segunda-feira, 28 de março de 2011

Criação De Lealdade









Os adeptos do Sistema tomaram o hábito de se exibirem sistemáticamente ao pé duma bandeira da União Europeia. Já quase que têm vergonha, práticamente, de se mostrarem simplesmente ao pé da bandeira nacional.

Isto é altamente significativo. As bandeiras não são simples trapos. São símbolos que revelam as lealdades e os princípios políticos daqueles que as exibem (basta ver, por exemplo, que poucos políticos ousariam mostrar-se ao pé duma suástica...). Os políticos, ao exporem constantemente bandeiras da UE, revelam que já transferiram a sua lealdade dos vários estados nacionais para o Império europeu em construção acelerada. Revelam que já abandonaram a ideia duma nação independente e livre de dominação estrangeira. Revelam, no fundo, que são traidores dos seus povos, que pretendem defender. E do mesmo modo, ao exibirem a bandeira "portuguesa", mostravam outrora a sua lealdade à república portuguesa, e o seu repúdio da monarquia que a precedeu. Um homem do povo que exibe a bandeira verde-amarelo-vermelho, óbviamente, não pensa nessas coisas. Tão só exprime o orgulho que tem no seu país. Mas os políticos, quanto a eles, sabem o que fazem.

E este novo costume assumidamente europeísta, de tão sistemático que se tornou em pouco tempo, revela uma estratégia pensada das nossas elites políticas. Não no-la expõem abertamente, porque é manhosa, mas aplicam-na conscientes do que estão a fazer. O seu objectivo é, sabendo elas da natureza conservadora dos povos, tornar aquilo que é hoje uma modernidade - o Estado europeu - em norma inquestionada. A sua estratégia consiste simplesmente, pela força da repetição, em habituar os povos à ideia da "Europa", tentando reforçar o sentido de pertença e de simpatia entre povos. Isto pela razão de que sabem que esta amizade natural entre povos semelhantes, que nada de criticável tem em si, pode ser utilizada para reforçar o poder das burocracias europeias e enfraquecer as resistências nacionais que se lhe opõem, criando e aumentando desta forma a lealdade da população perante o Estado europeu. Ao ponto que um dia qualquer, aquele que se opuser à União Europeia, em vez de ser considerado como inimigo do Estado europeu em si, será visto como inimigo da Europa, como se um Estado qualquer e a sociedade que domina não fossem duas coisas diferentes. Só um certo patriotismo difuso ainda presente na população impede os políticos "nacionais" - na verdade, agentes do Império - de se mostrarem únicamente com a bandeira europeia quando se lhe dirigem, por medo de criarem anti-corpos separatistas e nacionalistas.

Esta criação de lealdade e de organizações políticas é feita em nome da "união e da paz" entre os povos, seguindo a ideia grotesca de que esta "união" só pode existir caso haja organismos políticos - logo coercivos - a oprimi-los com legislações aberrantes e liberticidas, e a transferir riquezas à força, de um lado para o outro. Neste espírito, é assumido que a UE é a única coisa que impede os vários estados nacionais europeus de se fazerem a guerra, como se não existisse uma terceira via, desejável, duma Europa de nações independentes vivendo em paz umas com as outras, no respeito das sua fronteiras respectivas. Ideia aberrante se há alguma (esta da "Europa à beira da guerra"), pois foi só a efectiva e préviamente existente boa vontade entre povos europeus - que de igual modo possibilitaria, se houvesse vontade de acabar com a UE, a existência duma Europa pacífica - que criou as condições para o crescimento da União Europeia até ao nível de força que tem hoje, sem sobressaltos nacionalistas de maior importância. Na verdade, e irónicamente, é o "projecto europeu" de paz e união (e amor também, já agora?) que, ao criar um mecanismo internacional de coerção e controlo, divide os países em dominantes e dominados, acabando ele próprio por fomentar a antipatia entre povos, que levará mais tarde ou mais cedo a uma guerra civil/separatista, à escala assustadora e gigantesca da Europa inteira. Ao passo que numa Europa de nações independentes, os conflitos tenderiam mais provávelmente a assumir uma escala mais pequena, nacional.

Neste contexto triste e sombrio - que não parece ter solução no curto prazo - só faz bem exprimir as suas lealdades mais íntimas e mais próximas. Pois o Império merece que lhe cuspam à cara. Se não houver alguma resistência à centralização política em curso, qualquer dia ainda teremos que aturar políticos a mentir-nos ao lado duma bandeira das Nações Unidas.



(Dedico este post a uma puta reles enviada pela UE - literalmente, visto que trabalhava para este organismo - que, numa missão de propaganda clara e desenvergonhada, se dirigiu uns anos atrás ao meu liceu para dar aos alunos todos da escola reúnidos na ocasião uma lição sobre as qualidades e benefícios imprescindíveis do seu patrão. Esta vaca, vestida à putona executiva (o que tem piada, visto que como funcionária pública bem paga, e ao contrário das verdadeiras mulheres de negócios, nunca produzira nada da sua vida), como se não estivesse satisfeita por fazer propaganda a adolescentes manipuláveis e acríticos, ainda se permitiu falar-lhes de forma arrogante e altiva, na altura em que estes, por serem jovens tontos, e por estarem aborrecidos com a tanga que lhes estava a ser servida (e talvez por intuitivamente sentirem um saudável desprezo pela cabra que tinham à frente), começaram a fazer barulho e a rirem entre si. Típica arrogância de parasita.

Querida, não me lembro do teu nome. Mas se me estás a ouvir, só te peço uma coisa: FAZ-ME UM BÓBÓ.

