segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Estratégia Do Apodrecimento


As despesas do estado excedem largamente as receitas. Para equilibrar as contas - sem aumentar a roubalheira fiscal - era necessário cortar o equivalente a dois meses inteiros de despesa do estado.

Sócrates não vai fazê-lo porque sabe que alienaria o seu eleitorado parasita e seria imediatamente corrido do poder (nem que seja pelos seus próprios comparsas socialistas). Pedro Passos Coelho, que poderia bloquear um orçamento que não esteja equilibrado, também não tem coragem para fazê-lo. Ao fazê-lo, o Sócrates responsabilizá-lo-ia por tais cortes (inclusivamente demitindo-se e provocando eleições antecipadas, que lhe correriam provavelmente muito bem, com os estado-dependentes a votarem em massa). O Pedro Passos Coelho não é um homem de princípios, mas antes de poder. Não vai tomar atitudes que compromentam o seu sucesso político.

Temos portanto o Sócrates a fingir que se demite. Não vai fazê-lo porque gosta do poder, e o Coelho não lhe vai dar uma boa razão de o fazer. O Coelho a fingir que vai vetar o orçamento. Não vai fazê-lo, da mesma forma que não o fez da última vez. Vai esperar que o Sócrates se desgaste, por outros motivos, e tentar ganhar as eleições no futuro.

Finalmente, está toda a gente a supôr, e bem, que a situação ainda vai apodrecer um pouco, de forma "sustentável", por assim dizer, até se tornar incomportável. Os impostos, apesar de aumentarem ainda mais, não vão poder sê-lo da forma esmagadora que seria necessária para equilibrar o orçamento pela via da receita. O Banco Central Europeu vai continuar a comprar dívida dos estados europeus, de medo que estes declarem a bancarrota, o que prejudicaria altamente os grandes bancos do centro-norte da Europa. Só por aí, as despesas excessivas vão continuar a realizar-se. E o FMI vai afinar em segredo, com a UE, o seu plano de conquista do país (ao mesmo tempo que todos vão negar ferozmente que tal esteja a acontecer). A esquerda delirante vai continuar a queixar-se dos governantes "que se vergam perante os mercados", convencida de que a opinião dos credores do estado não tem importância nenhuma para este (pouco importa que esteja a viver dos fundos que estes credores lhe emprestam, e que lhe podem retirar a qualquer instante)...

Portugal vai mais tarde ou mais cedo ser enterrado ainda mais profundamente na ordem europeia/mundial. O que é uma pena. Mais valia que o FMI e Cia deixassem uma crise brusca acontecer, o que forçaria toda a gente a enfrentar a realidade (a necessidade de cortar a despesa, e de libertar a economia, para que produza mais). Assim, o plano do costume vai ser implantado. Com os seus lados maus: mais impostos, mais corporatismo para firmas estrangeiras próximas do FMI. E os seus bons lados: privatizações, e menos despesa. O grande problema dum "plano de contenção" internacional é que a parasitocracia de toda a espécie (funcionários públicos, reformados, desempregados, etc...) vai enfrentar cortes bem mais pequenos do que de outro modo o seriam (no cenário duma crise sem ajuda exterior). São organismos internacionais, e contribuintes internacionais, que vão assumir o seu estilo de vida excessivo.

No fundo, o FMI e companhia são falsos mauzões (pelo menos para com a classe parasita). Servem para assustar os sindicatos de funcionários públicos, mas acabam por lhes pôr o pão na boca. É aliás por esta razão que os governos se viram para eles quando precisam. Ninguém os obriga militarmente a isso.

Este país está destinado a perder a sua independência. Não há nesta terra patriotismo e espírito de liberdade suficientes para combater os interesses da classe mamona. Esta, para continuar a chafurdar no seu parasitismo, está perfeitamente disposta a entregar o país. Quanto à classe produtora, esmagada pelos seus próprios compatriotas, nem sequer tem a dignidade de se ofender com o estado de coisas. Queixa-se um pouco, meigamente, mas não rejeita completamente e irreconciliávelmente aqueles que vivem à sua custa, como imorais que são. Daí que se esteja a debater questões patéticas como o re-equilibrar do orçamento, quando o que devia ser feito para ir ao cerne da questão era pôr em questão o próprio conceito de imposto (o que implicaria obviamente cortar em mais de noventa e cinco por cento as despesas do estado). Os portugueses não têm consciência da sua degradação.

