domingo, 7 de julho de 2013

Atlas



Quem se metta no trabalho missionario – politica, cultura, religião, economia – deve estar consciente do que isso implica. A coisa, feita de forma seria, tem um peso ao qual não se pode fugir.

Antes de mais, o missionario deve saber que vae ter que carregar o mundo inteiro às costas. Sozinho. Nesses dominios, a mudança começa sempre por um só homem, e continua sempre com um simples punhado de homens: os discipulos do primeiro, que vão espalhar a boa nova aos quattro cantos do mundo. Nunca é um movimento de massas. As massas não se movem: só grupos pequenos, restrictos, organizados, se mexem, e fazem mexer. Em primeiro lugar, alguem tem de assumir as suas convicções. E para tal, não pode olhar para traz, para ver se está acompanhado. Tem que ir sozinho para a frente: está encostado à parede. Essas coisas não se fazem por “comité”. Não se pergunta aos outros se se deve avançar. Trata-se de ter a seguinte posição: “Eu creio nisto. Quem me ama, siga-me”. Ha que saber que tanto a coragem como a cobardia são contagiosas. É preciso assumir a solidão, saber estar em minoria, saber remar contra a maré, apparentemente sem esperança de victoria.

Nesse espirito, é preciso saber tambem que a clandestinidade não funcciona. É preciso assumir uma posição Christica, franca, frontal. “Assumir”: a palavra diz tudo. Essa é a grande lição dos resistentes à tyrannia sovietica. Os Soljenytsine, os Bukovsky, perceberam, bem cedo, que tinham mais força se assumissem as suas ideias como posições de principio, dando a cara ao mundo. Dar a cara, assumir publicamente as suas convicções, não impede castigos por parte do poder. Mas dá um rosto à resistencia, dá à opinião publica uma face à qual se identificar. Um resistente está muito mais protegido, e tem muito mais capacidade de persuasão, se tiver uma posição publica. O homem das sombras acaba sempre por ser apanhado, e ninguem se preoccupa com elle. O resistente Vladimir Bukovsky, no seu livro “To Build a Castle”, explica bem que todos aquelles que tentaram fazer organizações secretas, e outros “encontros às escondidas”, foram implacavelmente quebrados pelo KGB. Emquanto que outros, communicando com a imprensa internacional, ou pedindo simplesmente ao regime que applicasse as suas proprias leis (enrolando o systema nas suas proprias leis e burocracias), conseguiram organizar authenticas conferencias de imprensa nos seus apartamentos, sahir mais depressa da prisão, serem exilados (de tanto chatearem o regime), organizarem associações de ajuda aos presos do gulag, etc... A sua candura protegia-os. O conhecimento do seu caso por parte da opinião internacional era uma defesa poderosa, umas algemas sobre o poder. O mais feroz dos regimes – um regime cruel por exemplo – depende da opinão publica. Pretende sempre obedecer a certos principios.

Tambem se deve perceber que a violencia não funcciona, apesar de ser tantas vezes legitima. Não funcciona, isto é, se o objectivo é o de fazer o bem. Conceito esse que é dificil de entender, para quem tenha testosterona e sentido de justiça, mas conceito importante no entanto. Ao luctar contra o systema, o missionario só apparentemente se está a oppor à violencia do Estado, o que poderia ser utilizado para justificar violencia politica no sentido inverso. Na verdade, está a combatter as cabeças dos seus semelhantes. Emquanto não tiver conseguido aclarar essas consciencias, nada feito. Não ha bombas nem balas que valham. Surgirão sempre mais soldadinhos, mais policias burros, para combatter os guerrilheiros e os bombistas. O Estado – a organização do Mal na terra – só tem a força que as pessoas lhe dão. Suppondo que um movimento guerrilheiro consiga apoderar-se do poder, não tendo havido mudança de opiniões em parte substancial da população, não se pode esperar melhores politicas por parte dos novos mestres. A mesma opinião publica que offerecia apoio e apathia aos donos anteriores promoverá os crimes dos novos mestres.

O exemplo do Christo, e dos discipulos que conquistaram o imperio romano – confronto sem violencia, mas sem concessões – tem muito que se lhe diga. É uma aparente fraqueza de homem desarmado, mas é na verdade bem viril. Conquistou meio mundo, e deu um exemplo de trabalho missionario efficaz para todos os tempos.

Ha varios exemplos de lucta violenta, de lucta armada, que não deram em nada (mesmo que tenham sahido vencedores). Recentemente, temos o exemplo da invasão do Iraque pelos americanos. Os insurgentes iraquianos andam h dez annos a pôr bombas contra os americanos, e contra o regime shiita que estes alimentam. Não ha mez nenhum em que não morram dezenas de pessoas em conflictos sunnitas-shiitas, ou iraquianos-americanos. Os niveis de violencia teem sido hallucinantes. Todos os horrores da tortura, dos esquadrões da morte, da pena de morte, das retaliações collectivas, dos bombardeamentos, dos attaques sobre civis, foram experimentadas pelo povo iraquiano. E no entanto, os americanos lá continuam, e o regime de Bagdad lá se mantem. Porque, no fundo, tem a acceitação duma grande parte do iraquianos, de varias confessões. E são mais os que se candidatam para a policia e para o exercito do que aquelles que morrem por bombas.

