, opressão e sofrimento naquele país. Nada ou pouco que mereça ser elogiado.

Esta campanha tem origem, fundamentalmente, em dois grupos. Os progressistas, idiotas úteis de serviço, que se ofendem muito com a falta de liberdade dos maricas e das mulheres do Irão. São incapazes de ver, na sua maioria, a falta de liberdade que há aqui no Ocidente (aliás até apoiam muitos ataques à tal liberdade, em muitas áreas), e por isso procuram macaquinhos no nariz do Ahmadinejad ou do outro barbudo que manda nele. Os progressistas, na medida em que sejam sinceros, são os idiotas úteis - porque promovem uma má opinião do Irão na opinião pública ocidental, facilitando actos hostis dos governos ocidentais contra este país - daqueles que são o pilar desta campanha mediática contra o Irão: os neoconservadores americano-sionistas.

Estes querem literalmente subjugar o Irão, usando os meios dos estados americano e israelita. Na sua opinião, isto deve ser feito quer através de bombardeamentos e de guerra (a maneira "clássica"), quer pela subversão, fomentando golpes de estado, movimentos separatistas e rebeliões populares, com o intuito de passar a governar um "regime" mais dócil ao Ocidente. É um tandem entre as elites imperiais americanas e o lóbi israelita, muito influente em Washington. O objectivo deste casal é duplo. Consiste por um lado em manter e aumentar a hegemonia (parcial) dos americanos no mundo e nomeadamente no Médio-Oriente, e por outro lado em manter o monopólio nuclear dos israelitas (e logo a sua supremacia regional, assim como a sua impunidade). Todo este trabalho imperialista é coberto do manto da luta pela liberdade e pela dignidade...

Há que desconfiar enormemente de todas as notícias relativas ao Irão (e também, paralelamente, de comentários sobre a Venezuela, Cuba, Rússia, China, ou Gaza - o eixo do Mal alargado, por assim dizer). Geralmente, quem fala destes países tem uma agenda escondida, e é por isso incapaz de os observar objectivamente ou imparcialmente. Por exemplo, poucos seriam capazes de reconhecer que a China é em certas áreas económicas bem menos burocrática que muitos países ocidentais: ou seja, mais livre. Outros ainda não conseguiriam admitir que em discursos que toquem a judeus - negação da matança dos judeus na Segunda Guerra mundial, propósitos anti-semitas - o Irão é muito mais livre do que a França, o tal "país da Liberdade" (e mesmo que o admitissem, desqualificariam imediatamente tal facto como sendo irrelevante, ou até negativo...).

Não há dúvidas que estes países são governados por canalhas, e que não são livres em absoluto. Mas não se pense que é o amor à liberdade a principal motivação das críticas dos jornaleiros da praça ocidental. A razão pela qual estes países são criticados tão sistemáticamente é geralmente outra: demonstram uma certa independência, e até uma certa rivalidade, relativamente ao império americano. Países tão ou mais opressivos que não se oponham a Israel ou aos Estados-Unidos não sofrem campanhas destas (até podem ganhar uns subsídios...).

Os neocons não são simplesmente indiferentes à liberdade e ao direito à vida dos iranianos. São inimigos objectivos da liberdade dos próprios ocidentais. O seu programa de conquista do Médio-Oriente por via de sucessivas "libertações" só se pode fazer esmagando o Ocidente com impostos, serviço militar, défices e inflação, e alianças militares (NATO...) que comprometem populações inteiras sem que estas tenham dado o seu apoio para tal. Além disso, torna mais prováveis actos de retaliação terrorista, por parte de muçulmanos, sobre alvos ocidentais. Isto, por sua vez, leva a que as sociedades ocidentais se fechem e se tornem mais controleiras, ou seja, que percam a tal liberdade que o intervencionismo militar neocon pretende defender.

Os neocons são imorais e perigosos. Há que ter cuidado. Eles andam por .