Se o FMI ou a UE forem brutos com esta ralé de povo, ela que não se queixe. Quem tem alma de escravo acaba sempre por encontrar um soberano à sua medida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rui Carmo: O Caniche da Liberdade (Neocon "Insurgente")



Anda por aí na porco-esfera uma coisinha imoraleca, patética, servil e irritante. Está sempre a ladrar para defender os donos: Israel e o Império americano.

Imoral, porque liberticida e parcial. É incapaz de aplicar aos donos os mesmos princípios de justiça que aplica aos outros. Quando são os outros (nomeadamente, o Eixo do Mal Alargado: Irão, Venezuela, Palestina, Hamas, Coreia do Norte, Zimbabwe) a ameaçar, agredir, e oprimir, são dignos de opróbrio e de escárnio. E até duma santa indignaçao: "Que notícia assustadora!". Quando são os donos a matar, ameaçar, roubar e agredir, não há problema nenhum. Era "necessário", pelo "bem superior", pela "democracia", pela "liberdade", ou lá o que seja que estes neo-conecos decidem instrumentalizar para as suas cruzadas. Um tipo de ratazana que se ofusca pelas nacionalizaçãos do Chávez (ou seja, um simples roubo), mas que não se importa com as guerras do Império (ou seja, matanças em massa). É a isto que se chama de prioridades invertidas.

Imoral, mas mais do que isto, conscientemente desonesta: é uma coisa que sabe muito bem que o seu "programa" é completamente anti-liberal e imoral, mas que decide no entanto promovê-lo, utilizando retórica de "libertação de povos" e assumindo-se como paladino da justiça. Porquê uma tal atitude hipócrita? Porque sim! Simplesmente porque não tem escrúpulos em defender os seus, de qualquer forma, inclusivamente cobrindo-se do manto do Bem para defender porcalhices.

Patética, porque com a sua pancada de judeo-israelófilo incondicional e sistemático, acaba por se parecer com os anti-semitas mais irracionais que por aí andam, e que tanto a assustam. Um anti-semita virado do avesso, de certa forma.

Patética, porque se preocupa mais por Israël do que pelo seu próprio país, considerando inclusivamente que os recursos e as pessoas deste último devem ser utilizados em cruzadas inúteis e irrelevantes do tipo da NATO ou da guerra contra o Afeganistão. Não é a isto que se costuma chamar de "duplas lealdades perigosas"?

Patética, porque nunca é capaz de encaixar duas frases, de completar um argumento, e de produzir um texto com princípio, corpo e fim. Prefere antes contentar-se com um sem-fim de picadelas fúteis cujo objectivo é criar na opinião pública nacional antipatia contra os inimigos dos donos, e promover as guerras abertas e clandestinas destes (para quando uma guerra devastadora contra o Irão, apoiada pelas ratazanas do costume?). Curioso que não haja da parte destes caniches da liberdade tanta preocupação pela liberdade dos próprios israelitas e ocidentais forçados a pagar impostos, sofrer inflação, e guerrear - através do serviço militar obrigatório - para defender os sonhos do Império e os desejos dum Grande Israel.

Patética, porque não tem tomates para assumir claramente o que quer, no fundo do coração: o programa neoconservador. Prefere antes disso criticar as políticas internas dos países potencialmente vítimas destas políticas neoconservadoras, como se o seu objectivo último fosse defender a liberdade destes povos. Sabe muito bem que se exibisse claramente os seus objectivos políticos com todo o seu "esplendor" militarista perdia logo a maior parte da sua credibilidade, e passava a ser visto como o perverso que é. Daí defender a manha da "defesa dos povos oprimidos", que sempre soa bem aos ouvidos dos idiotas facilmente manipuláveis. Os portugueses, quaisquer que sejam os seus defeitos, são hoje em dia maioritáriamente pacíficos e avessos a javardices militaristas. Só a manipulação e a força os pode fazer saír desta positiva letargia, trabalho sujo esse realizado por indivíduos do tipo do Carminho.

