segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Serviço Nacional De Alimentação

O estado trata-nos como ovelhas, desde pequenos. Quando lhe apetece, põe-nos aos magotes, e diz-nos o que fazer e pensar. Só nos resta obedecer, docilmente. Bééééééhéhé.


Imagine-se uma situação deste género:

Um restaurador qualquer de Lisboa (por exemplo, o Zé das Panças), instalado há vários anos numa rua qualquer da cidade, começa a perder clientes, por causa da crise, e pela qualidade do seu serviço ter diminuído. Perante esta situação, o Zé das Panças, em vez de assumir estóicamente a sua situação, ou de melhorar o seu serviço, decide recorrer à força.

Primeiro, com mais dois ou três amigos, terroriza os seus colegas restauradores, queimando-lhes as tascas, agredindo-os, e até matando um deles. Estes, incapazes de lhe resistir (ou não tendo coragem para fazê-lo), decidem fechar o negócio. O Zé das Panças tem agora um monopólio, na sua rua.

Segundo, e apesar do negócio já lhe estar a correr melhor, visto que os clientes não têm outro sítio para onde ir comer fora, o Zé das Panças decide continuar a usar o método que tão bem o serviu num passado recente: a violência. Agora, não só proíbe qualquer restaurador de lhe fazer concorrência, como ainda por cima força toda a gente na sua rua a pagar-lhe todos os meses um X. O Zé das Panças passa assim de restaurador a extorsionista. Com este dinheiro todo, contrata mais empregados e mais capangas, distribui benesses aos seus amigos (mais numerosos, desde que ele começou a ter mais sucesso na vida), e ocasionalmente oferece alguns almoços grátis a quem ele, no seu julgamento pessoal, considere merecedor.

Em terceiro lugar, o Zé das Panças (que nesta altura já só anda de Mercedes, com duas prostitutas no banco de trás, e sempre de charuto na boca), decide ir ainda mais longe. Agora, obriga literalmente toda a gente lá da rua a ir comer ao seu restaurante. Almoço e jantar. Já ninguém come em casa, pois os recalcitrantes são severamente castigados. Nem sequer se preocupa muito que paguem ou não o serviço. O dinheiro da extorsão cobre as despesas. O que ele quer mesmo, agora, é sentir-se poderoso. Sentir que manda nas pessoas. Sentir que elas dependem de si. Aliás, até vê com bons olhos que os seus "clientes" forçados não paguem as suas refeições directamente. Ele sabe que assim, eles ficam dependentes dele, que se habituam a ter refeições "gratuitas" (ou seja, pagas pela extorsão) e que acabam por defender o sistema que ele lhes impôs.

Finalmente, o Zé das Panças decide expandir o seu "negócio". Com o dinheiro que angariou, contrata mais capangas, e expande o seu sistema a toda a cidade primeiro, e posteriormente, a todo o país. Os que lhe resistem são implacávelmente esmagados. Chegado a este ponto, já só anda de limousine, com dez prostitutas no banco de trás.

Nesta situação, a qualidade do serviço diminui necessariamente, e o descontentamento popular cresce. O conflito social aumenta, generaliza-se, e perdura de forma insolúvel. O Zé das Panças já não tem medo de ir à falência. Tem uma fonte de rendimentos garantidos, e os seus "clientes" não têm outro sítio para onde ir, caso não queiram morrer de fome. Os que gostavam de o concorrenciar não podem, mesmo que tenham procura pelos seus serviços. Os que pagam o tributo que financia o sistema rebelam-se contra o facto (ainda mais porque este tributo está constantemente a aumentar, pela simples razão de que é do interesse do Zé das Panças). Os que não gostam da alimentação do Zé das Panças querem mudar o menú. E os que gostam dela querem que se mantenha. Os dois grupos não podem simultâneamente ficar satisfeitos, e logo, combatem-se. Todos querem, ao mesmo tempo, que o tamanho das porções aumente. Muitos gostavam de poder comer em casa. Todos se queixam dos empregados de balcão, que são arrogantes, mal educados e preguiçosos, por saberem que o Zé das Panças não os vai despedir (ele não precisa! os clientes não vão fugir por causa do mau serviço... e se fugirem serão abatidos). Além disso, os empregados do Zé das Panças estão sempre a pedir aumentos nos seus vencimentos, o que deixa os pagadores do tributo ao Zé das Panças completamente borrados, por saberem que são eles que, no final, vão suportar estes custos suplementares.