Fallando ainda da America, pode-se referir os casos da Revolução Americana e da Guerra de Secessão. A primeira levou à independencia das colonias, é verdade, mas à custa da liberdade dos americanos, lealistas ou independentistas, que viram os niveis de predação dos treze estados aumentarem immensamente para financiar a guerra contra Inglaterra. Sem contar com todos os crimes, expropriações e expulsões nomeadamente, que foram commettidos contra lealistas pacificos. Mais subtilmente, a revolução pariu o Estado federal americano, que opprime e ameaça de forma tremenda, hoje em dia, não só a America como o mundo inteiro. O “Congresso”da guerra habituou a população a uma acção politica collectiva, que levou aos Artigos da Confederação, que levou à Constituição americana, que levou gradualmente ao monstro politico que hoje se conhece. Tudo isso aconteceu apesar das pretensões de defesa da liberdade que a Revolução se arrogou. As revoluções não trazem liberdade, mas sim oppressão (veja-se o caso da Revolução francesa). No caso da Guerra de Secessão, os estados do Sul, por não terem a inteligencia de esperar uns mezes pelas eleições do Congresso ou da presidencia, entraram numa guerra destruidora e ultimamente suicida. Com o seu peso, podiam ter formado um terceiro partido, que seria o partido-baloiço entre os dois partidos maioritarios. Teriam assim forçado um dos dois partidos a responder aos seus anserios separatistas, na ansia de chegar ao poder (veja-se o caso do movimento separatista escocez, que tem arrancado dessa forma concessões successivas ao estado central inglez, nas ultimas decadas). Nestes casos historicos, a violencia não serviu de nada.

O trabalho missionario implica uma dedicação duma vida inteira. Não se muda mentalidades, muito mais mentalidades de minorias substanciaes – o que é necessario para haver massa critica para a mudança – em dois dias. É um trabalho duma vida, e mais do que isso, de varias gerações. Aliaz vê-se facilmente que certos combattes andam a ser travados ha mais de mil annos (a lucta entre o Islão e a Christandade, por exemplo). Dicto isso, não se pense que não se consegue fazer nada de visivel em vida. Ha a tendencia errada para acreditar que não se pode mudar o mundo, a politica, o Estado, as mentalidades. Pode-se. Não é facil, mas pode-se. Mas é algo que exige muita fé, muito desapego. Em boa verdade, as pessoas não fazem ideia que seja possivel mudar as coisas, encaram-nas como uma fatalidade, e como tal não fazem o trabalho missionario-politico-legal que seria possivel e necessario fazer. Não estudam a historia dos movimentos e das ideias, e como tal não sabem que o mundo vae mudando, que todas as gerações são diferentes das precedentes, que a cada geração ha uma mudança de valores. São capazes de passar trinta annos a pagar uma casa ao banco. São capazes de passar vinte annos a crear um filho, e todos os restantes da sua vida a preoccupar-se com elle. Mas não são capazes de defender os valores nos quaes acreditam, no seu intimo, durante os mesmo trinta annos. São capazes de comprar um alarme para pôr no seu negocio, mas não são capazes de luctar  por condições sociaes que protejam os seus investimentos e as suas vidas das patas predadoras das auctoridades. Em todos os dominios, percebem que as satisfacções de que beneficiam são o fructo final dum longo e penoso trabalho, mas em materia de trabalho missionario, esperam resultados rapidos. Como tal, as forças do Mal (burocracias, ideologos, lobis), que teem uma “fé” e dedicação propria – a ruinzice – estão tranquillas para avançar e prosperar. Basta uma minoria activa de homens conscientes para traval-as, para lhes dar mais trabalho do que estas aguentam, mas esta resistencia não existe. Nesses combattes, há sempre poucos homens verdadeiramente activos. A grande maioria é apathica e não deve ser vista como inimiga à partida: tanto balança para um lado como para o outro.

Deve-se estar pronto para a intensificação da lucta. Com o tempo, um movimento ganha força, adherentes. Ja não depende dum só homem, mas sim de varios. E o inimigo mostra as suas cores reles de forma mais clara, mais obvia. Torna-se evidente que é intolerante, falso e violento. Mostra-se cada vez mais desenvergonhado. Usa systematicamente de manhas e golpes baixos. É a arrogancia que precede a queda.

Ha que estar preparado para os crachás. Os maldosos, os ruins, agitam-se quando veem gente de bem. Isto faz parte do trabalho missionario, e deve ser visto como uma honra. Ha que não se desencorajar com a primeira “reguada” nos dedos (perca do emprego, prisão, porradões na rua, insultos). É depois dessa reguada que é preciso voltar ao trabalho, ao combatte. Só ahi é que se mostra à communidade que se tem coragem. Só ahi é que ella começa a confiar no missionario, a sahir da sua toca, e a combatter ao seu lado. Só a persistencia faz um cheffe. Até lá, até se ter dado provas, qualquer tomada de posição é vista como uma simples fanfarronada.

Finalmente, é preciso pôr alegria e gozo na lucta. Afinal de contas, à sua frente, o homem de bem só tem burros, idiotas, immoraes, canalhas, gente pequenina. Gente que não pode ser levada muito a serio. Gente que precisa de ser achincalhada. Perus, pavões. Balões que é preciso esvaziar.

Solidão, publicidade, coragem, pacifismo, resistencia e persistencia, fé e alegria. Os valores a cultivar no trabalho missionario.