Patética, porque quando confrontada com as suas contradições e fraquezas - por exemplo, em comentários de leitores - decide sempre esquivar-se, evitando uma refutação frontal, preferindo antes ironizar, ou responder a uma questão paralela à do interlocutor (fazendo-se de parvo, como se não tivesse percebido a pergunta ou crítica).

Patética, porque esta gentalha, que não tem pruridos em defender constantemente a violência massiva do Império e de Israël, se ofusca quando algum comentador os chama de imorais ou lhes faz uma crítica mais virulenta, sendo que os comentários menos lambe-botas são frequentemente apagados, no blogue, pelo caniche. Grandes e gloriosos defensores do Ocidente são estes que, assumidamente ou não, defendem a morte para os outros, mas que nem têm estômago para encaixar uma simples crítica, umas meras palavras lançadas ao vento.

Patética, porque indivíduos deste tipo que nunca andaram na guerra nem aos tiros com quem quer que seja não têm vergonha nenhuma em defender isso mesmo para os outros.

Servil, porque não perde uma ocasião de defender os donos, mesmo quando eles fazem coisas aberrantes, que só dão vontade de vomitar às pessoas com um mínimo de decência. E porque não perde uma ocasião de lamber os tomates a quem pensa como ela.

Irritante, porque não se cala! Todos os dias põe uma ou várias postas (é caso para dizer), como um cachorro mal treinado que borra a casa dos donos enquanto estes não estão lá. O que é uma pena, tendo em conta que o Insurgente, o blogue onde este artista oficia, até tem lá uns quantos indivíduos decentes.

Em suma, mais um neo-coneco reles a quem deviam pôr um açaime, antes que morda alguém.

Aïe Cão Lindo!

PS: "Insurgente" está entre áspas no título do artigo, pela simples razão de que um verdadeiro insurgente, por natureza, luta contra um sistema opressivo qualquer. Ora os ratos neo-cons, longe de lutarem contra uma qualquer opressão, querem impôr o seu domínio, a sua opressão, a países que não sejam suficientemente dóceis. Querem impôr a ordem dos Estados-Unidos e de Israel (e até por vezes uma "Nova Ordem Mundial" baseada em conglomerados manhosos do género das Nações Unidas). E o seu sistema, além disso, é opressivo para com os ocidentais, pois não é possível o estado ter uma influência militar e diplomática forte no estrangeiro sem consumir ao mesmo tempo os recursos da sociedade na qual se apoia. A guerra é a saúde do estado. Por isso, a haver insurgentes, longe de se aliar a indivíduos deste tipo, têm que combatê-los. São parasitas sociais.

É irónico, portanto, que um blogue "Insurgente" tenha um indivíduo destes lá (e dos mais activos, ainda por cima...).

PS: para observar a desonestidade do invertebrado, e as manhas que utiliza para se esquivar às questões, veja-se por exemplo um post antigo - "Costumes liberais e fait-divers" e os vários comentários que se lhe seguiram. Se isto não chegar, e para quem tenha pachorra, veja-se outros posts da criatura, assim como os "debates" que ocorrem com indivíduos mais pacíficos/pacifistas em termos de política estrangeira (liberais radicais ou esquerdistas, essencialmente) que se oponham às políticas que ela defende.

PS.2: Eis uma foto do caniche:

domingo, 19 de setembro de 2010

Ilegitimidade Da NATO


Os defensores da NATO e, em geral, de alianças militares e intervenções estrangeiras, costumam sempre defender estas instituições ou práticas com argumentos utilitaristas. Exibem o perigo, real ou fabricado (nunca se saberá ao certo, no meio da propaganda e no segredo das intenções não divulgadas), dos Soviéticos, do Hitler que quer conquistar a Europa e de seguida o mundo, do turco às portas da Europa, dos terroristas muçulmanos e da islamização forçada do Ocidente, do choque de civilizações, da destruição dum Israel última defesa do Ocidente contra o Islão, da imigração massiva africana, do chinês, e de outros fenómenos ainda. Daí, defendem a NATO, e a tomada de posição em conflitos alheios, para "matar o mal no ovo". E reforçam este partido pela ideia de que certos perigos só podem ser combatidos pela conjunção de esforços múltiplos, sendo que cada país individualmente pode não ter a força e os meios suficientes para enfrentar determinado ataque.

