domingo, 19 de setembro de 2010

Ilegitimidade Da NATO


Os defensores da NATO e, em geral, de alianças militares e intervenções estrangeiras, costumam sempre defender estas instituições ou práticas com argumentos utilitaristas. Exibem o perigo, real ou fabricado (nunca se saberá ao certo, no meio da propaganda e no segredo das intenções não divulgadas), dos Soviéticos, do Hitler que quer conquistar a Europa e de seguida o mundo, do turco às portas da Europa, dos terroristas muçulmanos e da islamização forçada do Ocidente, do choque de civilizações, da destruição dum Israel última defesa do Ocidente contra o Islão, da imigração massiva africana, do chinês, e de outros fenómenos ainda. Daí, defendem a NATO, e a tomada de posição em conflitos alheios, para "matar o mal no ovo". E reforçam este partido pela ideia de que certos perigos só podem ser combatidos pela conjunção de esforços múltiplos, sendo que cada país individualmente pode não ter a força e os meios suficientes para enfrentar determinado ataque.

Mas tudo isto, apesar de interessante e necessário de debater (serão perigos reais, ou fabricados?; exige-se uma conjunção de esforços, ou uma acção estado a estado é suficiente?; quais as medidas ofensivas ou defensivas a tomar?) é irrelevante quanto à questão que interessa. E esta é a seguinte:

Tem o estado o direito de forçar os seus cidadãos a defender interesses alheios, ou até os seus próprios (nomeadamente a sua liberdade, a sua propriedade, e a sua independência política)?

A resposta, para quem defenda como valor absoluto a liberdade individual, é muito simples: não. Todos têm o direito de defender os seus legítimos interesses (ou seja, interesses que não sejam incompatíveis com os direitos alheios), assim como os direitos de terças partes, aliando-se a elas. Se for preciso, pela força, contra agressores. Mas ninguém (e "ninguém" excluí também os agentes do estado, tais como polícias, políticos, geo-estragegas, e militares...) tem o direito de forçar os outros a defender-se ou a defender uma causa qualquer. Por definição, numa sociedade livre, o indivíduo só pode sofrer violências caso tenha ele próprio iniciado um ataque ao património ou à vida duma terça parte.

Esta ideia é simples. Mas poucos têm estômago para digeri-la, porque põe em causa a mais importante das tarefas do estado - a sua política militar. Numa sociedade completamente livre, a defesa seria assumida por associações voluntárias: milícias, mercenários, associações clandestinas de espionagem e guerrilha, comandos assassinos internacionais. Numa sociedade livre, as forças armadas (do estado) seriam simplesmente desbandadas, visto que não haveria possibilidade de mantê-las quer pelo imposto, quer pela inflação, quer pelo serviço militar obrigatório - tudo práticas coercivas. Numa sociedade livre, além disso, associações militares de estados (tais como a NATO, que impõe obrigações potenciais ou efectivas a centenas de milhões de indivíduos, quer estes as aceitem ou não) seriam impossíveis. De facto, nenhum estado teria o direito e a capacidade de forçar os indivíduos a participar em qualquer projecto militar que seja.

E a haver forças armadas de estado, uma sociedade relativamente livre seguiria como mal menor uma política estritamente defensiva e neutra, pois é esta que menos agride a liberdade tanto do povo "defendido" como dos restantes.

Independentemente da questão prática de saber como poderia funcionar uma sociedade deste tipo (como é que o sector privado pode assumir funções de defesa assumidas historicamente pelo estado?), qualquer liberal devia perceber que o actual status quo é injusto. E isto, para alguém com pretensões de honestidade, é o suficiente para condená-lo. Qualquer um com um mínimo de bom senso devia perceber que não faz sentido violar efectivamente e constantemente a liberdade dos povos do Ocidente (imposto, serviço militar, inflação, etc...) em nome de potenciais ataques contra a tal liberdade. A primeira e principal obrigação dum indivíduo não é combater o mal alheio; é antes não exercer ele próprio imoralidades.

Finalmente, os "liberais-neoconservadores" atlanto-sionisto-globalistas da praça intelectual portuguesa (autênticas contradições ambulantes), que geralmente nem sequer reconhecem ao estado democrático legitimidade para produzir escolas e hospitais nem praticar redistribuição de rendimentos (apesar do seu estatuto de vacas sagradas do actual consenso social-democrata), deviam ter a honestidade, o radicalismo e a coerência de aplicar os seus princípios não-intervencionistas a um domínio importantíssimo com implicações, literlamente, de vida ou de morte - a política militar. Caso contrário, esta ralé fazia melhor em concentrar-se em questões de política interna, em que curiosamente tem uma pancada liberal, do que em fomentar virulentemente conflitos incessantes no Médio-Oriente. Até lá, os seus detractores só os podem ver como vampirecos hipócritas cujo amor pelo Império americano, pelas forças armadas, por Israel e por sangue muçulmano, se sobrepõe de longe ao interesse pela liberdade dos seus compatriotas. Ou seja, só podem ser vistos como mais uns ratos imorais, de pôr no mesmo saco dos ideólogos e activistas liberticidas dos quais nos pretendem defender: comunistas internacionalistas, islamistas radicais, fascistas e nacional-socialistas, e tutti quanti. Partilham com estes a ideia de que o indivíduo é um instrumento nas mãos daqueles que compõem o estado. Além disso, quando o "Inimigo" anda por aí (mesmo que seja só na sua imaginação), adoptam sempre o mote de que "o fim justifica os meios" e de que "não se fazem omeletes sem partir ovos", como o demonstra a indiferença pela sorte das vítimas das políticas que defendem. O que não os diferencia em nada de revolucionários comunistas, por exemplo.

Em suma, estes atlantistas (com ou sem tendências liberais), são uma gente suja que só merece desprezo. Se se sentem inseguros, que vão lutar eles próprios, com o seu corpinho de guerreiros blogosféricos, com as suas armas, e com o seu dinheiro, para onde o Papão está. Mas não chateiem o resto do pessoal.

Leituras Complementares:

Created a Monster, pelo Walter Block.

For a New Liberty, pelo Murray Rothbard (mais especificamente, o capítulo sobre política estrangeira).

Harry Truman: Advancing The Revolution, pelo Ralph Raico.