E manda os meus cumprimentos aos teus patrões: o Sarroso, o Rompulha, e a Ashcrosa.)

terça-feira, 22 de março de 2011

Invadam O Mundo

Este texto foi escrito em Setembro de 1994, o autor iria falecer no ano seguinte. Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um académico da Escola Austríaca da economia, fundador do libertarianismo e herdeiro da chamada Old Right. Autor de milhares de artigos e 25 livros. Este ensaio faz parte de uma publicação para que contribuía regularmente nos últimos anos da sua vida, denominada de Rothbard-Rockwell Report (Triple R) que exibe Rothbard nas suas várias facetas: o jornalista, crítico cultural, observador político e organizador de um movimento. Esta publicação acabou por inspirar no seu estilo o site lewrockwell.com.

Traduzido por Carlos Novais, revisto por Elisabete Joaquim e Miguel Madeira.

INVADAM O MUNDO, Murray N. Rothbard

em The Irrepressible Rothbard, Essays of Murray N. Rothbard, Edited by Llewellyn H. Rockwell, Jr., Setembro de 1994 (http://www.lewrockwell.com/rothbard/ir/Ch34.html)

Quando o Comunismo e a União Soviética colapsaram há uns anos, parecia evidente que tinha de se pôr em curso uma reavaliação profunda da política externa americana. Durante todo o período da Guerra Fria, a política externa dos EUA reduziu-se simplesmente a uma cruzada bipartidária intervencionista contra a União Soviética, e as únicas diferenças eram precisamente sobre quão longe esse intervencionismo global devia ir.

Mas quando a União Soviética se desmoronou, uma nova reflexão parecia absolutamente necessária, pois o que poderia agora constituir a base da política americana? Mas, entre os intelectuais e elites, moldadores da opinião nos Estados Unidos e até mesmo no mundo, nenhuma reavaliação acabou por ocorrer. Com a excepção de Pat Buchanan e nós paleos[1], a política externa dos EUA prosseguiu como de costume, como se nunca se tivesse dado o colapso da Guerra Fria. E de que forma? Buchanan e os "neo-isolacionistas" pediram que a intervenção americana passasse a ser pautada estritamente pelo interesse nacional americano. Mas a Aliança progressista [n.t. no original: liberal] /neocon, agora mais do que nunca (agora que o comunismo soviético, sobre o qual os neocons eram mais duros, desapareceu), fingiu primeiro concordar e, em seguida, simplesmente e astuciosamente redefiniu o conceito de "interesse nacional" de forma a cobrir todo e qualquer mal, todo e qualquer drama debaixo do Sol. Está alguém com fome algures não importa quão longe das nossas fronteiras? Isso é do nosso interesse nacional. Está alguém ou algum grupo a matar algum outro grupo num qualquer ponto do planeta? É do nosso interesse nacional. Há algum Estado que não seja uma "democracia" tal como definida pelas nossas elites progressistas e neocons? Isso coloca um desafio ao nosso interesse nacional. Está alguém a incorrer em Pensamentos de Ódio [n.t. no original: Hate Thought] algures no globo? Isso tem que ser resolvido pelo nosso interesse nacional.

E assim qualquer problema ocorrido em qualquer parte passa a fazer parte do nosso interesse nacional, e passa a ser obrigação do bom velho Tio Sam, como a Única Superpotência Sobrevivente e pelo mundo indigitado para ser o Sr. Resolve-Tudo, dar uma solução a cada um desses problemas. Porque "nós não podemos ficar de braços cruzados" quando alguém algures passa dificuldades, quando alguém bate na cabeça de alguém, quando alguém é antidemocrático ou comete um Crime de Ódio [n.t. no original: Hate Crime].

Deve agora ser claro que neste momento não há virtualmente qualquer distinção na política externa entre os progressistas [n.t. no original: liberals] e os neocons, entre os Tony Lewis e os Bill Safire, entre a Commentary e o Washington Post. Onde quer que exista um problema, todos os analistas liberals-neocons e bombardeiros de sofá [n.t. no original: laptop bombardiers] torcem invariavelmente por uma intervenção dos EUA, pela guerra pura e simples, ou através da via favorita de passos graduais que são as "sanções". As Sanções, uma escalada de intervencionismo passo-a-passo, são uma política favorita dos pro-intervencionistas. Pedir o bombardeamento imediato ou invasão do país X assim que começa um qualquer problema pareceria excessivo e até mesmo um pouco doido para a maioria dos americanos que não tem o mesmo sentimento de profundo compromisso com a noção dos EUA como Solucionador Global de Problemas que têm os especialistas e as elites. As sanções podem saciar temporariamente a sede de beligerância. E assim temos as sanções: colocar à fome os vilões, cortar as redes de transporte, o comércio, confiscar os seus bens em termos de activos financeiros e, finalmente, quando isso não funcionar, bombardear, enviar tropas, etc. Estas são normalmente enviadas primeiro como força missionária puramente "humanitária", para salvaguardar a ajuda "humanista" das "forças de manutenção da paz" da ONU. Mas logo de início, alguns nativos locais desventurados, virando-se irracionalmente contra toda essa ajuda e altruísmo, começam a atirar sobre os seus muito amados ajudantes que ficam então sob fogo, e assim os EUA são obrigados a enfrentar a perspectiva de ter de enviar tropas, as quais recebem ordens para atirar a matar.

Nas últimas semanas, para além de tropas humanitárias, tem havido uma escalada de opinião sobre "sanções" a serem aplicadas pelos EUA: contra a Coreia do Norte é claro, mas também contra o Japão (por não comprarem mais exportações americanas), contra o Haiti, contra os Sérvios da Bósnia (sempre referida como a “auto-denominada República Sérvia” – Isto em contraste com todos os outros governos que serão "denominados" por outros?). Jesse Jackson quer que os Estados Unidos invadam prontamente a Nigéria, e agora temos o Senador Kerry (D., Massachusetts) a pedir sanções contra nosso antigo inimigo,o Canadá, por não acolher os pescadores de Nova Inglaterra nas suas águas.