Mas tudo isto, apesar de interessante e necessário de debater (serão perigos reais, ou fabricados?; exige-se uma conjunção de esforços, ou uma acção estado a estado é suficiente?; quais as medidas ofensivas ou defensivas a tomar?) é irrelevante quanto à questão que interessa. E esta é a seguinte:

Tem o estado o direito de forçar os seus cidadãos a defender interesses alheios, ou até os seus próprios (nomeadamente a sua liberdade, a sua propriedade, e a sua independência política)?

A resposta, para quem defenda como valor absoluto a liberdade individual, é muito simples: não. Todos têm o direito de defender os seus legítimos interesses (ou seja, interesses que não sejam incompatíveis com os direitos alheios), assim como os direitos de terças partes, aliando-se a elas. Se for preciso, pela força, contra agressores. Mas ninguém (e "ninguém" excluí também os agentes do estado, tais como polícias, políticos, geo-estragegas, e militares...) tem o direito de forçar os outros a defender-se ou a defender uma causa qualquer. Por definição, numa sociedade livre, o indivíduo só pode sofrer violências caso tenha ele próprio iniciado um ataque ao património ou à vida duma terça parte.

Esta ideia é simples. Mas poucos têm estômago para digeri-la, porque põe em causa a mais importante das tarefas do estado - a sua política militar. Numa sociedade completamente livre, a defesa seria assumida por associações voluntárias: milícias, mercenários, associações clandestinas de espionagem e guerrilha, comandos assassinos internacionais. Numa sociedade livre, as forças armadas (do estado) seriam simplesmente desbandadas, visto que não haveria possibilidade de mantê-las quer pelo imposto, quer pela inflação, quer pelo serviço militar obrigatório - tudo práticas coercivas. Numa sociedade livre, além disso, associações militares de estados (tais como a NATO, que impõe obrigações potenciais ou efectivas a centenas de milhões de indivíduos, quer estes as aceitem ou não) seriam impossíveis. De facto, nenhum estado teria o direito e a capacidade de forçar os indivíduos a participar em qualquer projecto militar que seja.

E a haver forças armadas de estado, uma sociedade relativamente livre seguiria como mal menor uma política estritamente defensiva e neutra, pois é esta que menos agride a liberdade tanto do povo "defendido" como dos restantes.

Independentemente da questão prática de saber como poderia funcionar uma sociedade deste tipo (como é que o sector privado pode assumir funções de defesa assumidas historicamente pelo estado?), qualquer liberal devia perceber que o actual status quo é injusto. E isto, para alguém com pretensões de honestidade, é o suficiente para condená-lo. Qualquer um com um mínimo de bom senso devia perceber que não faz sentido violar efectivamente e constantemente a liberdade dos povos do Ocidente (imposto, serviço militar, inflação, etc...) em nome de potenciais ataques contra a tal liberdade. A primeira e principal obrigação dum indivíduo não é combater o mal alheio; é antes não exercer ele próprio imoralidades.