Esta situação é hipotética, obviamente. Na realidade, o Zé das Panças nem conseguiria tomar o controlo da sua rua. Era logo morto por aqueles que pusesse em perigo. Ou então era logo punido pela polícia e pelos tribunais, por homicídio, extorsão, agressão e associação mafiosa.

Ou melhor dizendo, esta situação não é tão hipotética como parece. Há uma área da nossa sociedade que funciona exactamente como o sistema mafioso do Zé das Panças: o sistema de educação.

Primeiro, é um monopólio. É só o estado - isto é, o Zé Sócrates, ou o Zé Barroso, ou o Zé Salazar, ou quem quer que lá esteja no puleiro - que possui escolas, contrata professores, e "educa" as crianças. (As poucas escolas privadas que existem são obrigadas a executar o currículo determinado pelo Ministério da Educação, e devem por isso ser consideradas como meros tentáculos do monopólio).

Segundo, este sistema é financiado pelo imposto, isto é pela extorsão.

Terceiro, todas as crianças são obrigadas por "lei" a ir assistir às aulas do Monopólio. Se não o fizerem, são arrancadas aos seus pais pelos "Serviços Sociais" (S.S., quiçá?), por se considerar que estes não são dignos de criar os seus filhos. Não há a possibilidade de ensinar os seus filhos em casa, por exemplo.

Finalmente, o sistema é igual e único para todo o país.

E o resultado, como é previsível, é altamente conflituoso. Os professores são medíocres e preguiçosos. O seu serviço não satisfaz. Estão constantemente em greve. Metade do seu tempo consiste em fazer de guardas prisionais para putos reguilas que não têm vontade de estar sob a sua autoridade, por terem sido forçados a lá estar. Muitas disciplinas não têm qualquer interesse. Outras que podiam interessar não são leccionadas. Há conflitos constantes entre pais de alunos sobre o tipo ensino que deve ser leccionado: religioso vs laico, tradicional vs moderno, hierárquico vs participativo, político vs apolítico, integrado vs segregado, língua A vs língua B, etc... O sistema está altamente centralizado, e logo não permite a satisfação das particularidades locais. Além disso, esta centralização permite a movimentos ideológicos (esquerdistas radicais, nacionalistas, etc...) apoderarem-se do poder, e usá-lo para moldar à força a opinião de milhões de cidadãos que, na sua juventude, são particularmente manipuláveis. Finalmente, os contribuintes são chulados para financiar este sistema, e ressentem-se disso. Ao mesmo tempo, e de forma completamente incoerente, desejam que o estado assuma a educação e a guarda dos seus filhos, uma responsabilidade sua.

Ou seja, é um sistema imoral, patético, conflituoso e ineficiente. Mas é um sistema que perdura, infelizmente, de pelos interesses instalados, e ainda mais de pela ceguice da grande maioria dos portugueses, incapazes de vê-lo pelo que é: um sistema mafiosa, à la Zé das Panças. Se um "simples" cidadão tentar instaurar um sistema destes sobres os seus familiares, amigos, ou vizinhos, será punido. Mas quando é o estado a fazer tal malandrice, pouca é a resistência encontrada. Isto apesar do estado se compôr geralmente de pessoas completamente estranhas às sua vítimas. Que ironia ver tantas pessoas aplicarem critérios mais duros aos seus do que a estranhos!

Poucos são aqueles capazes de aplicar os princípios comuns da moral ao estado. A maioria está disposta a tolerar-lhe as numerosas e importantes injustiças. Daí deriva a sua força - da baixeza dos seus carneiros. As pessoas não percebem que o estado, o "instrumento da Lei", é ele próprio o principal violador das leis morais.

Leituras complementares:

Education: Free and Compulsory
, pelo Murray Rothbard.