Mas OK, chegou o momento de sermos duros e consistentes. As sanções são apenas uma forma covarde de compromisso propostas por meias tintas. Temos de encarar de frente o facto de que não há um único país do mundo que possa ser comparado com os sublimes padrões morais e sociais que são a marca registada dos E.U.A.: até mesmo o Canadá merece uma repreensão. Não há um único país do mundo que, como os Estados Unidos, tresanda tanto a democracia e "direitos humanos" e esteja livre de criminalidade e assassinatos e de discurso de ódio e actos antidemocráticos. Muito poucos outros países são tão politicamente correctos como os Estados Unidos, ou têm a sagacidade para impor um programa massivo de estatismo em nome da "liberdade", "comércio livre", "multiculturalismo" e para "expandir a democracia".

E então, uma vez que nenhum outro país é capaz de estar à altura dos standards dos E.U. num mundo de Única Superpotência, todos eles devem ser severamente postos na ordem pelos EUA, e nesse sentido faço eu uma Proposta Modesta para a única política externa consistente e coerente: os Estados Unidos devem, muito em breve, Invadir o Mundo! Sanções são coisa menor. Nós devemos sim invadir todos os países do mundo, talvez suavizando-os previamente com um maravilhoso espectáculo high-tech de bombardeamentos com mísseis, cortesia da CNN.

Mas como seremos nós vistos aos Olhos da Opinião Pública Mundial se invadirmos o mundo? Não se preocupem; podemos sempre obter a cobertura das nossas marionetas mantidos na ONU, NATO ou qualquer outra coisa. Boutros Boutros-Ghali, que já renegou o seu acordo para cumprir apenas um mandato como secretário-geral da ONU, é perfeito para o trabalho; nunca existiu um oficial da ONU com mais apetência pela cadeira Mas e quanto ao Conselho de Segurança? Tudo OK, porque podemos sempre comprar a abstenção da China ou de quem quer que seja por alguns bilhões. Não há problema.

E assim o mundo inteiro vai viver sob as bandeiras dos E.U. e ONU, felizes, protegidos, livres de criminalidade e pobreza e ódio. O que poderia ser mais inspirador?

Alguns isolacionistas, limitados e mesquinhos, egoístas, indiferentes e provavelmente anti-semitas, irão no entanto queixar-se. Eles gostam de evocar várias "lições," por exemplo, a Somália. Vão provavelmente dizer: sim, com toda certeza que conseguimos ir lá e "ganhar" com facilidade, mas como vamos sair? Para implementar a democracia, acabar com o genocídio, pobreza, ódio, etc., nós os Estados Unidos, temos de construir a infra-estrutura do país, criar e treinar um exército e uma polícia (preferencialmente nos EUA).Temos de doutrinar o infortunado país sobre liberdade e eleições livres, criar os seus dois partidos políticos Respeitáveis e começar um amplo programa de auxílio de biliões de dólares para fazer com que todos sejam saudáveis, sábios e com bem estar, fornecer um programa educacional (repleto de enormes sacos de alimentos atirados de avião e de modo a que a CNN possa ajudar – mesmo que alguns dos "ajudados" sejam mortos pelos sacos), proibir fumar e a junk food e alimentá-los a todos com tofu e mangas cultivadas por métodos orgânicos.

E o que dizer do Partido Regressar? O que fazer com a nossa experiência universal de que quando o exercito americano sai, todo o auxílio, infra-estrutura, etc., vai pelo cano abaixo? A solução é simples, embora ela tenha sido muito ignorada porque alguns teimosos e egoístas míopes fascistas iriam fazer um enorme alarido. A solução: Nunca Sair! Para Sempre. Desta forma não precisamos de nos preocupar sobre como preparar os nativos para a transição. Devemos permanecer e alegremente Governar o Mundo. Permanentemente para o bem de todos. Um Paraíso na Terra. Podemos chamá-la, a "política do significado" [n.t. no original “politics of meaning”].

Mas como vamos obter a mão-de-obra necessária para fazer o trabalho de ocupação? Não se preocupem com isso. Em primeiro lugar, poderemos ter um exército de 20 milhões de homens e mulheres, devidamente gayzado e feminizado e Politicamente Corrigido, marchando com pacotes de alimentos, medicamentos e hipodérmicos numa mão e armas e preservativos na outra. Nós temos muitas opções de recursos humanos, poderemos reactivar o serviço militar obrigatório, restaurar o Corpo de Paz, e/ou podemos criar um enorme programa de serviço nacional do tipo Buckley-Clinton, onde as crianças terão a oportunidade de "dar de volta à sociedade" com dois anos interessantes de saudável amadurecimento, para a criação de infra-estruturas no Zaire ou Haiti ou Coreia do Norte. Com este programa, as crianças poderiam mesmo "dar de volta" ao Planeta. O quê? O senhor aí está a objectar que alguns dos nossos filhos podem contrair doenças ou levar um tiro ao longo do caminho? Bem, ainda assim estará tudo OK, porque, como se diz hoje em dia, cada fracasso é uma "experiência de aprendizagem".

E naturalmente, os E.U.A. apenas vão fornecer a espinha dorsal das forças permanentes dos Ocupantes do Mundo. O resto dos slots será preenchido por tropas de cada um dos outros países do mundo, liderado pela ONU, NATO, etc., fornecendo experiências igualmente saudáveis e alegres para outros ocupantes: Ucranianos, Zairianos, Vietnamitas, etc. Ver tropas vietnamitas, por exemplo, a ocupar a Holanda, proporcionaria lições de democracia global instrutivas em multiculturalismo e amor mútuo entre todos os povos. Claro que os mais tacanhos e de vistas curtas terão que ser tratados com severidade, mas estou confiante que programas maciços de educação, cursos de orientação, professores, livros e panfletos, etc., irão mudar o clima comum de ódio étnico para um de amor e compreensão. Para além dos professores, atitudes detestáveis e antidemocráticas serão erradicadas por uma legião de psiquiatras, psico-terapeutas, etc.