Finalmente, os "liberais-neoconservadores" atlanto-sionisto-globalistas da praça intelectual portuguesa (autênticas contradições ambulantes), que geralmente nem sequer reconhecem ao estado democrático legitimidade para produzir escolas e hospitais nem praticar redistribuição de rendimentos (apesar do seu estatuto de vacas sagradas do actual consenso social-democrata), deviam ter a honestidade, o radicalismo e a coerência de aplicar os seus princípios não-intervencionistas a um domínio importantíssimo com implicações, literlamente, de vida ou de morte - a política militar. Caso contrário, esta ralé fazia melhor em concentrar-se em questões de política interna, em que curiosamente tem uma pancada liberal, do que em fomentar virulentemente conflitos incessantes no Médio-Oriente. Até lá, os seus detractores só os podem ver como vampirecos hipócritas cujo amor pelo Império americano, pelas forças armadas, por Israel e por sangue muçulmano, se sobrepõe de longe ao interesse pela liberdade dos seus compatriotas. Ou seja, só podem ser vistos como mais uns ratos imorais, de pôr no mesmo saco dos ideólogos e activistas liberticidas dos quais nos pretendem defender: comunistas internacionalistas, islamistas radicais, fascistas e nacional-socialistas, e tutti quanti. Partilham com estes a ideia de que o indivíduo é um instrumento nas mãos daqueles que compõem o estado. Além disso, quando o "Inimigo" anda por aí (mesmo que seja só na sua imaginação), adoptam sempre o mote de que "o fim justifica os meios" e de que "não se fazem omeletes sem partir ovos", como o demonstra a indiferença pela sorte das vítimas das políticas que defendem. O que não os diferencia em nada de revolucionários comunistas, por exemplo.

Em suma, estes atlantistas (com ou sem tendências liberais), são uma gente suja que só merece desprezo. Se se sentem inseguros, que vão lutar eles próprios, com o seu corpinho de guerreiros blogosféricos, com as suas armas, e com o seu dinheiro, para onde o Papão está. Mas não chateiem o resto do pessoal.

Leituras Complementares:

Created a Monster, pelo Walter Block.

For a New Liberty, pelo Murray Rothbard (mais especificamente, o capítulo sobre política estrangeira).

Harry Truman: Advancing The Revolution, pelo Ralph Raico.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ideia Blasfema


Que tal organizar uma queima pública do Manifesto Comunista, em frente à sede do Partido Comunista, no próximo 25-A?

Adenda: há quem proponha uma queima simultânea da Constituição da República Portuguesa. Mais sugestões?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Salazar, O Socialista


Tem piada a hostilidade dos partidos da esquerda pelo Salazar. Salazar, afinal de contas, foi um membro notável da grande família dos ladrões-solidários, da qual eles fazem orgulhosamente parte. Foi ele o grande impulsionador do estado-social em Portugal. Foi ele que o criou, literalmente.

Este facto é revelado por um estudo bem documentado dos professores universitários José A. Pereirinha e Daniel F. Carolo, intitulado "A Construção do Estado-Providência em Portugal: Evolução da Despesa Social de 1935 a 2003.". Este estudo é acompanhado de mapas e gráficos bem esclarecedores. Quanto ao socialismo do Salazar, os números não mentem.

Nos últimos anos da monarquia, e ao longo da primeira república, já tinha havido algumas tentativas de instauração de medidas "sociais", que nunca passaram propriamente do papel. Mas desde o princípio do Estado Novo, período em que Salazar começou a governar o país, iniciou-se a firme mas gradual construção do estado-social moderno. O modelo foi desenvolvido num modelo corporativo (sistemas separados para profissões diferentes), mas ao longo das décadas foi-se tornando mais universal e centralizado. Além disso, foram acrescentadas várias prestações novas ao longo do tempo. Desde os anos 50, o estado já incorria em despesa com abonos de famílias, com saúde, e em pensões de velhice/invalidez/sobrevivência. Após o fim político de Salazar, Marcelo Caetano aumentou fortemente a despesa em questões "sociais" - o acréscimo foi de cerca de 35% ao ano, nos três anos anterioes ao golpe de estado! Quando o regime caiu, no dia 25 de Abril, já havia milhões (sim, milhões...) de pessoas a beneficiar do sistema duma forma ou outra. E a despesa social - sem contar o sistema de ensino - já se situava entre 5 a 10% do PIB. Está-se muito longe do mito segundo o qual o Salazar queria "deixar morrer a população à fome".

