domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Caixa De Pandora


Hoje em dia, nas sociedades ocidentais que o carneiro médio chama de "livres", não há práticamente nada que o Estado não saiba sobre o seu gado. Há toda uma série de informações que é recolhida de forma compulsiva e sistemática através do imposto, das burocracias e dos serviços de espionagem interna.

O Poder conhece, para cada pessoa:

1. O seu património imobiliário - terrenos, casas, apartamentos.
2. O seu património automóvel.
3. O seu património financeiro (contas bancárias e títulos mobiliários).
4. As compras que faz recorrendo a cheques ou cartões de crédito.
5. O seu património comercial.
6. Se tem armas, quantas, e quais.
7. O seu número de telemóvel/telefone, e o que diz.
8. O seu email e as conversas que tem, o seu IP, os sites que vê.
9. As viagens que faz ao estrangeiro.
10. Se tem ou teve problemas com autoridades estrangeiras.
11. As suas impressões digitais, e frequentemente, outros dados biométricos (ADN, fotografia do olho, etc...).
12. As opiniões políticas que tem ou teve.
13. Os seus antecedentes legais.
14. A sua religião, a sua cor, o seu sexo, o seu nome, os seus familiares, os seus amigos, a sua profissão, o seu empregador, a sua ordem profissional.

Todos estes dados estão mais ou menos centralizados e informatizados, sendo por isso muito fácil o Estado esmagar qualquer indivíduo que lhe resista. O Estado pode desta forma arruinar uma pessoa de forma simples, sem sequer ter que prendê-la ou matá-la. Basta tirar-lhe o seu património, ou forçar o seu empregador a abandoná-la. E naturalmente, toda esta informação é utilizada para controlar, dominar e extorquir as pessoas (aquilo a que se chama, pomposamente, de "política").

No entanto, de forma irónica, esta tirania tem o seu não-sei quê de perigoso para o Sistema e para os seus defensores. O Estado, ao recolher tanta informação sobre tanta gente, aumenta a sua capacidade de controlo da sociedade. Mas simultâneamente, garante que um dia qualquer, no futuro, toda esta informação confidencial será transmitida de forma clandestina para o público.

Ora isso põe em perigo o próprio Estado, por duas razões. Em primeiro lugar, a divulgação pública de informações confidenciais dos cidadãos deslegitima o Estado aos olhos destes. Mostra-o como uma organização invasiva da sua propriedade e da sua privacidade. Como uma organização perigosa e nefasta. Por outro lado, estas divulgações afectam mais tarde ou mais cedo os próprios agentes do Estado. Há a forte possibilidade de se tornarem públicos - qualquer dia, é só uma questão de tempo - os dados particulares de polícias, guardas republicanos, guardas prisionais, militares, espiões, agentes do fisco, burocratas, funcionários públicos, beneficiários da "Segurança Social", políticos e activistas intervencionistas (aquilo a que se pode chamar, sintéticamente, de classe parasita). Aí, será o "simples cidadão" a saber tudo sobre o seu "representante": viva a transparência! Nesse momento, a fragilidade já não será de sentido único.

Não é difícil perceber que isto pode e vai ser utilizado por radicais, insubmissos, resistentes e revolucionários. Toda esta informação vai ser usada por gente inconformada para castigar os agentes do Sistema. Imagine-se simplesmente a utilidade que uma lista completa de moradas de polícias pode ter para um bando de guerrilheiros... Ou sem ir tão longe, pense-se na revolução da opinião pública que acontecerá no dia em que anos e anos de conversas telefónicas de figuras importantes do regime forem divulgadas na Internet.

...

No domínio das ideias, a Wikileaks, o Youtube, a Google, o Facebook, o Twitter e os blogs já abriram a consciência de muita gente. Esta tendência só vai aumentar. A tecnologia torna-se mais barata a cada dia que passa. Computadores, ligações de banda larga, blogs/podcasts/vídeos pessoais, câmaras de vídeo... Tudo isso se torna acessível às massas. À medida que isto vai acontecendo, os mídia tradicionais (jornais, rádios hertzianas, televisões) tornam-se obsoletos e deixam de ter a capacidade de manipular as massas que tinham outrora. Quem defende injustiças em proveito próprio, embalando-as em discursos balofos, é fácilmente desmascarado.

O Estado pôde, ao longo das décadas, controlar e cartelizar os meios de comunicação, porque era preciso ter uma grande infra-estrutura física, e um grande capital, para fazê-los funcionar. Eram fontes (quase-)monopolísticas de informação, e por isso, qualquer grupo manhoso de liberticidas (comunistas, socialistas, corporatistas, neoconservadores e outros assassinos militaristas, progressistas, democratas,...) que as controlasse acabava por conseguir manipular países inteiros. Mas essa era acabou. As tecnologias modernas permitem divulgar a informação a preços extremamente competitivos, e isto está a dar cabo dos monopólios de outrora. O governo americano, o mais poderoso do mundo, não conseguiu nem vai conseguir fechar a Wikileaks. Até há, na Internet, vários sites pedófilos, com os quais os governos não conseguem acabar, apesar de causarem uma enorme repugnância à maioria das pessoas. Qualquer informação pode ser divulgada de forma anónima, recorrendo à criptografia. A pirataria informática continua a dar dores de cabeça à indústria musical e cinematográfica. E os únicos pontos de controlo que o Estado ainda tem - a infrastrutura: redes telefónicas, de cabo, redes ópticas e antenas para telemóveis - também se vão tornar supérfluos no dia em que os mini-satélites em estudo se tornarem comuns, visto que estes últimos estarão fora do alcance dos vários estados.

Não há volta a dar a este fenómeno. Os jovens já práticamente não vêem televisão, nem ouvem rádio, nem lêem jornais. E quando os consultam, não acreditam no que lá se diz. Já só os velhos se deixam influenciar pelas tretas que o Sistema debita. E como se sabe, os velhos têm tendência em morrer, perdendo assim da sua relevância. Por isso, as próximas gerações vão crescer num ambiente mais crítico, mais aberto, mais competitivo, menos manipulável. Vão ter ideias frescas. O Estado, este poço sem fundo de parasitismo, vai estar sob ataque como nunca esteve. Mesmo que no curto e médio prazo continue a aumentar o seu poder, está condenado a regredir.

Os liberais podem sentir-se razoávelmente optimistas. À tomada de consciência global que as novas tecnologias permitem seguir-se-á um dia ou outro uma faísca: o desejo de sacudir o jugo, o desejo de liberdade. E aí, as coisas vão mudar bem depressa.

Viva a Internet! Viva a Liberdade!