Como vai tudo isto ser financiado? Cada nação irá, naturalmente, contribuir com o seu "quinhão" adequado e justo de despesas, mas dado que os E.U.A. são a Única Superpotência do mundo, temos de encarar o facto de que os Estados Unidos terão de pagar a parte maior – talvez uns 80 ou 90 por cento – do programa.

E claro que há sempre umas quantas mentes simples, velhos do Restelo, egoístas dogmáticos, que se vão afastar desta proposta e afirmar que é demasiado "caro". Há sempre aqueles que conhecem o preço de tudo e o valor de nada. Mas novamente: não há que nos preocuparmos. Haverá um esforço educativo transversal maciço, de todas as partes do espectro político, da esquerda Clintoniana ou Jacksonian para as dezenas de auto-proclamados institutos de "mercado livre", que, devidamente financiados pelo governo e pelas elites corporativas, vão inundar-nos de argumentos de como o programa "se pagará por si próprio”, que está na melhor tradição do Mercado Livre e Democracia; que essas despesas não são realmente dispendiosas porque constituem "investimento em capital humano" e, portanto, pouparão dinheiro no longo prazo aos contribuintes, etc. E ao eliminarmos todas as ténias intestinais no mundo reduziremos custos médicos e acabaremos a pagar menos dinheiro no futuro. Eventualmente.

Qualquer resíduo de queixa, qualquer uma que sobreviva a este esforço educativo – e vamos enfrentá-lo, existem sempre algumas maçãs podres em todos os cestos - será enviado para "centros de reciclagem educacionais," onde as suas objecções vão ser colocadas a marinar e, após alguns anos saudáveis nestes campos a podar e lendo obras seleccionadas de pensadores de esquerda, liberal, neocon e de libertários pragmáticos, eu tenho a certeza que irão emergir felizes e ajustados à Admirável Nova Democracia Global do amanhã.

Acabei assim de apresentar acima as implicações que seriam consistentes com a nossa persistente política de intervencionismo, descrevendo o sistema para o qual este país está a tender.

A questão é: o que podemos nós fazer para evitar esta tendência? Como podemos Fazê-la Desaparecer? Como podemos nós prevenir "1984"? Infelizmente, o Partido Republicano, embora significativamente melhor que os democratas na política interna, tem sido, se alguma coisa, pior e mais intervencionista nos assuntos externos. Notar a reacção republicana com Slick Willie[2]: acusaram-no de trapalhice, evasão, contínuas mudanças de linha (tudo verdade), mas excepto no Haiti, na verdade não se opõem a uma intervenção per se. Claro que, seria bom ter uma política externa clara e consistente, mas clara em que direcção? Um Inimigo claro não é exactamente uma bênção.

Enquanto isso, as coisas estão longe de estarem perdidas. Há uma vaga de base anti-guerra como de paleo-popular neste país, o que é reconfortante. Há todo o tipo de manifestações: conselhos de cidadãos conservadores, movimentos de milícia, xerifes que se recusam a fazer cumprir a lei Brady, pivots de programas de rádio de direita, falta de entusiasmo para enviar tropas americanas para serem mortos na Somália ou Haiti, um movimento de Buchananites, e cada vez mais bom senso sobre esta questão pelo colunista Robert Novak. Entretanto, o mínimo que a Triple R pode fazer é acelerar o Clima de Ódio na América e esperar pelo melhor.


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[1]n.t.: o termo paleo tinha por esta altura surgido para mencionar os paleo-libertarians e os paleo-conservatives, como contraposição aos left-libertarians (atribuído por exemplo ao Cato Institute e Partido Libertarian, ambos fundados por Murray N. Rothbard e dos quais acabou por se afastar) e neo-conservadores. As diferenças ideológicas passam pelo conservadorismo social (com alguma predominância de autores católicos e também do Sul dos EUA) e estrito localismo dos primeiros, e uma certa visão de direitos assegurada e gerida centralmente pelo governo federal dos segundos, os primeiro também estritos não-intervencionistas em política externa (Patrick J. Buchanan iria publicar o seu “A Republic, not an Empire) o que os faziam e fazem inimigos naturais do neo-conservadorismo (que acusam de conter bases progressistas revolucionárias no seu programa de levar a democracia ao mundo, espécie de messianismo anti-natura presente na direita de hoje), que nesta altura, dominavam já o espectro mainstream da política americana em ambos os partidos.

[2]n.t. apelido satírico para referir Bill Clinton (estamos em 1994).

War

Pelo Gabriel Silva, 20 de Março 2011, no Blasfémias.

Não deixa de ser curioso, e ao mesmo tempo profundamente triste que por cada guerra que se inicia no mundo muitos achem que o mundo fica mais seguro.

Há também os que acham que por cada conflito interno os outros estados devem interferir. Para salvar os inocentes e os «bons». Claro que para isso é preciso bombardear, destruir, invadir e matar inocentes. Mas é para bem deles…..

Há mortes de civis que são danos colaterais. Há outras mortes de civis que são crimes contra a humanidade. Depende do rótulo. E do «juiz».

Por cada conflito interno irá abrir-se uma frente de batalha intervencionista por parte do militarismo ocidental? Vamos ter uma polícia mundial? Hum… vá lá, parece que ainda não, os sauditas invadiram um país vizinho onde ajudam uma minoria a reprimir pela violência uma maioria. Mas para muitos serão os «nossos sacanas» e os «nossos» fundamentalistas.

