domingo, 7 de novembro de 2010

Organização Política E Opressão

Em geral, para qualquer política do estado que se possa imaginar, são muitos os lesados, e poucos os beneficiários. Isto, supostamente, deveria levar a que estas políticas não sejam postas em prática (ainda mais num sistema democrático de massas). Mas não é isto que se constata. O que se constata é que o estado tem vindo a crescer de forma implacável em detrimento da liberdade, e isso ao longo de séculos. E que praticamente sempre, têm sido os "interesses", os grupos de pressão, a levarem o seu programa avante.

Isto advém de várias razões. Mas a principal é a seguinte: em política, os benefícios estão concentrados, mas os custos são difusos.

Veja-se por exemplo a questão do imposto e da função pública. O interesse óbvio dos funcionários públicos é que a população em geral pague mais impostos, para que eles possam receber maiores ordenados. Por outro lado, o interesse das massas está em pagar menos impostos, e logo em diminuir as despesas com salários de funcionários. Os dois grupos são antagónicos. Imagine-se uma população de 10 milhões de pessoas, com 1 milhão de funcionários públicos. Nesta situação, um aumento de impostos de 500 milhões de onças de ouro representa um acréscimo de gastos com funcionários, em média, de 500 onças (por funcionário público: 500 milhões/1 milhão). Por outro lado, só representa um imposto adicional de 56 onças por pagador de imposto (500 milhões/9 milhões). Ou seja, o interesse dos funcionários num acréscimo dos seus vencimentos (ou contra cortes nestes) é imenso e quase vital, enquanto que cada medida fiscal só afecta marginalmente a massa dos tributados.

Idem para políticas proteccionistas. Beneficiam especificamente e claramente determinadas indústrias nacionais, isoladas da concorrência internacional, mas só afectam marginalmente a grande massa de consumidores do produto "protegido", forçando-o a pagar mais caro pelo que compra. A indústria protegida tem um interesse fundamental no seu privilégio proteccionista. A sua sobrevivência e o seu lucro disso depende. Pelo contrário, para os consumidores, o produto que pagam mais caro (se é que têm consciência de pagarem mais caro...) é só um entre muitos produtos que compram, e talvez só o comprem de tempos a tempos.

Outra razão pela qual os interesses tendem a ganhar é que estão altamente organizados e conscientes dos seus interesses. O próprio estado, o inimigo nº1 da liberdade, é ele próprio uma organização que geralmente oferece uma frente unida nas questões que afectam os seus membros (e que, por sinal, luta vigorosamente pelos seus interesses). Pelo contrário, os indivíduos que estes interesses prejudicam estão geralmente desorganizados e "dispersos" pela sociedade (não têm lóbis, associações, testas de ferro nos mídia), e às vezes não têm própriamente consciência de serem prejudicados. E até podem estar desunidos noutras questões, o que não facilita a sua cooperação nos temas que lhes interessam.

O resultado disso tudo, em termos eleitorais, políticos, mediáticos, é a enorme influência que pequenos grupos determinados conseguem ter sobre o estado, apoderando-se dele e usando-o em seu proveito, sem qualquer preocupação pela liberdade dos seus semelhantes.

A tarefa do activista liberal consiste em primeiro lugar em expôr claramente à luz do dia os interesses particulares que se escondem por trás dos discursos balofos. Em mostrar às massas que estes interesses as prejudicam. E finalmente, o activista liberal tem que tentar fomentar uma resistência unida aos interesses liberticidas, sem no entanto cair no perigo de se deixar cooptar pelo poder, oferecendo-lhe uma organização socialmente omnipresente e abrangente que este facilmente engolirá ou comprará. No entanto, é importante fazer este trabalho, resistindo a avanços supostamente inócuos do Poder. Foram estes avanços marginais, somados ao longo de séculos, encorajados simultâneamene por vários grupos de pressão, que nos trouxeram até ao nosso estado actual de estagnação e de degradação.

Há que não ter ilusões. A luta pela liberdade é difícil, e a derrota é mais provável do que a vitória. Benefícios concentrados, e organizações solidárias por natureza (sendo o estado a principal) militam a desfavor duma vitória da liberdade.

Mas este é um trabalho que deve ser realizado, por uma questão de honra, sem grandes preocupações por vitórias ou derrotas.