Os esquerdistas, na sua habitual desonestidade intelectual, são incapazes de reconhecer mérito ao regime anterior. Ao ouvi-los, as trevas rasgaram-se no dia 25 de Abril 1974, fez-se luz, e uma caminhada triunfante para a justiça iniciou-se. No entanto, segundo os seus próprios princípios socialistas, deviam elogiar o antigo regime. A esquerda, grande vencedora da golpada abrilesca e actual dona do regime, gosta de dar um tom mítico ao 25 de Abril, porque sabe que a sua legitimidade nos olhos da população se deve a esta manhã, assim como a toda a propaganda que se lhe seguiu ("Democracia", "O Povo é quem mais ordena", "Liberdade", "Igualdade", "Pão para todos", etc...). Se o povão começar a abrir os olhos e se aperceber de que este regime é tanto ou mais parasita e imoral que o anterior, vai-lhes acontecer o mesmo que sucedeu aos anteriores. E eles, filhos dum golpe de estado, pressentem isto instintivamente. Daí a necessidade de pintar sempre o Estado Novo de negro: querem marcar bem a diferença com um regime que a população já aprendeu a ver com maus olhos.

Quanto a nacionalistas, o amor tótó que têm pelo Salazar não se justifica. Foi ele que criou as bases dum sistema que o regime actual só se limitou a extender. Longe de ser um estadista "acima da ralé", o Salazar comprou apoio popular através da distribuição de rebuçados aqui e acolá, como qualquer bom políticozeco pós-25A. Foi ele o pai dum sistema cujo resultado é a dependência, a bancarrota, e a degradação - tudo o contrário da "Pátria orgulhosa e forte" que os nacionalistas dizem defender. Paralelamente, foi ele que cartelizou e logo concentrou a indústria portuguesa, facilitando tremendamente, dessa forma, as expropriações postas em prática posteriormente pelos comunistas (teria sido praticamente impossível nacionalizar propriedade fortemente parcelizada). Além disso, ao inserir o país na NATO (dando inclusivamente aos americanos uma base no território nacional), garantiu que o país nunca mais tivesse uma política neutra, ou no mínimo, independente.

Em suma, o Salazar, além de ser um militarista, um corporatista e um conservador autoritário, era um socialista e um vendido ao império americano.

O verdadeiro defensor da liberdade só pode, por isso, vê-lo com um certo desdém. O mesmo desdém que dedica aos palhaços tristes, ladrões, incoerentes e desonestos que lhe sucederam. Na "longa marcha para a liberdade", ainda está quase tudo por fazer.

Individualismo E Colectivismo

Pelo Rui Botelho Rodrigues, na Ordem Natural, 25 de Agosto 2010.

É uma infelicidade que o conservadorismo oakeshottiano se tenha infiltrado no pensamento liberal. Mais infeliz ainda é que o anti-racionalismo conservador se tenha juntado ao anti-racionalismo hayekiano e à ideia de «selecção cultural espontânea» (uma concepção da ordem social que rejeita, no essencial, a categoria de acção).

Dessa estirpe liberal, surge a acusação que a concepção «individualista» da sociedade é inadequada porque se centra no indivíduo e esquece ou subvaloriza a dimensão colectiva nas suas variadas formas: a Família, a Igreja, a Cultura, a Nação etc – ou seja: as instituições previamente estabelecidas, testadas pela tradição, passíveis de serem «copiadas» no processo de «selecção cultural» e que constituem a sociedade. Na opinião destes críticos, a dimensão colectiva tem muito mais importância do que os individualistas concedem e a ignorância deste facto condena o modelo individualista à pura engenharia social. Na melhor das hipóteses, a concepção individualista será uma irrelevante utopia em discordância com os factos mais básicos da realidade social.

Tais acusações só podem partir do princípio de que existe na dimensão colectiva uma espécie de entidade que age independentemente dos indivíduos que constituem o colectivo. Esse ponto de partida é, naturalmente, falso, sendo óbvio que o colectivo não existe além das acções dos indivíduos que o constituem. A disputa não é, portanto, entre o indivíduo e o colectivo, mas entre a escolha voluntária de um indivíduo pertencer ou não pertencer a um colectivo e a sua subjugação a um colectivo que não pretende integrar.

Todos os colectivos são o produto de acções deliberadas pela parte de indivíduos (tanto os de entrada voluntária como os de subjugação violenta). A Igreja ou o Estado consistem apenas, e só, nos actos dos indivíduos que agem em seu nome.