Há quem acredite que da poeira e destroços das bombas estrangeiras se assegurará a liberdade na Líbia. Coitados. Deles e de nós.

Há quem entenda que países democráticos podem entrar em guerra sem autorização dos seus povos e dos seus parlamentos mas por mera decisão de vagos foruns internacionais e do poder executivo, comprometendo milhões dos seus cidadãos em custos, responsabilidades e consequências e riscos imprevisíveis e sem que sequer seja esclarecido do interesse desses países em iniciar uma nova guerra. É uma tolerância ao despotismo nesse aspecto não muito diferente daquele que se pretende combater.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Já Basta!

Mubarak, rua! Sócrates, rua! Ben Ali, rua! Cavaco, rua! Khalifa, rua! Passos Coelho, rua!

Já Basta!

Abaixo os ch****!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Liberalismo E Conservadorismo

Pelo Rui Botelho Rodrigues, 9 de Março 2011, na Ordem Natural.

Se o liberalismo «parte do reconhecimento de direitos individuais inalienáveis», então a destruição de «instituições existentes» que atentem contra esses direitos é também uma parte do "programa liberal". A concepção de direitos inalienáveis e de uma organização política que os garante é, de resto, necessariamente construtivista, pois implica uma clara separação entre uma lei ética objectiva.a ser seguida e posta em prática, e a lei positiva e prevalecente - e geralmente elas não se sobrepõem. O conservadorismo político será, portanto, coincidente com o liberalismo apenas quando existir uma sociedade plenamente liberal para conservar. Naturalmente é psicologicamente possível conciliar o conservadorismo político com a ética liberal, mas intelectualmente a conciliação é falaciosa.

O problema parece-me ser a ausência de distinção entre conservadorismo político e conservadorismo social e pessoal. Muitos autores defendem que a ética liberal aplicada geraria uma sociedade plenamente conservadora no plano moral, e tendo a concordar. No entanto, não é desse conservadorismo saudável (que, no essencial, consiste no respeito por normas morais que coincidem na prática com a ética interpessoal do liberalismo) que nasce o conservadorismo político, dada a contradição mencionada no primeiro parágrafo e encontrada amiúde entre essas criaturas fantásticas que dão pelo nome de "conservadores liberais" (ou vice-versa).

O conservadorismo político limita-se a confundir o respeito conservador pela tradição com a defesa inconsequente de qualquer sistema político vigente, mesmo quando esse regime atenta, em princípio e na prática, contra valores sociais conservadores (e o melhor exemplo disso é a superstição democrática). Por um lado é compreensível que muitos liberais se sintam mais em casa junto dos conservadores (que, apesar de tudo, clamam acreditar em propriedade privada e moral objectiva), dado que a esquerda é geralmente libertina e tende a ridicularizar ou menosprezar os valores "burgueses", a religião e o tradicionalismo. Mas por outro é indesculpável que se juntem aos conservadores contra o suposto contrutivismo implícito numa ética objectiva que supostamente defendem. Em última instância, o conservadorismo moral estará sempre em tensão com o conservadorismo político, quando não em abjecta contradição.

A destruição (e não é necessário ter pudores contra esta palavra) de instituições existentes que sejam contrárias à ética objectiva do liberalismo deveria ser, pois, uma das prioridades para qualquer liberal. E essa destruição não significa necessariamente revolução ou actos de violência. Pode ser, na verdade tem de ser, uma luta intelectual puramente pacífica e gradual.

Para citar a famosa frase de Lord Acton, um liberal muito tradicionalista: «Liberalism wishes for what ought to be, irrespective of what is».

Exemplo

Pelo Pedro Arroja, 10 de Março 2011, no Portugal Contemporâneo.

O discurso do Presidente da República, na parte em que apelou aos portugueses para viverem fora da esfera do Estado, criando empresas e procurando empregos fora do Estado, é uma manifestação típica do excepcionalismo católico. São recomendações que ele faz para se aplicarem aos outros, e que provavelmente ele considera boas para os outros, mas não para ele.

Porque, afinal, o Presidente da República fez toda a sua vida e a suas diferentes carreiras à sombra do Estado, e por cada função que desempenhou no Estado - quatro, no total (cf. post abaixo) - para além de um vencimento bom e seguro ficou com direito a uma pensão de reforma - quatro no total.

Esta é a vida que qualquer português gostaria de ter e o Presidente da República é o exemplo vivo de que o que é bom é viver sempre à sombra do Estado. Como é que ele quer agora persuadir os portugueses a viverem fora do Estado? Basta olhar para o Presidente, e ninguém quer tal coisa. Aquilo que todo o português quer é fazer uma carreira (várias, se possível) no Estado, e por cada uma auferir um vencimento bom e seguro e mais uma pensão de reforma - uma por cada função, bem entendido.

terça-feira, 1 de março de 2011

Viva O Imperialismo Krioulo!

Sean Santos (ISCSP-UTL), 14 de Janeiro 2011, no Ciclo de Tertúlias.


“O Estado de Cabo Verde, rege-se, nas relações internacionais pelos princípios… da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados…” (1)

“Não falamos mais de uma intervenção militar da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que parece, felizmente, afastada de momento.” ~Jorge Borges, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde (2).

Depois de 10 anos de poder, sem fazer reformas que estimulassem de forma significativa as exportações nacionais, o governo de José Maria Neves, em colaboração com a presidência da república, decidiu implementar um “Grande Salto em Frente” e tornar Cabo Verde num exportador de Democracia e Estabilidade Institucional.

Assim, o Primeiro-Ministro fez campanha pelo PS em Portugal (3) e por causa da crise que se vem arrastando na Guiné-Bissau, os governantes caboverdianos têm feito uma série interminável de viagens e têm participado numa sucessão estonteante de reuniões, congressos e encontros para debater esse problema e isoladamente ou em conjunto com dirigentes de outros países, têm feito recorrentemente declarações sobre como os guineenses devem conduzir os seus assuntos internos. Ao mesmo tempo circulam rumores sobre a participação militar caboverdiana numa possível missão de estabilização nesse país. Quem observar a ligeireza com que os dirigentes caboverdianos opinam sobre a vida política guineense ficará com a impressão de que o sonho de Cabral se cumpriu e que José Maria Neves e Pedro Pires também são primeiro-ministro e presidente, respectivamente, da Guiné. Como seria de esperar tanta ingerência externa tem levantado muita resistência por parte dos guineenses.

Na mais recente crise eleitoral na Costa do Marfim, temos assistido à mesma hiperactividade por parte dos nossos dirigentes. Para além dos já habituais comunicados e reuniões tivemos duas viagens de Pedro Pires (esse eterno democrata) à Costa do Marfim para, em conjunto com dois outros chefes de estado da CEDEAO, tentar convencer Laurent Gbagbo a abandonar o poder. O resultado destas viagens, até este momento, foi, como seria de esperar, igual à importância geopolítica dos presidentes que as efectuaram, ou seja: zero. As visitas de Pedro Pires à Costa do Marfim tiveram a agravante de terem sido feitas depois de uma (de várias) reunião da CEDEAO (para os menos informados esta é a sigla para ClubE dos DEmocratas da África Ocidental) em Abuja a 24 de Dezembro, em que Pedro Pires participou que terminou com um comunicado avisando Gbagbo de que, caso não abandonasse o poder a comunidade poderia intervir militarmente na Costa do Marfim (4). Portanto, quando Pedro Pires foi para a Costa do Marfim “dialogar” com Gbagbo uma das imagens que ficaram foi a de o chefe de estado caboverdiano ir entregar um ultimato que ele próprio ajudara a elaborar. Se as viagens de PP, tiveram algum resultado foi, certamente, o de criar ainda mais incerteza.

O que sobressai destes dois casos é uma política externa que até aqui tem tido um elevado grau de ingerência em assuntos de outros países, embora limitando-seao plano diplomático mas que no futuro poderá chegar ao ponto de Cabo Verde participar em intervenções militares no exterior. Esta hipótese não tem sido abordado de forma suficientemente clara pelos governantes nacionais, mas a avaliar pelas suas declarações e pela sua participação em reuniões como a de Dezembro, acima mencionada, o mínimo que se pode dizer é que existe essa tentação. Aqui, torna-se indispensável assinalar que tanta pressa em se imiscuir em assuntos internos de países soberanos em nome da democracia e da estabilidade vem dos mesmos políticos que durante a última revisão constitucional fizeram finca-pé para que a Lei Fundamental mantivesse a interdição à instalação de bases militares estrangeiras em solo nacional, que são esses os mesmos políticos que mostram orgulhosamente que mantêm boas relações com os ditadores de Angola e da Guiné Equatorial (só a titulo de exemplo), que esses são os políticos que sempre que ouvem falar de uma intervenção americana em algum canto do mundo têm a reacção imediata de gritar histericamente: “Abaixo o imperialismo americano” sentindo uma profunda nostalgia do tempo em que a União Soviética estava presente para incentivar a liberdade e a paz no mundo e que, finalmente, são esses os mesmos políticos que por não conseguirem lidar com a crescente criminalidade em Cabo Verde (que já levou muitas vidas e causou elevadas perdas materiais) dizem que a sociedade caboverdiana tem um discurso alarmista e que está tudo muito bem.

Apesar de tudo, não podemos deixar de nos perguntar se Cabo Verde tem ou não o dever moral e a capacidade para intervir em países que passem por períodos de maior turbulência. Os argumentos que têm sido utilizados para justificar esta política externa caboverdiana têm sido os mesmos que normalmente são utilizados neste tipo de situações: guerras e a desorganização politica, embora decorram em (ou entre) países soberanos, afectam seres humanos inocentes, alguns até cidadãos caboverdianos, podem estender-se depois a outros países e trazem uma maior instabilidade económica que nos afecta a todos. Logo, não temos o direito de, instalados no nosso conforto, deixar tudo isso acontecer. Como é óbvio quase ninguém gosta de ver o outro sofrer e quase todos nós já desejámos uma grande coligação de forças democráticas que, inspirada, em princípios humanitários faça uma guerra que acabe com todas as guerras (só por curiosidade, foi assim que se apelidou a Iª Guerra Mundial durante um certo tempo…). No entanto, este tipo de guerra não só é impossível no contexto internacional actual, e provavelmente continuará a sê-lo por muito tempo, como levantaria todo um conjunto de questões morais. Na verdade, esse tipo de sonho assenta numa visão extremamente simplista da motivação humana para agir.