Mesmo no caso da família em que existem elos biológicos o facto do colectivo familiar se perpetuar deve-se ao simples facto de que os indivíduos que o constituem pretendem manter aquelas particulares relações interpessoais que formam o colectivo-família. Se o marido toma decisões pela família, é apenas porque os restantes membros lhe concederam essa autoridade ou, no caso das crianças, têm – no que a esta questão diz respeito – uma área de acção limitada. Além disto, a família é um conceito puramente humano. Nada que se assemelhe a uma família existe entre animais; a família humana é um fenómeno, não biológico, mas sociológico – e é o produto de acções, não de «selecção natural».

Sem fazer a distinção, necessariamente fundada na noção de indivíduo e de acção e escolha individuais, entre colectivos voluntários (por exemplo, a família) e colectivos coercivos (por exemplo, o Estado), a defesa dos valores mais conservadores perde todo o seu apelo moral. É precisamente porque os indivíduos podem demonstrar preferência (através da acção) que as suas escolhas têm valor moral. O colectivo não é uma entidade separada dos, e superior aos, indivíduos que o constituem e às acções deliberadas que o instituem e mantêm. Uma ética, de resto, só faz sentido se for entendida como o conjunto de regras que deve reger as relações entre indivíduos. Uma ética colectivista é, pois, uma contradição em termos.

Se a dimensão colectiva é fundamental para as ciências humanas que não dependem das implicações mas dos conteúdos da acção humana, para a economia e a ética política o colectivo só pode ser entendido como uma consequência, não uma condição, da acção, e todas as considerações sobre o conteúdo (moral, psicológico, etc.) são, necessariamente remetidas ao princípio prévio do individualismo metodológico, de que só os indivíduos agem.

Existe, além disso, uma confusão fundamental entre aplicar o individualismo metodológico ao problema ético-político e a advocacia do individualismo per se. A concepção de uma ideologia política à luz do facto de que só os indivíduos agem (e logo, que os direitos, e a justiça, são conceitos individuais), não implica (nem exclui) qualquer preferência pelo individualismo moral ou egoísmo. É possível defender moralmente a família, o altruísmo e a caridade e, ainda assim, conceder que a negação da família, do altruísmo e da caridade (mesmo que moralmente vazia) seja politicamente legítima e não sujeita a repressão legal.

O individualista metodológico não nega a importância social, civilizacional ou moral do colectivo, seja na forma de «instituições subsidiárias» ou do complexo nação/língua. O que negamos é que o colectivo tenha qualquer existência além das acções particulares dos indivíduos que o constituem. Daí a importância de avaliar e conceber em primeiro lugar o indivíduo em isolamento, e introduzir posteriormente as relações interpessoais (sociedade).

Este ponto é alvo de contenção devido à inexistência histórica de indivíduos isolados, e logo, supostamente, de uma fundação histórica para a proposta política fundada no individualismo metodológico. Porém, o individualismo que propomos não diz respeito à categoria histórica do homem isolado, mas à categoria (metafísica, se quiserem) do Homem como unidade praxeológica, como elemento capaz de acção. A construção mental do homem em isolamento não passa disso mesmo: uma construção mental para facilitar a compreensão e dedução das leis implícitas na acção.

Mesmo um defensor do altruísmo absoluto tem de fundar o seu altruísmo no reconhecimento do valor particular e único de cada indivíduo, ou o seu altruísmo não passa de colectivismo materialista. E convém salientar que não existe uma terceira alternativa teórica: uma ideologia é individualista ou colectivista. Não existe uma via intermédia, apenas aproximações a um ou outro ponto. Ao tentar refutar as conclusões que o individualismo metodológico torna necessárias, os liberais anti-racionalistas são forçados a rejeitar as premissas individualistas e assim a abraçar, mesmo que involuntariamente, uma concepção colectivista da ordem social que, levada às suas últimas consequências, não pode ser a base dos esquemas liberais que os anti-racionalistas propõem.

Como Hoppe notou sarcasticamente: «logical consistency is not a requirement for an anti-rationalist».