Mesmo tratando-se de intervenções no exterior com ambições mais limitadas continuam a existir questões a que não podemos fugir: a primeira é a de saber se temos o direito de desrespeitar a soberania de outros países, a segunda é se é aceitável fazer com que seres humanos morram e se delapidem recursos escassos, mesmo que seja por boas causas. A terceira questão é a de saber se estados que desconfiam uns dos outros podem acordar, entre eles, uma intervenção conjunta num outro país ou permitir que apenas um deles intervenha. Um estado deve “interrogar-se”: O que realmente motiva os que pretendem auxiliar os outros? É a vontade genuína de ajudar? Ou a de ter mais poder? Será o desejo de prestígio? E se a intervenção for mais sangrenta do que a situação que se procura corrigir? Caso a intervenção seja bem sucedida o que resultará daí? Quem controlará os controladores? E se o que esteve por detrás da intervenção, mau grado todas declarações de boa-fé, tiver sido sempre a vontade de ter mais poder? E se houver realmente boas intenções no início mas os actores da intervenção começarem a desconfiar uns dos outros ou simplesmente mudarem de ideias? Caso a intervenção não seja bem sucedida no início, deve-se continuar com o esforço ou parar por ali? Por que é que se intervém no país A e não no país B, onde existe uma situação tão ou mais grave do que nesse? Quando é que uma situação passa a ser suficientemente grave para que justifique sanções militares ou de outro tipo? Quais serão as consequências para a liberdade e democracia internas? É claro que em determinados momentos é preciso passar à acção senão a Humanidade ficaria inactiva enquanto acontecem as piores barbaridades. Mas de qualquer maneira são perguntas que têm de ser analisadas com prudência e não com wishful thinking nem com a pretensão de se saber sempre o que é bom e o que é mau.

Transpondo algumas destas perguntas para as situações aqui em análise, é antes de mais nada bastante evidente que um país tão pobre como Cabo Verde não tem condições para participar em missões militares significativas no exterior nem para comprometer a sua diplomacia com aventuras mal pensadas. Também não é muito evidente que seja a filantropia o único motor da ingerência externa nos assuntos da Guiné-Bissau e da Costa do Marfim.

No caso da Guiné-Bissau, o motivo principal para a intervenção externa é a vontade de ajudar o país a ganhar estabilidade, nomeadamente combatendo o narcotráfico, que afecta toda a região, embora não deixe de haver outros interesses à volta. Porém, é impossível prever como reagiriam as forças mais poderosas de um estado falhado, dominado pelo narcotráfico, por divisões tribais e por caudilhos, à presença de tropas estrangeiras no seu país.

O caso da Costa do Marfim é ainda mais perigoso pois dificilmente uma força militar da CEDEAO deixaria de se defrontar com uma guerrilha (mais ou menos o mesmo género de inferno que os americanos conheceram no Vietnam, e estão a viver agora no Iraque e no Afeganistão) e ainda mais obscuro (se possível):

1º Porque envolve grandes potências mundiais que, como de costume, falam em público de democracia e paz quando, nos bastidores, procuram assegurar os seus interesses. Este ponto torna-se ainda mais confuso uma vez que a Costa do Marfim é um dos cenários mais exóticos da, já de si incompreensível, “Franceafrique” (conjunto de relações entre a França e os países africanos) de que o Le Monde ao analisar os telegramas publicados pela Wikileaks sobre o tema, disse recentemente: “A complexidade das relações entre a França e a Costa do Marfim é capaz de fazer um embaixador americano mergulhar na perplexidade” (5).

2º Porque um grupo de países africanos (nomeadamente a poderosa Nigéria) muito pouco dados a preocupações com a democracia, tem estado extremamente activo com o único intuito de garantir que económica (na sua visão mercantilista da economia) e geopoliticamente não sai a perder deste processo.

De tudo isto compreende-se que estas duas situações são demasiado complexas, envolvem interesses demasiadamente poderosos para que a diplomacia caboverdiana se deixe levar pelo voluntarismo infantil que a tem caracterizado. O mundo das relações internacionais, como os inofensivos telegramas da Wikileaks vieram mostrar aos românticos mais teimosos, não mudou quase nada desde que em 1848 Lord Palmerston disse: “Não temos nem aliados eternos nem temos inimigos perpétuos. Os nossos interesses são eternos e perpétuos e são esses interesses que temos o dever de prosseguir” (6). Cabo Verde, embora seja cada vez mais evidente que os nossos governantes são patologicamente incapazes de compreende-lo, é demasiado insignificante para poder pesar na resolução dessas questões (principalmente na crise na Costa do Marfim). Tudo que temos feito é juntar mais barulho à algazarra correndo o risco de nos acharmos no meio de tempestades a que não temos a mínima hipótese de resistir.

Algumas consequências do imperialismo “a la morabeza” já se fazem sentir. A intervenção caboverdiana na crise marfinense é vista por alguns como sendo telecomandada por José Eduardo dos Santos (a quem faltariam desculpas para ter um papel directo mais activo na quezília), donde decorreria uma suposta falta de imparcialidade por parte de Pedro Pires, correndo o país o risco de simultaneamente ficar com uma diplomacia desacreditada por não se acreditar na sua independência e de criar inimizades; muitos naturais da CEDEAO residentes na Costa do Marfim, que são utilizados por essa organização como uma das desculpas para justificar a sua intervenção, não temem pela sua vida caso Gbagbo fique no poder mas sim caso a organização prossiga com a sua ingerência nos assuntos marfinenses, pois seriam alvo de perseguições por parte da população nativa. Isso sem falar no precedente que foi aberto com a ameaça de intervenção militar da CEDEAO na Costa do Marfim: se nas próximas eleições em Cabo Verde tivermos uma situação igual à de 2001 entre Pedro Pires e Carlos Veiga, fica a porta aberta para qualquer Kumba Yalá da costa ocidental africana ameaçar invadir o país caso o candidato que mais lhe interessar apoiar, não conquiste o poder. Coisa que, seguramente, poucos caboverdianos apreciariam.

O que mais espanta em todo este processo não é esta política dos governantes caboverdianos, é a forma como a imprensa nacional e a oposição lidam com ela como se fosse a coisa mais natural do mundo. Parece que ninguém é capaz de lhes perguntar: Just who the hell do you people think you are? Aliás, como Carlos Veiga (um possível futuro primeiro ministro) já veio dizer que apoia uma intervenção militar da CEDEAO para tirar Gbagbo do poder (7), se Neves ficar temos mais do mesmo, se Veiga ganhar, também teremos mais do mesmo, apesar do slogan “Mesti muda”.

Estávamos habituados a homens públicos megalómanos, um quis fazer uma ponte entre S. Antão e S. Vicente, outro quer fazer uma mini-Brasilía, também conhecida como cidade administrativa, certamente para ser lembrado como o Juscelino Kubitschek caboverdiano, mas transportar esses hábitos para os negócios estrangeiros é perigoso. Não duvido que os governantes nacionais tenham boas intenções ao tentar ajudar a resolver crises externas, mas não seria de espantar que, assim como Lula da Silva, tenham ouvido tantos elogios de circunstancia que passaram acreditar que de facto possuem poderes sobrenaturais, que são iluminados (a resposta que o presidente da república dá ao chefe da oposição quando este lhe pede que abandone a mediação na Costa do Marfim é sintoma de tal crença, não explica porque é que deve continuar, apenas diz:” É gente que não entende nada disso” (8). E pronto! Ora tomem lá! Está o assunto arrumado), que também estejam de olho numa abertura do jornal da CNN, numa lembrança cheia de adrenalina estilo “24”, em bons cargos em organizações internacionais ou mesmo numa nomeaçãozinha para o Prémio Nobel da Paz.

Não se defende aqui que Cabo Verde deva simplesmente ignorar o que se passa no resto do mundo. O que se defende é uma política mais de acordo com as capacidades e reais interesses do país. Cabo Verde pode participar como intermediário em negociações entre partes em conflito (como intermediário e não como elaborador de ultimatos), pode receber refugiados como fez durante a guerra civil de 1998 na Guiné-Bissau, pode ajudar materialmente países em situação mais urgente (claro que não seria uma ajuda externa como a da Suécia, mas haveria espaço para alguma coisa), pode trocar experiencias e competências com as forças de segurança guineenses, alguns mais idealistas dirão até que, na condição de ser um país próspero e estável, Cabo Verde pode fornecer um exemplo que encoraje os líderes africanos a seguir a via democrática. Pode-se até aceitar que Cabo Verde participe, excepcionalmente (e não como pão nosso de cada dia como alguns parecem querer), em missões urgentes de intervenção ou manutenção da paz sob a égide da ONU. Mas é indispensável que a política exterior caboverdiana tenha mais realismo. Mais realismo para lidar com os casos aqui discutidos, mais pragmatismo para avaliar a adesão à CEDEAO… E que tenha mais em conta a opinião dos cidadãos que deveria representar. O governo não tem legitimidade decidir sozinho se o país deve, ou não, participar na integração regional em curso nem para elaborar uma política externa que pauta pelo intervencionismo em países independentes e soberanos. Deveriamos realizar referendos sobre as grandes linhas de orientação dos negócios estrangeiros, assim como a Suíça.

Há alguns anos, quando a selecção nacional de futebol começou a dar um pouco do ar da sua graça, houve um pequeno debate sobre qual seria a sua alcunha. Falou-se em “as tartarugas”, mas esta seria demasiado desprestigiante, por motivos óbvios. Depois, sabe-se que, acabou por ficar “os Tubarões”, e embora a nossa selecção ainda tenha algumas parecenças com o simpático réptil, os seus adeptos esperam que, um dia, ela tenha a capacidade atlética e a agressividade do tubarão. O que não se sabia era que a diplomacia caboverdiana tinha adoptado para si a mesma alcunha e que estava disposta a honrá-la a todo o custo, ela (a diplomacia nacional) que, ao contrário da selecção de futebol, será sempre uma tartaruga. E, uma tartaruga com tiques imperialistas que entra num jogo de Elefantes, Super-Águias, Palancas Negras, Dragões Orientais e Irredutíveis Gauleses, é uma tartaruga que corre o risco de ser feita em cacos.

P.S (1): Como escrevo limitado às edições online dos principais jornais caboverdianos, este texto pode conter informações incompletas ou mesmo erradas. A versão mais recente da Constituição caboverdiana que pude consultar foi a decorrente da revisão de 1999.

P.S (2): Como para alguns em Cabo Verde a CEDEAO é uma vaca sagrada e sempre que alguém lhe dirige alguma critica é acusado de isolacionismo, xenofobia e até de racismo, acho necessário afirmar que considero-a como sendo óptima enquanto um espaço de livre comércio e onde governos soberanos podem conversar sobre problemas comuns. O que acho que é prejudicial para o país é a CEDEAO querer agir como um misto de União Europeia e NATO.



(1): Página 258, “As Constituições de Cabo Verde e Textos Históricos do Direito Constitucional Cabo-Verdiano”, Mário Ramos Silva.

(2): http://www.rtc.cv, “Intervenção militar na Costa do Marfim está “afastada de momento”, Jorge Borges”.

(3): http://www.expressodasilhas.sapo.cv: “José Maria Neves na Convenção do PS em Portugal”.

(4): http://ww.ecowas.int, Nº192/2010, “Extraordinary Session of the Authority of Heads of State and Government on Cote d’Ivoire “(alínea 10).

(5): http://www.Le Monde.fr, “L’enthousiasme de Laurent Gbagbo à l’évocation de Dominique de Villepin”.

(6): http:// www.bbc.co.uk/news,” Morality: does national interest always come first in Foreign Affairs?”

(7): http://www.expressodasilhas.sapo.cv, “Costa do Marfim: Carlos Veiga considera que Pedro Pires deveria deixar delegação”.

(8): http://www.asemana.publ.cv, “Pedro Pires desvaloriza “convite”de Carlos Veiga para abandonar mediação da Costa do Marfim”.

(9): www.expressodasilhas.sapo.cv: "Terá um Governo legitimidade para sozinho decidir da nossa integração numa comunidade regional?".